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De "O Guardador de Rebanhos"

Alberto Caeiro

Athena 4,

Fevereiro de 1925, pp.145-156.

DE "O GUARDADOR DE REBANHOS" (1911-1912)

I

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planicie
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janella.
Mas a minha tristeza é socego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ella dar por isso.
Como um ruido de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que elles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incommóda como andar á chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sòsinho.
E se desejo ás vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silencio pela herva fóra.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo d’um outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéas,
Ou olhando para as minhas idéas e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não comprehende o que se diz
E quer fingir que comprehende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapeu largo
Quando me vêem á minha porta
Mal a diligencia levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé d’uma janella aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a arvore antiga
Á sombra da qual quando creanças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

V

Ha metaphysica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéa tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os effeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a creação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janella (mas ella não tem cortinas).
O mysterio das cousas? Sei lá o que é mysterio!
O unico mysterio é haver quem pense no mysterio.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os philosophos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E porisso não erra e é commum e boa.
Metaphysica? Que metaphysica teem aquellas arvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fructo na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por ellas.
Mas que melhor metaphysica que a d’ellas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
«Constituição intima das cousas»…
«Sentido intimo do universo»…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrivel que se possa pensar em cousas d’essas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das arvores
Um vago ouro lustroso vae perdendo a escuridão.
Pensar no sentido intimo das cousas
É accrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo á agua das fontes.
O unico sentido intimo das cousas
É ellas não terem sentido intimo nenhum.
Não accredito em Deus porque nunca o vi.
Se elle quizesse que eu accreditasse nelle,
Sem duvida que viria fallar commigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridiculo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não comprehende quem falla d’ellas
Com o modo de fallar que reparar para ellas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as arvores
E os montes e sol e o luar,
Então accredito nelle,
Então accredito nelle a toda a hora.
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma communhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as arvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e arvores e montes e sol e luar;
Porque, se elle se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e arvores e montes,
Se elle me apparece como sendo arvores e montes
E luar e sol e flores,
É que elle quer que eu o conheça
Como arvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si-proprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e arvores e montes,
E amo-o sem pensar nelle,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com elle a toda a hora.

IX

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a bocca.
Pensar uma flor é vel-a e cheiral-a
E comer um fructo é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gosal-o tanto,
E me deito ao comprido na herva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade.
Sei a verdade e sou feliz.

X

«Olá, guardador de rebanhos,
Ahi á beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?»
«Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?»
«Muita cousa mais do que isso.
Falla-me de muitas outras cousas.
De memorias e de saudades
E de cousas que nunca fôram.»
«Nunca ouviste passar o vento.
O vento só falla do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.»

XIII

Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vae-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabel-o.

XX

O Tejo é mais bello que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais bello que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nelle ainda,
Para aquelles que vêem em tudo o que lá não está,
A memoria das naus.
O Tejo desce de Hespanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde elle vae
E d’onde elle vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vae-se para o mundo.
Para além do Tejo ha a America
E a fortuna d’aquelles que a encontram.
Ninguem nunca pensou no que ha para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé d’elle está só ao pé d’elle.

XXIV

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Porque veriamos nós uma cousa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seriam illudirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma apprendizagem de desapprender
E uma sequestração na liberdade d’aquelle convento
De que os poetas dizem que as estrellas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrellas não são senão estrellas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrellas e flores.

XXV

As bolas de sabão que esta creança
Se entretem a largar de uma palhinha
São translucidamente uma philosophia toda.
Claras, inuteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquillo que são
Com uma precisão redondinha e aerea,
E ninguém, nem mesmo a creança que as deixa,
Pretende que ellas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lucido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E acceita tudo mais nitidamente.

XXVI

Ás vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas teem toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim-proprio devagar
Porque sequer attribúo eu
Belleza ás cousas.
Uma flor acaso tem belleza?
Tem belleza acaso um fructo?
Não: teem cor e fórma
E existencia apenas.
A belleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou ás cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são bellas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisiveis, veem ter commigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.
Que difficil ser proprio e não ver senão o visivel!

XXVIII

Li hoje quasi duas paginas
Do livro d’um poeta mystico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas mysticos são philosophos doentes,
E os philosophos são homens doidos.
Porque os poetas mysticos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras teem alma
E que os rios teem extases ao luar.
Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem extases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para fallar dos sentimentos d’elles.
Fallar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É fallar de si-proprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que comprehendo a Natureza por fóra;
E não a comprehendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

XXX

Se quizerem que eu tenha um mysticismo, está bem, tenho-o.
Sou mystico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.
O meu mysticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.
Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo d’um outeiro
Numa casa caiada e sòsinha,
E essa é a minha definição.

