English|Português|Deutsch

Organizar

Fernando Pessoa

Sol: Bi-semanario republicano, 4 de agosto de 1926, pp. 6-7.

Revista de Comércio e Contabilidade 4, 4 de Agosto de 1926, pp. 105-109.

ORGANISAR

As palavras «organisar», «organisação», e «organisador» pode dizer-se que constituem o estribilho teórico da nossa epoca. E, se o são em quasi todas as materias, sobretudo o são em materia comercial e industrial, em virtude da reacção, que presentemente se revela em toda a parte, contra a feição um pouco casual, um pouco dispersa, que tiveram o comercio e a industria no seculo passado.

Interessa portanto saber o que é organisar. Referimo-nos a organisar no sentido completo e abstracto: o que é organisar qualquer coisa, e não especialmente um comercio ou uma industria, uma fabrica ou um escritorio? Sabido, e sabido bem, o que organisar significa em geral, saber-se-ha implicitamente o que é organisar determinada coisa em especial, bastando que se apliquem os principios gerais a este o áquele caso particular.

O QUE É ORGANISAR?

A palavra «organisar» deriva-se do termo «orgão», e é aparentada com o termo «organismo». Organisar é, pois, fazer de qualquer coisa uma entidade que se assemelhe a um organismo, e como ele funcione.

Temos, pois, que definir, primeiro, em que consiste um organismo. O termo é biologico, e aplica-se áqueles entes vivos em que se dá determinada complexidade de estructura, e uma concomitante complexidade de funções. Um organismo vital complexo formou-se, no decurso do que se chama «evolução», por o que os biologistas denominam «diferenciação», isto é, a formação – lenta e confusa no tempo, definida nos seus resultados ultimos – de orgãos especiais, cada um para uma função especial, e concorrendo todos, cada um a dentro da sua função, para a manutenção da vida do organismo em seu conjunto.

Quanto mais alto o organismo na escala evolutiva, mais complexos os seus orgãos, mais diferenciados; e, quanto mais diferenciados esses orgãos, menos capaz é cada um deles de exercer a função que compete a outro. O figado, orgão definido do organismo, não pode substituir o baço nas suas funções. O pulmão não pode substituir o estomago, nem o estomago o pulmão. Nos entes vivos inferiores, e indeferenciados, a mesma estructura faz as funções de estomago e de pulmão; ou, em melhores palavras, por não haver ainda estomago nem pulmão, as funções, que mais tarde competirão a estes, encontram-se, naquele estado rudimentar da vida, concentradas indefinidamente numa só substancia.

Um organismo é, pois, uma entidade viva em que diferentes funções são desempenhadas por orgãos diferentes, incapazes de se substituirem entre si, e concorrendo todos, na sua entre-acção e acção de conjunto, para a manutenção e defesa da vida do conjunto do organismo, ou do organismo como conjunto.

OS PRINCIPIOS DA ORGANIZAÇÁO

Organisar é tornar uma coisa semelhante a um organismo. É fazer dessa coisa um conjunto dividido em partes componentes, a cada uma das quais compete uma função especial, distinta das outras, e concorrendo todas, cada uma pelo excercicio da sua função, para a coesão e vitalidade do conjunto.

Há, pois, que ter presentes, em toda a organisação, três principios fundamentais: (1) o conjunto deve ser dividido no numero de elementos, ou orgãos, que é preciso, e nem em mais, nem em menos, que esses; (2) cada elemento, ou orgão, do conjunto tem que ter uma função absolutamente distinta da de qualquer outro elemento, e relacionada com a função desse outro apenas pela circunstancia do comum concurso para o funcionamento do conjunto; (3) a dentro de cada elemento ou orgão do conjunto se observará a mesma distinção de funções que se estabeleceu para o proprio conjunto, visto que cada elemento ou orgão, por distinto e diferenciado, é um conjunto em si mesmo.

Todas estas observações são necessariamente abstractas; abstractas, porém, são as coisas essenciais, e a propria compreensão de qualquer coisa é uma abstracção.

A ORGANISAÇÁO PELA INTELIGENCIA

Organisar é, essencialmente, um fenómeno intelectual. Ha muitas coisas que se executam por palpite, imensas que se fazem empiricamente, pelo habito e a experiencia. Mas a organisação estavel, ou seja a organisação propriamente dita, é um trabalho de inteligencia. E o que tem a inteligencia que fazer para organisar?

Cinjamo-nos aos principios já assentes. O organisador tem, primeiro, que dividir o conjunto a formar nos seus elementos necessarios. Tem, depois que determinar as relações entre esses elementos. Esboça depois – repare-se bem que apenas esboça – a divisão de funções a dentro de cada elemento. E esboça só, porque o chefe da organisação estabelece um plano geral, em linhas gerais, o que – entenda-se bem – não querer dizer linhas indefinidas; deve deixar a cada chefe de elemento a divisão dos serviços a dentro do elemento que lhe compete. E porque apenas esboça o chefe de organisação a orientação particular de cada chefe de elemento? Porque defini-la seria substituir-se a esse chefe de elemento a dentro do proprio elemento, seria negar a existencia de um cargo que estabeleceu; seria, enfim, afastar-se do proprio principio da organisação. E esse principio – bem é notá-lo – é este: organisam-se organisações de modo a organisar tambem organisadores. Cada chefe de elemento tem que ser, a dentro do elemento de que é chefe, uma reprodução ou imagem do chefe de organisação.

