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Crónica literaria ("Orpheu")

Fernando Pessoa

O Jornal, 6 de Abril de 1915, p. 1.

Cronica literaria

ORFEU – Revista Trímestral de Literatura. – No. 1 (Janeiro-fevereiro-março) – Depósitarios, Livraria Brazileira, de Monteiro & C.e, Lisbôa.

Como se dê o caso de sermos colaborador desta revista, e como, caso – não a querendo por isso criticar – preferissemos dar uma idéa da sua orientação, fatalmente consumiriamos um impossivel numero de colunas, limitar-nos-hemos a algumas observações, que não constituirão critica nem explicação, mas que visam apenas a orientar no assunto os espiritos curiosos e para quem meia palavra baste.

Como o leitor não sabe, o movimento romantico inglês foi iniciado definidamente pela publicação, em 1798, das Lyrical Ballads de Wordsworth e Coleridge. Este livro – que contém dois dos maiores poemas de todas as literaturas, o Ancient Mariner de Coleridge e a Tintern Abbey de Wordsworth – teve por toda a Inglaterra um êxito de gargalhada. Entre os que mais riram destacou-se Byron, que no English Bards and Scotch Reviewers, deu a qualquer dos poetas das Ballads uma desagradavel preeminencia no ridiculo. Até ao fim da vida Lord Byron teve sempre mais ou menos sob satira esses dois poetas; mas acontece que a sua terceira faze, que é o seu maior – senão o seu unico – titulo de gloria, foi escrita sob a influencia dêsses dois. Escussamos de historiar como o meio inglês se foi adaptando, e como Wordsworth acabou Poet Laureate; o caso de Byron, q ue morreu antes dêssa adaptação estar feita, resume tudo o que, de ensinamento, estes factos possam sugerir.

Nas sóbrias laudas do seu Essay Suplementary a edição de 1815 das Lyrical Ballads, Wordsworth escreveu estes periodos:

«Se ha conclusão que, mais do que qualquer outra, nos seja imposta pela revista, que fizemos, da sorte e do destino das poeticas, é a seguinte: que todo o autor, na proporção em que é grande e ao mesmo tempo original, tem tido sempre que criar o sentimento estético pelo qual ha de ser apreciado; assim foi sempre e assim continuará a ser... Para o que é propriamente seu, ele terá, não só que limpar, senão que muitas vezes que abrir, o seu proprio caminho; estará no caso de Anibal entre os Alpes.»

Estas palavras pertencem já a Eternidade. Chamamos sobre elas a atenção e o raciocinio do leitor. Não lhe diremos se é nossa opinião ou não, que haja homens de genio entre os colabores de Orfeu. Isso não o auxiliaria a compreender, nem alteraria a decisão do futuro.

Fernando Pessôa

  • Names

    • Anibal Barca
    • Lord Byron
    • Samuel Taylor Coleridge
    • William Wordsworth

    Titles

    • Ancient Mariner
    • Ballads
    • Lyrical Ballads
    • Tintern Abbey

    Periodicals

    • Orpheu