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O Livro da Poesia

Fernando Pessoa

Thesouro da Juventude,

1925-1928.

O Livro da Poesia

MEDITAÇÕES DO AVÔ E BRINQUEDOS DO NETO

Ao ver o neto a brincar,
Diz o avô, entristecido,
“Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!
“Quem me dera o tempo quando
Castellos assim fazia,
E que os deixava ficando
Ás vezes p’ra o outro dia;
“E toda a tristeza minha
Era, ao acordar p’ra vel-o,
Ver que a creada já tinha
Arrumado o meu castello.”
Mas o neto não o ouve
Porque está preoccupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.
E, emquanto o avô scisma, e, triste
Lembra a infancia que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castello cai;
E o neto, olhando afinal
E vendo o avô a chorar,
Diz, “Cahiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.”

FERNANDO PESSOA