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“Portugal, Vasto Império”

Fernando Pessoa

Jornal do Commercio e das Colonias, 28 de maio e 5 de junho de 1926, p. 1 e 1.

“Portugal, Vasto Imperio”
Um inquerito nacional

Depoimento do escriptor Fernando Pessoa

Primeira pregunta formulada no meu questionário:

I – Sim ou não Portugal, potencia da primeira grandeza na Renascença, guarda em si a vitalidade necessaria para manter no futuro, na nova Renascença que ha de seguir-se à Edade Média que atravessamos, o logar de uma grande potencia?

Resposta do sr. Fernando Pessoa:

(1) Cumpre, antes de mais nada, definir a expressão «grande potencia». Por «grande potencia» se deve entender, evidentemente, uma nação que influe notavelmente na vida ou nos destinos da civilisação. Podemos, porém, distinguir trez maneiras de assim influir notavelmente. Distinguiremos, portanto, trez especies de «grande potencia».

Influir é transformar. Ha trez maneiras de transformar: transformar para menos, ou desagregar; transformar para mais, ou desenvolver; transformar para outro, ou construir. Força é, pois, que as grandes potencias se manifestem taes, ou pela desagregação que produzem; ou pelo desenvolvimento que promovem; ou pela construcção que estabelecem ou novidade que originam.

Duas forças

Duas são as forças da desagregação – a decadencia e a violencia externa. A decadencia é intransmissivel: póde ser estimulada, porém não impuesta; são portanto seus estimulos, que não ella mesma, que comportam transmissão. A violencia externa, pelo contrario, é imposição por natureza. Uma grande potencia de desagregação significa portanto uma grande potencia de violencia, ou seja uma grande potencia guerreira. É este o sentido em que ordinariamente se toma a expressão «grande potencia»: é que a violencia, como é a força visivel, representa para o commum dos homens o modo unico da força.

Duas são tambem as forças de desenvolvimento – o estimulo physico, ou material; e o estimulo intellectual ou moral. Na vida das sociedades, o primeiro é dado pelo commercio, o segundo pela cultura. Com efeito, o desenvolvimento dos povos se efectua, no que material, pela multiplicação de contactos economicos; no que mental, pela multiplicação de contactos culturaes. E o commercio e a cultura adam commumente a par: é que a multiplicação de relações de uma especie facilita inevitavelmente a multiplicação de relações da outra especie. Ha, pois, duas especies de «grandes potencias» expansivas da vida alheia: as potencias primordialmente economicas, como a Allemanha e os Estados Unidos; e as potencias culturaes, como antigamente a Italia, e subsequentemente a França.

Transformação

Qualquer transformação póde ser definida como sendo «para outro», porém a transformação constructiva merece esse nome distinctivamente. Na transformação para mais ou para menos a coisa transformada mantém os seus caracteristicos essenciaes; a transformação é quantitativa. Na transformação para outro a mudança é qualitativa. Que caracteristicos adquire, porém, a coisa transformada, ao ser transformada «para outro»? Os do elemento transformador, pois outros não ha que possivelmente adquira. Segue, pois, que a transformação constructiva implica uma conversão da substancia da coisa transformada na substancia da coisa transformadora. Á nação, que exerce esta especie de influencia, que é uma «grande potencia» n’esta funcção, chama-se com justeza, não grande potencia, senão Imperio. Até hoje, a dentro da civilisação que vivemos, tem havido quatro imperios – o grego, o romano, o christão, e o inglez (que não o britannico, que é imperio em outro, e mais baixo, sentido). Com sua prodigiosa visão, historica como prophetica, distingue sempre Nostradamo entre o que chama simplesmente empire (que é qualquer dos grandes dominios fugazes com que se orna a historia) e grand empire, que é o Imperio no sentido em que aqui usamos do termo.

Sem duvida que as trez fórmas de ser grande potencia se não excluem entre si; antes a duas, e a mais que duas, as pode reunir uma só nação.

Condições de Portugal

Postos estes principios, pergunta-se: para que fórma de grande potencia tem Portugal condições, se as tem para alguma?