XXXII

Hontem á tarde um homem das cidades
Fallava á porta da estalagem.
Fallava commigo também.
Fallava da justiça e da lucta para haver justiça
E dos operarios que soffrem,
E do trabalho constante, e dos que teem fome,
E dos ricos, que só teem costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lagrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O odio que elle sentia, e a compaixão
Que elle dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que soffrem ou suppõem que soffrem?
Sejam como eu – não soffrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o ceu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensado
Quando o amigo de gente fallava
(E isso me commoveu até ás lagrimas),
Era em como o murmurio longinquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos d’uma capella pequenina
A que fossem á missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoismo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preoccupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a unica missão no mundo,
Essa — existir claramente,
E saber fazel-o sem pensar nisso.)
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

XXXV

O luar atravez dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que elle é mais
Que o luar atravez dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar atravez dos altos ramos
É, além de ser
O luar atravez dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar atravez dos altos ramos.

XXXVII

Como um grande borrão de fogo sujo
O sol-posto demora-se nas nuvens que ficam.
Vem um silvo vago de longe na tarde muito calma.
Deve ser d’um comboio longinquo.
Neste momento vem-me uma vaga saudade
E um vago desejo placido
Que apparece e desapparece.
Tambem ás vezes, á flor dos ribeiros,
Formam-se bolhas na agua
Que nascem e se desmancham
E não teem sentido nenhum
Salvo serem bolhas de agua
Que nascem e se desmancham.

XXXIX

O mysterio das cousas, onde está elle?
Onde está elle que não apparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mysterio?
Que sabe o rio d’isso e que sabe a arvore?
E eu, que não sou mais do que elles, que sei d’isso?
Sempre que ólho para as cousas e penso no que os homens pensam d’ellas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o unico sentido occulto das cousas
É ellas não terem sentido occulto nenhum.
É mais extranho do que todas as extranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os philosophos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que comprehender.
Sim, eis o que os meus sentidos apprenderam sòsinhos: —
As cousas não teem significação: teem existencia.
As cousas são o unico sentido occulto das cousas.

XL

Passa uma borboleta por deante de mim
E pela primeira vez no universo eu reparo
Que as borboletas não teem cor nem movimento,
Assim como as flores não teem perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas azas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

XLII

Passou a diligencia pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bella, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fóra.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.

XLIII

Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição á Natureza,
Porque a Natureza de hontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

XLV

Um renque de arvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de arvores? Ha arvores apenas.
Renque e o plural arvores não são cousas, são nomes.
Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de cousa a cousa,
Que põem lettreiros com nomes nas arvores absolutamente reaes,
E desenham parallelos de latitude e longitude
Sobre a propria terra innocente e mais verde e florida do que isso!

XLVI

D’este modo ou d’aquelle modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo ás vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com mixturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fôsse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fôsse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fóra.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras á idéa
E não precisar d’um corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que apprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Cahindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou alguem.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo elle-proprio.
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.

XLVII

Num dia excessivamente nitido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nelle não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as arvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquelle Grande Mysterio de que os poetas falsos fallam.
Vi que não ha Natureza,
Que Natureza não existe,
Que ha montes, valles, planicies,
Que ha arvores, flores, hervas,
Que ha rios e pedras,
Mas que não ha um todo a que isso pertença,
Que um conjuncto real e verdadeiro
É uma doença das nossas idéas.
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mysterio de que fallam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.

XLVIII

Da mais alta janella da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostral-os a todos
Porque não posso fazer o contrario
Como a flor não pode esconder a côr,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a arvore esconder que dá fructo.
Eil-os que vão já longe como que na diligencia
E eu sem querer sinto pena
Como uma dôr no corpo.
Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Arvore, arrancaram-me os fructos para as boccas.
Rio, o destino da minha agua era não ficar em mim.
Submetto-me e sinto me quasi alegre,
Quasi alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a arvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua agua é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.