Assim como o organismo delega, por assim dizer, uma função em determinado orgão, assim o chefe de organisação delega determinada função em determinado chefe de elemento. Ora delegar uma função é entrega-la a outrem, tornando-se quem a entrega, por assim dizer, voluntariamente incompetente para o seu exercicio. E é este o segredo de toda a organisação eficaz: ha hierarquia de cargos, não ha hierarquia de funções.

O ORGANISMO ARTIFICIAL

Um organismo artificial difere de um organismo natural, em primeiro lugar, em ser remodelavel como conjunto, e substituiveis as suas partes componentes, mesmo as mais importantes. O organismo natural não é remodelavel, nem podem as suas partes fundamentais ser substituidas; e isto porque o organismo natural tem o que se chama vida, e do organismo artificial só por metáfora, ou em linguagem translata, se pode dizer que a tem. Desta particularidade do organismo artificial, em contradistinção do natural, se derivam consequencias praticas importantes.

A experiencia ensina que a vida é uma coisa flutuante e incerta, cheia, por mais que busquemos prevêr, de surpresas e contingencias imprevisiveis – imprevisiveis, sem duvida, porque procedem de leis que ignoramos, e, provavelmente, em grande parte, ignoraremos sempre. Todo o pensador de sistemas fixos, todo o organisador de conjuntos definidos, sofre fatalmente desilusões, quando não desastres. Em toda a organisação pratica ha pois que contar com o inesperado e indefinido da vida. E o facto de que o organismo artificial é remodelavel, e substituiveis todas a suas peças, torna possivel, até certo ponto, a preparação para o inesperado, digamos mesmo a previsão do imprevisivel.

Como se faz a preparação? Partindo, no tempo, do indefinido para o definido. O organisador de um conjunto deve começar por traçar a organisação exclusivamente em linhas gerais, e de organisar no principio só a rêde dos serviços essenciais. Feito isto, põe-se o organismo em marcha; e do contacto com a pratica, com os acidentes e contingencias da realidade da vida, se vai dando a «definição» do conjunto, se vai enchendo o simples contorno inicial, se vão estabelecendo e concatenando os orgãos e sub-orgãos do todo. Criada, assim, em suas linhas gerais pela inteligencia – cuja função natural é precisamente o abstrato e o geral – determinada depois nas suas linhas particulares pela experiencia que adquire em marcha – isto é, pela propria vida – a organisação consegue ser organisação sem ser rigida; é complexa e maleavel ao mesmo tempo, porque a vida, ao dar-lhe a complexidade que ela precisava como organisação, deu-lhe ao mesmo tempo a maleabilidade da propria vida.

Todos os organisadores chamados «de gabinete» pecam, sem excepçao pela delineação de organismos estudados e escritos até o ultimo detalhe. Quanto mais inteligentes são, pior sai a obra praticamente, por isso mesmo que sai melhor intelectualmente, e portanto só intelectual. Não contam com o que a realidade é de flutuante e de incerto. Aplicam á elaboração do que pensam que ha de ser uma realidade o processo pelo qual legitimamente se confeccionam os sistemas filosoficos, os poemas épicos e os romances policiais.

O CHEFE DOS CHEFES

Ha uma segunda diferença, tambem importantissima nos seus resultados, entre o organismo artificial e o natural. No organismo natural o sistema hierarquico é simples: o «chefe» é um unico – o sistema nervoso – e os orgãos subordinados cooperam em igualdade, sem entre eles haver hierarquia. Não é assim nunca nos organismos artificiais. Nestes pode haver por vezes – muitas vezes tem que haver – uma hierarquia complexa e definida. Mas o que há sempre é chefes de elementos, ainda que, como por exemplo num escritorio pequeno, o chefe seja apenas chefe de si mesmo, por não ser necessario mais ninguem na secção; mas nessa secção ele é efetivamente chefe, porque ser chefe não é só mandar em uma coisa; e ter a seu cargo a organisação de um serviço ainda que se possa desempenhá-lo sem auxilio, é ser chefe desse serviço.

Resulta desta circunstancia que o chefe de elemento é duas coisas ao mesmo tempo: é o técnico desse elemento, e é o chefe dele; é, emulativamente, um pratico e um organisador. Assim, adquirindo no exercicio da chefia de um elemento, não só o intimo conhecimento desse elemento (que naturalmente já possuía, para que ali fôsse posto), mas o intimo conhecimento de chefia, esse chefe pode ir subindo na hierarquia das chefias até á suprema direcção da organisação inteira.

Todo o verdadeiro organisador deve fazer do organismo artificial que estabelece, não só uma organisação adequada aos fins que vise, mas uma escola de chefes, um campo de treino de organisadores.

Não é outro o grande segredo dos grandes organisadores americanos.

(Da REVISTA DE COMERCIO E CONTABILIDADE)

Este texto é uma republicação de outro como o mesmo título, publicado na Revista de Comércio e Contabilidade n.º 4, Lisboa, 25 de abril de 1926, pp. 105-109, ao qual foram acrescentadas subidivisões, que podem ou não ser de autoria de Pessoa. Reproduzimos os facsímiles de ambas publicações.