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Chuva Oblíqua

Fernando Pessoa

Orpheu 2,

Junho de 1915, pp.160-164.

CHUVA OBLÍQUA

_____

POEMAS INTERSECCIONISTAS DE FERNANDO PESSOA

I

Atravessa esta paysagem o meu sonho d’um porto infinito
E a côr das flôres é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do caes arrastando nas aguas por sombra
Os vultos ao sol d’aquellas arvores antigas...
O porto que sonho é sombrio e pallido
E esta paysagem é cheia de sol d’este lado...
Mas no meu espirito o sol d’este dia é porto sombrio
E os navios que sahem do porto são estas arvores ao sol...
Liberto em duplo, abandonei-me da paysagem abaixo...
O vulto do caes é a estrada nitida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das arvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cahir amarras na agua pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem me sonho...
Súbito toda a agua do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse des¬dobrada,
Esta paysagem toda, renque de arvores, estrada a arder em aquelle porto,
E a sombra d’uma náu mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu vêr esta paysagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

II

Illumina-se a egreja por dentro da chuva d’este dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ella é o templo estar acceso,
E as vidraças da egreja vistas de fóra são o som da chuva ouvido
por dentro...
O esplendôr do altar-mór é o eu não poder quasi vêr os montes
Atravez da chuva que é ouro tão solemne na toalha do altar...
Sôa o canto do côro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente se chiar a agua no facto de haver côro...
A missa é um automovel que passa
Atravez dos fieis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Subito vento sacode em esplendôr maior
A festa da cathedral e o ruido da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre agua perder-se ao longe
Com o som de rodas de automovel...
E apagam-se as luzes da egreja
Na chuva que cessa...

III

A Grande Esphynge do Egypto sonha por este papel dentro...
Escrevo — e ella apparece me atravez da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pyramides...
Escrevo — perturbo-me de vêr o bico da minha penna
Ser o perfil do rei Cheops...
De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abysmo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pyramides a escrever versos á luz clara d’este candieiro
E todo o Egypto me esmaga de alto atravez dos traços que faço com a penna...
Ouço a Esphynge rir por dentro
O som da minha penna a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vel-a uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do tecto que fica por detraz de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre elle e a penna que escreve
Jaz o cadaver do rei Cheops, olhando me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal diffusa
Entre mim e o que eu penso...
Funeraes do rei Cheops em ouro velho e Mim!...

IV

Que pandeiretas o silencio d’este quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Ha danças sensuaes no brilho fixo da luz...
De repente todo o espaço pára...,
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do tecto, muito mais longe do que elle está,
Abrem mãos brancas janellas secretas
E ha ramos de violetas cahindo
De haver uma noite de primavera lá fóra
Sobre o eu estar de olhos fechados...

V

Lá fóra vae um redemoinho de sol os cavallos do carroussel...
Arvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira illuminada, luar no dia de sol lá fóra,
E as luzes todas da feira fazem ruido dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha á cabeça
Que passam lá fóra, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das arvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Apparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam á cabeça,
E toda esta paysagcm de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruidos e luzes é o chão d’este dia de sol...
De repente alguem sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cahe
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de ouro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos d’aquella rapariga que abandona a feira,
Sósinha e contente como o dia de hoje...

VI

O maestro sacode a batuta,
E languida e triste a musica rompe...
Lembra-me a minha infancia, aquelle dia
Em que eu brincava ao pé d'un muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha d’um lado
O deslisar d’um cão verde, e do outro lado
Um cavallo azul a correr com um jockey amarello...
Prosegue a musica, e eis na minha infancia
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vae e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavallo azul com um jockey amarello...
Todo o theatro é o meu quintal, a minha infancia
Está em todos os logares, e a bola vem a tocar musica
Uma musica triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarello...
(Tão rapida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro á minha infancia e ella
Atravessa o theatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarello e um cão verde
E um cavallo azul que apparece por cima do muro
Do meu quintal... E a musica atira com bolas
Á minha infancia... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavallos azues e jockeys amarellos...
Todo o theatro é um muro branco de musica
Por onde um cão verde corre atraz da minha saudade
Da minha infancia, cavallo azul com um jockey amarello...
E d’um lado para o outro, da direita para a esquerda,
D’onde ha arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orchestras a tocar musica,
Para onde ha filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memorias da minha infancia...
E a musica cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavallo azul, o maestro, jockey amarello tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga d’um muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desapparece pelas costas abaixo...

FERNANDO PESSÔA.