XLIX

Metto-me para dentro, e fecho a janella.
Trazem o candieiro e dão as boas-noites,
E a minha voz contente dá as boas-noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janella,
O ultimo olhar amigo dado ao socego das arvores,
E depois, fechada a janella, o candieiro acceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fóra um grande silencio como um deus que dorme.
De "O Guardador de Rebanhos" Alberto Caiero Edição, Transcrição Pedro Sepúlveda Transcrição Pablo Javier Pérez López Modelagem de dados, Codificação Ulrike Henny-Krahmer Codificação Alena Geduldig Consultoria Institut für Dokumentologie und Editorik (IDE) Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) Cologne Center for eHumanities (CCeH) 2017 Caeiro_De_O_Guardador_de_Rebanhos.xml O Guardador de Rebanhos I V IX X XIII XX XXIV XXV XXVI XXVIII XXX XXXII XXXV XXXVII XXXIX XL XLII XLIII XLV XLVI XLVII XLVIII XLIX De "O Guardador de Rebanhos" Alberto Caeiro Athena Fevereiro de 1925 4 145-156 Poesia

DE "O GUARDADOR DE REBANHOS" (1911-1912)

I

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planicie
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janella.
Mas a minha tristeza é socego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ella dar por isso.
Como um ruido de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que elles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incommóda como andar á chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sòsinho.
E se desejo ás vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silencio pela herva fóra.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo d’um outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéas,
Ou olhando para as minhas idéas e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não comprehende o que se diz
E quer fingir que comprehende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapeu largo
Quando me vêem á minha porta
Mal a diligencia levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé d’uma janella aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a arvore antiga
Á sombra da qual quando creanças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

V

Ha metaphysica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéa tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os effeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a creação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janella (mas ella não tem cortinas).
O mysterio das cousas? Sei lá o que é mysterio!
O unico mysterio é haver quem pense no mysterio.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os philosophos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E porisso não erra e é commum e boa.
Metaphysica? Que metaphysica teem aquellas arvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fructo na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por ellas.
Mas que melhor metaphysica que a d’ellas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
«Constituição intima das cousas»…
«Sentido intimo do universo»…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrivel que se possa pensar em cousas d’essas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das arvores
Um vago ouro lustroso vae perdendo a escuridão.
Pensar no sentido intimo das cousas
É accrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo á agua das fontes.
O unico sentido intimo das cousas
É ellas não terem sentido intimo nenhum.
Não accredito em Deus porque nunca o vi.
Se elle quizesse que eu accreditasse nelle,
Sem duvida que viria fallar commigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridiculo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não comprehende quem falla d’ellas
Com o modo de fallar que reparar para ellas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as arvores
E os montes e sol e o luar,
Então accredito nelle,
Então accredito nelle a toda a hora.
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma communhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as arvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e arvores e montes e sol e luar;
Porque, se elle se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e arvores e montes,
Se elle me apparece como sendo arvores e montes
E luar e sol e flores,
É que elle quer que eu o conheça
Como arvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si-proprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e arvores e montes,
E amo-o sem pensar nelle,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com elle a toda a hora.

IX

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a bocca.
Pensar uma flor é vel-a e cheiral-a
E comer um fructo é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gosal-o tanto,
E me deito ao comprido na herva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade.
Sei a verdade e sou feliz.

X

«Olá, guardador de rebanhos,
Ahi á beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?»
«Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?»
«Muita cousa mais do que isso.
Falla-me de muitas outras cousas.
De memorias e de saudades
E de cousas que nunca fôram.»
«Nunca ouviste passar o vento.
O vento só falla do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.»

XIII

Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vae-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabel-o.

XX

O Tejo é mais bello que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais bello que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nelle ainda,
Para aquelles que vêem em tudo o que lá não está,
A memoria das naus.
O Tejo desce de Hespanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde elle vae
E d’onde elle vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vae-se para o mundo.
Para além do Tejo ha a America
E a fortuna d’aquelles que a encontram.
Ninguem nunca pensou no que ha para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé d’elle está só ao pé d’elle.

XXIV

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Porque veriamos nós uma cousa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seriam illudirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma apprendizagem de desapprender
E uma sequestração na liberdade d’aquelle convento
De que os poetas dizem que as estrellas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrellas não são senão estrellas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrellas e flores.

XXV

As bolas de sabão que esta creança
Se entretem a largar de uma palhinha
São translucidamente uma philosophia toda.
Claras, inuteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquillo que são
Com uma precisão redondinha e aerea,
E ninguém, nem mesmo a creança que as deixa,
Pretende que ellas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lucido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E acceita tudo mais nitidamente.

XXVI

Ás vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas teem toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim-proprio devagar
Porque sequer attribúo eu
Belleza ás cousas.
Uma flor acaso tem belleza?
Tem belleza acaso um fructo?
Não: teem cor e fórma
E existencia apenas.
A belleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou ás cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são bellas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisiveis, veem ter commigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.
Que difficil ser proprio e não ver senão o visivel!