Portugal, grande potencia guerreira, ou desagregadora, é invisionavel, o que não quer dizer que seja impossivel, pois não podemos prever que allianças ou combinações poderão surgir do abysmo do futuro. A pergunta, porém, refere-se as condições que Portugal tem, que não aquellas que poderá um dia vir a ter; e por «condições que tem» se entendem aquellas que ou estão hoje claramente latentes n’elle, ou em qualquer fórma ou esboço n’elle se revelaram no passado. Ora, pondo, de parte, por irrisorio n’este respeito, o que somos hoje, o facto é que nunca tivemos condições ou propensão para a fórma guerreira de grande potencia. Nem para tal nos dispunha nossa situação terrestre de nação pequena e excentrica em continente e peninsula; nem, em prova d’isso, nos empenhámos nunca com vantagem em guerras puramente agressivas, excepto as que procederam inevitavelmente do nosso mistér organico de descobridores. E estas viveram na atmosphera triumphal do phenomeno que lhes deu origem.

Portugal, grande potencia economica, é talvez ainda mais invisionavel que Portugal grande potencia guerreira. Uma potencia guerreira fórma-se e desenvolve se com mais facilidade e rapidez que uma potencia economica, pois procede de instinctos e forças mais primitivos do que esta. E se de potencia guerreira não temos tradição senão, por assim dizer corollaria, de potencia economica não temos tradição nenhuma, ou a temos negativa. Ainda, pois, que uma expansão ou federação futura nos convertesse em grande nação – sem o que se não pode ser uma grande potencia economica –, nossa acção n’esse campo seria sempre limitada pela de nucleos não só quantitativamente superiores ao nosso, mas ainda preparados tradicionalmente para o exercicio d’essa especie de influencia.

Potencia cultural

Portugal, grande potencia cultural, é uma hypothese já de outro genero. O exercicio da grande influencia guerreira ou economica implica a existencia de uma nação grande, unida, disciplinada: o da grande influencia cultural dispensa estes caracteristicos. Exerceu-a a Italia quando nem sequer era nação, se não uma justaposição de pequenos estados em conflicto perpetuo uns com os outros, e cada um em quasi constante desordem interna. Nem a nossa condição actual é, pois, obstaculo n’este respeito; é o, porém, a nossa carencia quasi absoluta de tradição cultural, propriamente dita. Quantitativamente, nunca a tivemos; qualitativamente, pouco. No fim da chamada Edade Media, e no principio da Renascença esboçámos, é certo, um acentuado movimento cultural, que abrange os Cancioneiros, os Romances de Cavalaria, e um ou outro phenomeno como a especulação de Francisco Sanches, aliás formado em outro ambiente; mas em breve o vinco, muito mais typicamente nacional, das Descobertas arrastava para si toda a vitalidade portugueza, e o Catholicismo, então em período de reacção, se encarregou de annular aquella liberdade de especulação sem a qual a cultura é impossivel. Ficámos no estado vil de intelligencia, servil e mimetico, em que desde esse tempo temos vegetado. Se, porém, a necessidade cultural fosse, por qualquer razão, em nós organica, teria havido d’ella signaes, sobretudo desde que entrámos, com o mimetismo já citado, em regimen liberal e depois em Republica. Mas o que tem havido é menos que pouco; a nossa indisposição cultural permanece evidente.

Potencia constuctiva

Portugal, grande potencia constructiva, Portugal Imperio – aqui, sim, é que, atravez de grandeza e de decadencia, se revela o nosso instincto, e se mantém a nossa tradição. Somos, por indole, uma nação creadora e imperial. Com as Descobertas, e o estabelecimento do Imperialismo Ultramarino, creamos o mundo moderno – creação absoluta, tanto quanto socialmente isso é possivel, que não simples elaboração ou renovação de creações alheias. Nas mais negras horas da nossa decadencia, proseguiu, sobretudo no Brasil, a nossa acção imperial, pela colonização; e foi n’estas mesmas horas que em nós nasceu o sonho sebastianista, em que a idéa do Imperio Portuguez attinge o estado religioso.

Portugal tem pois condições organicas para ser uma grande potencia constructiva ou creadora, um Imperio. Uma coisa, porém, é dizer-se que Portugal tem condições para sel-o; outra é predizer que o será. A pergunta não exige esta segunda demonstração, que, aliás, por extensa não poderia ser aqui dada. Nem há mister que se diga, tambem, em que consistirá presumivelmente essa creação portugueza, qual será o sentido e o contheúdo d’esse Quinto Imperio. Fôra preciso um livro inteiro para o dizer, nem chegou ainda a hora de dizer-se.