Chuva Oblíqua Fernando Pessoa Edição, Transcrição Pedro Sepúlveda Transcrição Pablo Javier Pérez López Modelagem de dados, Codificação Ulrike Henny-Krahmer Codificação Sviatoslav Drach Consultoria Institut für Dokumentologie und Editorik (IDE) Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) Cologne Center for eHumanities (CCeH) 2017 Pessoa_Chuva-Obliqua.xml Chuva Oblíqua Chuva Oblíqua. Poemas Interseccionistas Fernando Pessoa Orpheu Junho de 1915 2 160-164 Poesia

CHUVA OBLÍQUA

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POEMAS INTERSECCIONISTAS DE FERNANDO PESSOA

I

Atravessa esta paysagem o meu sonho d’um porto infinito
E a côr das flôres é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do caes arrastando nas aguas por sombra
Os vultos ao sol d’aquellas arvores antigas...
O porto que sonho é sombrio e pallido
E esta paysagem é cheia de sol d’este lado...
Mas no meu espirito o sol d’este dia é porto sombrio
E os navios que sahem do porto são estas arvores ao sol...
Liberto em duplo, abandonei-me da paysagem abaixo...
O vulto do caes é a estrada nitida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das arvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cahir amarras na agua pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem me sonho...
Súbito toda a agua do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse des¬dobrada,
Esta paysagem toda, renque de arvores, estrada a arder em aquelle porto,
E a sombra d’uma náu mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu vêr esta paysagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

II

Illumina-se a egreja por dentro da chuva d’este dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ella é o templo estar acceso,
E as vidraças da egreja vistas de fóra são o som da chuva ouvido
por dentro...
O esplendôr do altar-mór é o eu não poder quasi vêr os montes
Atravez da chuva que é ouro tão solemne na toalha do altar...
Sôa o canto do côro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente se chiar a agua no facto de haver côro...
A missa é um automovel que passa
Atravez dos fieis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Subito vento sacode em esplendôr maior
A festa da cathedral e o ruido da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre agua perder-se ao longe
Com o som de rodas de automovel...
E apagam-se as luzes da egreja
Na chuva que cessa...

III

A Grande Esphynge do Egypto sonha por este papel dentro...
Escrevo — e ella apparece me atravez da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pyramides...
Escrevo — perturbo-me de vêr o bico da minha penna
Ser o perfil do rei Cheops...
De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abysmo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pyramides a escrever versos á luz clara d’este candieiro
E todo o Egypto me esmaga de alto atravez dos traços que faço com a penna...
Ouço a Esphynge rir por dentro
O som da minha penna a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vel-a uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do tecto que fica por detraz de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre elle e a penna que escreve
Jaz o cadaver do rei Cheops, olhando me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal diffusa
Entre mim e o que eu penso...
Funeraes do rei Cheops em ouro velho e Mim!...

IV

Que pandeiretas o silencio d’este quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Ha danças sensuaes no brilho fixo da luz...
De repente todo o espaço pára...,
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do tecto, muito mais longe do que elle está,
Abrem mãos brancas janellas secretas
E ha ramos de violetas cahindo
De haver uma noite de primavera lá fóra
Sobre o eu estar de olhos fechados...

V

Lá fóra vae um redemoinho de sol os cavallos do carroussel...
Arvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira illuminada, luar no dia de sol lá fóra,
E as luzes todas da feira fazem ruido dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha á cabeça
Que passam lá fóra, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das arvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Apparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam á cabeça,
E toda esta paysagcm de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruidos e luzes é o chão d’este dia de sol...
De repente alguem sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cahe
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de ouro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos d’aquella rapariga que abandona a feira,
Sósinha e contente como o dia de hoje...

VI

O maestro sacode a batuta,
E languida e triste a musica rompe...
Lembra-me a minha infancia, aquelle dia
Em que eu brincava ao pé d'un muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha d’um lado
O deslisar d’um cão verde, e do outro lado
Um cavallo azul a correr com um jockey amarello...
Prosegue a musica, e eis na minha infancia
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vae e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavallo azul com um jockey amarello...
Todo o theatro é o meu quintal, a minha infancia
Está em todos os logares, e a bola vem a tocar musica
Uma musica triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarello...
(Tão rapida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro á minha infancia e ella
Atravessa o theatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarello e um cão verde
E um cavallo azul que apparece por cima do muro
Do meu quintal... E a musica atira com bolas
Á minha infancia... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavallos azues e jockeys amarellos...
Todo o theatro é um muro branco de musica
Por onde um cão verde corre atraz da minha saudade
Da minha infancia, cavallo azul com um jockey amarello...
E d’um lado para o outro, da direita para a esquerda,
D’onde ha arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orchestras a tocar musica,
Para onde ha filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memorias da minha infancia...
E a musica cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavallo azul, o maestro, jockey amarello tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga d’um muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desapparece pelas costas abaixo...

FERNANDO PESSÔA.