XXVIII

Li hoje quasi duas paginas
Do livro d’um poeta mystico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas mysticos são philosophos doentes,
E os philosophos são homens doidos.
Porque os poetas mysticos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras teem alma
E que os rios teem extases ao luar.
Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem extases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para fallar dos sentimentos d’elles.
Fallar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É fallar de si-proprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que comprehendo a Natureza por fóra;
E não a comprehendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

XXX

Se quizerem que eu tenha um mysticismo, está bem, tenho-o.
Sou mystico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.
O meu mysticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.
Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo d’um outeiro
Numa casa caiada e sòsinha,
E essa é a minha definição.

XXXII

Hontem á tarde um homem das cidades
Fallava á porta da estalagem.
Fallava commigo também.
Fallava da justiça e da lucta para haver justiça
E dos operarios que soffrem,
E do trabalho constante, e dos que teem fome,
E dos ricos, que só teem costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lagrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O odio que elle sentia, e a compaixão
Que elle dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que soffrem ou suppõem que soffrem?
Sejam como eu – não soffrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o ceu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensado
Quando o amigo de gente fallava
(E isso me commoveu até ás lagrimas),
Era em como o murmurio longinquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos d’uma capella pequenina
A que fossem á missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoismo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preoccupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a unica missão no mundo,
Essa — existir claramente,
E saber fazel-o sem pensar nisso.)
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

XXXV

O luar atravez dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que elle é mais
Que o luar atravez dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar atravez dos altos ramos
É, além de ser
O luar atravez dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar atravez dos altos ramos.

XXXVII

Como um grande borrão de fogo sujo
O sol-posto demora-se nas nuvens que ficam.
Vem um silvo vago de longe na tarde muito calma.
Deve ser d’um comboio longinquo.
Neste momento vem-me uma vaga saudade
E um vago desejo placido
Que apparece e desapparece.
Tambem ás vezes, á flor dos ribeiros,
Formam-se bolhas na agua
Que nascem e se desmancham
E não teem sentido nenhum
Salvo serem bolhas de agua
Que nascem e se desmancham.

XXXIX

O mysterio das cousas, onde está elle?
Onde está elle que não apparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mysterio?
Que sabe o rio d’isso e que sabe a arvore?
E eu, que não sou mais do que elles, que sei d’isso?
Sempre que ólho para as cousas e penso no que os homens pensam d’ellas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o unico sentido occulto das cousas
É ellas não terem sentido occulto nenhum.
É mais extranho do que todas as extranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os philosophos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que comprehender.
Sim, eis o que os meus sentidos apprenderam sòsinhos: —
As cousas não teem significação: teem existencia.
As cousas são o unico sentido occulto das cousas.

XL

Passa uma borboleta por deante de mim
E pela primeira vez no universo eu reparo
Que as borboletas não teem cor nem movimento,
Assim como as flores não teem perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas azas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

XLII

Passou a diligencia pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bella, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fóra.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.

XLIII

Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição á Natureza,
Porque a Natureza de hontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

XLV

Um renque de arvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de arvores? Ha arvores apenas.
Renque e o plural arvores não são cousas, são nomes.
Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de cousa a cousa,
Que põem lettreiros com nomes nas arvores absolutamente reaes,
E desenham parallelos de latitude e longitude
Sobre a propria terra innocente e mais verde e florida do que isso!

XLVI

D’este modo ou d’aquelle modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo ás vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com mixturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fôsse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fôsse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fóra.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras á idéa
E não precisar d’um corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que apprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Cahindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou alguem.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo elle-proprio.
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.

XLVII

Num dia excessivamente nitido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nelle não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as arvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquelle Grande Mysterio de que os poetas falsos fallam.
Vi que não ha Natureza,
Que Natureza não existe,
Que ha montes, valles, planicies,
Que ha arvores, flores, hervas,
Que ha rios e pedras,
Mas que não ha um todo a que isso pertença,
Que um conjuncto real e verdadeiro
É uma doença das nossas idéas.
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mysterio de que fallam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.

XLVIII

Da mais alta janella da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostral-os a todos
Porque não posso fazer o contrario
Como a flor não pode esconder a côr,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a arvore esconder que dá fructo.
Eil-os que vão já longe como que na diligencia
E eu sem querer sinto pena
Como uma dôr no corpo.
Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Arvore, arrancaram-me os fructos para as boccas.
Rio, o destino da minha agua era não ficar em mim.
Submetto-me e sinto me quasi alegre,
Quasi alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a arvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua agua é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.

XLIX

Metto-me para dentro, e fecho a janella.
Trazem o candieiro e dão as boas-noites,
E a minha voz contente dá as boas-noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janella,
O ultimo olhar amigo dado ao socego das arvores,
E depois, fechada a janella, o candieiro acceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fóra um grande silencio como um deus que dorme.