Devo dizer ao sr. Fernando Pessoa que a minha primeira interrogação não postulava de qualquer fórma a existencia futura de Portugal como potencia dominante entre as que hoje são consideradas «Grandes potencias.» Os nossos desejos são mais limitados, porque o nosso espirito é mais realista do que possa, á primeira vista, parecer. Como grande potencia guerreira (aceitando a classificação de grandes potencias esboçada por Fernando Pessoa) não ambicionamos para Portugal mais do que as forças materiaes e moraes necessarias para garantirmos as fronteiras contra todos os ataques possíveis, quer venham de visinhos, quer venham de mais longe; e não ambicionamos mais do que a marinha necessaria para a defeza das estradas que nos ligam ás provincias ultramarinas, para a guarda do commercio n’essas estradas, e para a defeza d’ essas provincias – que mais adeante Fernando Pessoa considera- dispensaveis... O mundo, sob o ponto de vista territorial, está já conquistado; as nossas fronteiras geographicas estão já nitidamente vincadas: não precisamos, pois, como grande potencia guerreira, mais do que o exercito e a marinha necessarios para a defeza do nosso patrimonio actual, do statu quo.

Observação identica devo fazer no tocante a «Portugal, grande potencia economica.» Não pretendemos fazer de Portugal um grande emporio commercial á maneira da Inglaterra ou da America, nem, como estes dois paizes, fazer d’um ambicioso imperialismo economico a razão de ser da nossa existencia. A America, como tal, é o que é, porque se encontra n’um estado de creação social, n’um estado de elaboração proprio d’um paiz recem sahido do colonato, e onde os homens encontram na vastidão dos territorios um largo campo d’acção para a livre expansão da sua actividade de povo novo. A Inglaterra, como tal, é o que é, mercê das circumstancias que a collocaram n’uma ilha no meio do oceano, em terrenos d’onde a agricultura foi quasi expulsa pela industria. A Inglaterra, não produzindo o necessario para se alimentar, encontra no imperialismo economico, ao mesmo tempo, uma fonte de recursos alimentares e o principal objetivo da sua actividade. Ora, se Portugal se não encontra nem nas circunstancias da America, nem nas da Inglaterra, torna-se evidente que não podemos aspirar a uma situação de predominio economico do mundo identica á situação d’esses dois paizes. De resto, e entre parentesis, o Destino fez de nós uma nação, um povo de apostolos e colonisadores, e nunca um povo de mercantes. O que nós pretendemos, sob o ponto de vista economico, é que Portugal saiba explorar as riquezas que pejam os seus territorios riquissimos, na metropole como nas provincias ultramarinas. Não aspiramos a sobrepujar o visinho, nem a dominar o mundo: bastará que nos saibamos valorisar economicamente, sob o triplice ponto de vista agricola, industrial e commercial (refiro-me especialmente á marinha mercante) para que não tenhamos, como hoje, para nosso mal, acontece, que estar na dependencia alheia, quando temos á mão, nosso, tudo ou quasi tudo aquillo de que necessitamos.

Mas Fernando Pessoa, que não admitte a hypothese de Portugal, grande potencia guerreira, nem a de Portugal, grande potencia economica, admitte, comtudo, a de Portugal grande potencia cultural. Tambem nós a admittimos. Simplesmente, divergimos quando Fernando Pessoa afirma que a nossa condição actual não é obstaculo n’este respeito. Se a Italia exerceu uma grande influencia cultural «quando nem sequer era nação, senão uma justaposição de pequenos estados, em conflicto perpetuo uns com os outros, e cada um em quasi constante desordem interna», era porque a Italia tinha uma longa tradição intellectual, moral e artistica, uma velha tradição cultural tão forte que podia sobreviver e sobrevivia á anarchia politica dos seus pequenos estados. Com Portugal, porém, o caso é diferente: como diz Fernando Pessoa, a nossa carencia de tradição cultural é quasi absoluta; «o que tem havido é menos que pouco; a nossa indisposição cultural permanece evidente». Mas, não estará na nossa mão, não estará na capacidade dos homens fazer alguma coisa n’este sentido? Creio que sim. Mas crer que sim é ir d’encontro ao paradoxo fundamental d’uma epoca de individualismo e de liberdade absoluta, que, ao mesmo tempo que divinisa o homem como Individuo, como Entidade social, o torna escravo e joguete dos factos e das circumstancias.

