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Justiça

Fernando Pessoa

O Mutilado da Guerra: Orgão da “Liga Portugueza dos Mutilados e Invalidos da Guerra” Número Extraordinário, 3 Fevereiro de 1925, p. 3.

Justiça

De todos quantos directamente sofreram pela guerra, dos que efetivamente sofreram a mesma guerra, são os mutilados os que mais pungentemente, porque mais visivelmente, fazem preza nossa compaixão. Segurou-os a Morte, na passagem; não os largou a Vida: seus corpos ficaram esfarrapados da força egual e contraria dos supremos contendentes.

Se alguem tem jus humano – que, se não é mais, não é tambem menos, que o patriotico – ao carinho supremo dos que governam e administram os Estados, são estes, que trazem nos corpos, de um modo sinistramente negativo, a mais indiscutivel das condecorações.

Não pergunto nunca se foi bom ou mau que entrassemos, se foi bem ou mal que entrámos, na guerra alemã; não o pergunto porque ninguem me saberia responder, pois nisto, como em tudo, nem ha factos nem argumentos, mas só testemunhas e argumentadores. Neste caso dos mutilados, menos ha mister que se pergunte. Fosse quem fosse o responsavel da guerra – supondo que ha verdadeiros responsaveis em estas, como em todas as coisas – não o foram eles por certo, que para o circo foram mandados como animais, na jaula inevitavel da politica dos que não partiram. Assim, não havendo um criterio de culpa propria que restrinja o direito que eles teem ao nosso carinho expontaneo, nada ha que desculpe em qualquer homem são a indiferença para eles. E, se já a ninguem é humanamente licito que neles pense como em quem não mereça os extremos da acção caritativa e justa, nos governos do paiz, que os exilou regularmente para as fronteiras da Morte, tal indiferença tem a estatura de um crime.

Urge extinguir essa indiferença, e, visto que em ela um crime se tem cometido, fazer, ao menos, o unico acto proficuo de arrependimento verdadeiro, que é a não reincidencia e a compensação.

Duvido, porém, que esta justiça se consiga, por isso mesmo que é justiça. A surdez moral dos nossos governantes tem par só em sua cegueira intelectual. E onde não ha sentimento que se mova, nem razão que se convença, que esperança pode haver de justiça?

Fernando Pessoa

Texto recuperado e reproduzido por Paulo Samuel no jornal Villa da Feira – Terra de Santa Maria, nº 35, Outubro de 2013 (Samuel 2013, pp. 12-19), e recentemente republicado pelo próprio Paulo Samuel na revista Pessoa Plural nº 17 (Samuel, 2020). Agradeço a Fernando Cabral Martins pela indicação deste texto.