Reputo necessario que os homens que pensam, que o escol intellectual e social portuguez faça alguma coisa n’este sentido, já procurando desbravar a anarchia politica que nos exgota, já creando um patrimonio cultural digno do patrimonio territorial que faz de nós, já hoje, a terceira potencia colonial. Quanto ao mais, basta-me o que Fernando Pessoa affirma no tocante ao «Portugal grande potencia constructiva», ao «Portugal Imperio». Está provocando que Portugal é, «por indole, uma nação creadora e imperial»: o Brasil por exemplo, melhor do que todas as palavras, ahi está a atestal-o. Portugal tém pois condições organicas para ser uma grande potencia constructiva ou creadora, um imperio – e isto é, para o nosso inquerito, o fundamental. O resto virá em seguida, tao depressa nos convençamos, todos nós, os que escrevemos, fallamos, pensamos, de que assim é, de que asssim deve ser.

Eis a segunda resposta ao questionario

II- Sim ou não Portugal, sendo a terceira potencia colonial, tem todos os direitos a ser considerado uma grande potencia europeia?

Responde Fernando Pessoa:

«Como Portugal, grande potencia, está no futuro ou, se se preferir, só pode estar no futuro, não póde exigir ao presente que o considere por aquillo que elle ainda não é, nem se sabe ao certo se será. Mas, como é a terceira potencia colonial, póde e deve exigir que o tratem como a terceira potencia colonial».

Potencia colonial

Deixemos o que, de momento, nos separa, para nos preocuparmos com aquillo que nos reune: emquanto que, para nós, Portugal é já hoje, virtualmente, pelo menos, uma grande potencia, para Fernando Pessoa, como acabamos de vêr, «Portugal, grande potencia, está no futuro» e não no presente. Estamos, pois, separados; mas logo de seguida nos encontramos, quando o meu correspondente afirma que Portugal, sendo a terceira potencia colonial – e isto é indiscutível – tém todo o direito a que o tratem como tal. Ora, é isso, precisamente, o que não acontece, e é isso o que se torna mister que aconteça. Somos a terceira potencia colonial, mas, no concerto das nações, essa cathegoria só nos é reconhecida quando as nações mais pobres do que nós, em dominios ultramarinos, se lembram de afirmar que temos um patrimonio colonial grande de mais para a nossa capacidade e para as nossas possibilidades.

Capacidade colonizadora

É esta opinião interessada que as grandes potencias têm a nosso respeito que nós devemos rectificar a todo o transe. A nossa capacidade colonisadora está, historicamente, mais que demonstrada; e se as nossas possibilidades economicas não correspondem, de momento, ao largo campo d’actividade que se abre diante de nós, o facto de modo alguma prova que, amanhã, não sejamos capazes de corresponder, economicamente, materialmente, ás responsabilidades moraes que a existencia d’um tão vasto patrimonio ultramarino faz pezar sobre os nossos hombros. Não são necessarios, para isso, genios politicos: apenas uma energia tenaz posta ao serviço d’uma inteligencia clarividente e equilibrada. Entraremos hoje, com o novo governo, n’esse caminho? Ou ainda não terá chegado a hora da nossa grandeza, que os politicos sacrificavam systematicamente aos seus caprichos, ás suas ambições pessoaes?

Preguntava eu mais:

III – Sim ou não Portugal, amputado das suas colonias, perderá toda a razão de ser como povo independente no conceito europeu?

Fernando Pessoa responde:

«Para o destino que presumo que será o de Portugal, as Colonias não são precisas. A perda d’ellas, porém, tambem não é precisa para esse destino. E, porcerto, sem Colonias ficaria Portugal diminuido ante o mundo e perante si mesmo, material como moralmente. As Colonias, portanto, não sendo uma necessidade, são comtudo uma vantagem».

Potencia constructiva

Não comprehendo francamente, como, sendo a vocação apostolica, como costumava dizer Antonio Sardinha, sendo Portugal, «por índole, uma nação creadora e imperial» como Fernando Pessoa escreveu no segundo paragrapho da sua resposta ao primeiro quesito; não comprehendo, repito, como é que as colonias não são necessariamente á existencia de Portugal. Não somos uma potencia cultural, porque a necessidade cultural não é em nós orgânica: a nossa indisposição cultural- Fernando Pessoa dixit- permanece evidente. Mas, por outro lado, «Portugal tem condições organicas para ser uma grande potencia constructiva ou creadora, um Imperio.» Que especie de Imperio, Fernando Pessoa? Você não responde directamente, porque a minha pergunta não exigia esta demonstração; mas, indirectamente, responde a essa pergunta, quando cita a nossa acção no Brasil. «Com as Descobertas, e o estabelecimento do Imperialismo Ultramarino, creámos o mundo moderno – creação absoluta, tanto quanto socialmente isso é possivel...

Sonho sebastianista

Nas mais negras horas da nossa decadencia, proseguiu, sobretudo no Brasil, a nossa acção imperial, pela colonização; e foi n’essas mesmas horas que em nós nasceu o sonho sebastianista, em que a ideia do Imperio Portuguez attinge o Estado religioso. «A nossa vocação é, essencialmente, a d’um povo creador de nações»: porque motivo, então, as colonias não são necessarias ao nosso destino? Porventura não teremos nós nas provincias ultramarinas a materia d’onde, mais tarde ou mais cedo, o espirito de Portugal tirará outras tantas nações? (Fallo, bem entendido, apenas d’aquellas que para tal tem condições naturaes). Não, não, meu caro Fernando Pessoa: as colonias portuguezas, não sómente são uma vantagem, porque são um valor positivo com que contamos, como são tambem uma necessidade do nosso destino. Se as perdêssemos, não só ficariamos diminuídos, como tambem ficaria truncado o destino de Portugal.

Ultima pergunta do questionario:

IV- Sim ou não o moral da nação poder ser levantado por uma intensa propaganda, pelo jornal, pela revista e pelo livro, de forma a crear uma mentalidade collectiva capaz de impôr aos politicos uma politica de grandeza nacional? Na hyphotese affirmativa, qual o caminho a seguir?

Fernando Pessoa responde:

«Ha só uma especie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação – a construcção ou renovação, e a diffusão consequente e multimoda, de um grande mytho nacional. De instincto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instincto, que não ha verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras: quem quizer despertal-o ou conduzil-o terá que mentir-lhe delirantemente, e fal-o-ha com tanto mais exito, quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que creou. Temos, felizmente, o mytho sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portugueza. Nosso trabalho é pois mais facil; não temos que crear um mytho, senão que renoval-o. Comecemos por nos embebedar d’esse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, por cada um de nós independentemente e a sós comsigo o snho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevemos, e a atmosphera estará creada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o phenomeno imprevisivel de onde nascerão as Novas Descobertas, a Creação do Mundo Novo, o Quinto Imperio. Terá regressado El Rei D. Sebastião».

Fé e esperança

O «sebastianismo», considerado por Oliveira Martins como uma prova posthuma da nacionalidade portugueza , é o mytho nacional por excellencia, é uma fórma da fé e da esperança na redempção nacional. Pode Antonio Sergio, em nome d'um racionalismo impenitente, cego ás fornças do sentimento e da intuição, gritar contra elle tudo quanto queira e em suas forças caiba; pode classificar D. Sebastião de idiota, parvo, cretino, e tudo quanto, n'um assomo de romantismo, lhe desça ao bico da pena, -que nem por isso a religião portugueza da fé n'um futuro melhor, n'um Quinto Imperio sem egual, - que outra coisa não é o sebastianismo - deixará de ser um facto evidente, com que ha que contar para a restauração do organismo nacional. Dada esta interpretação do sebastianismo, todos os povos terão o seu sebastianismo próprio? Bem nos importa isso a nós! O que nos interessa é que exista sempre na alama portugueza um fermento de esperança, que a não deixe morrer, nem mesmo nos momentos mais angustiosos da crise que ha decenios estamos atravesando. E esse fermento existe. E porque elle existe, e é fundamentalmente dynamico, guardamos dentro de nós a possibilidade d'uma redempação colectiva. Como Fernando Pessoa diz, terá regressado El Rei D. Sebastião.

Augusto da Costa

  • Nomes

    • António Sardinha
    • António Sérgio
    • D. Sebastião
    • Fernando Pessoa
    • Francisco Sanches
    • Nostradamus
    • Olivieria Martins