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Ode Triunfal

Álvaro de Campos

Orpheu 1, janeiro — março de 1915, pp. 77-83.

  • ODE TRIUNFAL

    Á dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
    Tenho febre e escrevo.
    Escrevo rangendo os dentes, féra para a beleza disto,
    Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
    Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
    Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
    Em fúria fóra e dentro de mim,
    Por todos os meus nervos dissecados fóra,
    Por todas as papilas fóra de tudo com que eu sinto!
    Tenho os lábios sêcos, ó grandes ruídos modernos,
    De vos ouvir demasiadamente de perto,
    E arde-me a cabêça de vos querer cantar com um excesso
    De expressão de todas as minhas sensações,
    Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
    Em febre e olhando os motores como a uma Naturesa tropical ―
    Grandes trópicos humanos de ferro e fôgo e fôrça ―
    Canto, e canto o presente, e tambem o passado e o futuro,
    Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
    E ha Platão e Vergilio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
    Só porque houve outróra e fôram humanos Vergilio e Platão,
    E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cincoenta,
    Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
    Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
    Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
    Fazendo me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
    Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
    Ser completo como uma máquina!
    Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modêlo!
    Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
    Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
    A todos os perfumes de ólios e calores e carvões
    Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
    Fraternidade com todas as dinâmicas!
    Promíscua fúria de ser parte-agente
    Do rodar férreo e cosmopolita
    Dos comboios estrénuos,
    Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
    Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
    Do tumulto disciplinado das fábricas,
    E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
    Horas europeias, produtoras, entaladas
    Entre maquinismos e afazêres úteis!
    Grandes cidades paradas nos cafés,
    Nos cafés ― oásis de inutilidades ruìdosas
    Onde se cristalisam e se precipitam
    Os rumores e os gestos do Útil
    E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
    Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
    Novos entusiasmos de estatura do Momento!
    Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
    Ou a sêco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
    Actividade internacional, transatlantica, Canadian-Pacific!
    Luzes e febrís pêrdas de tempo nos bares, nos hoteis,
    Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
    E Piccadillies e Avenues de l’Opéra que entram
    Pela minh’alma dentro!
    Hé-la as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
    Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
    Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
    Membros evidentes de clubs aristocráticos;
    Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
    E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colête
    De algibeira a algibeira!
    Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
    Presença demasiadamente acentuada das cocottes;
    Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
    Das burguezinhas, mãe e filha geralmente,
    Que andam na rua com um fim qualquer;
    A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
    E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
    E afinal tem alma lá dentro!
    (Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)
    A maravilhosa belesa das corrupções políticas,
    Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
    Agressões políticas nas ruas,
    E de vez em quando o comêta dum regicídio
    Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
    Usuais e lúcidos da Civilisação quotidiana!
    Notícias desmentidas dos jornais,
    Artigos políticos insinceramente sinceros,
    Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes ―
    Duas colunas dêles passando para a segunda página!
    O cheiro frêsco a tinta de tipografia!
    Os cartazes postos ha pouco, molhados!
    Vients-de-paraître amarelos com uma cinta branca!
    Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
    Como eu vos amo de todas as maneiras,
    Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
    E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
    E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
    Ah, como todos os meus sentidos teem cio de vós!
    Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
    Química agrícola, e o comércio quase uma sciência!
    Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
    Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
    Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!
    Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
    Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
    Olá grandes armazens com várias secções!
    Olá anúncios eléctricos que veem e estão e desaparecem!
    Olá tudo com que hoje se constroi, com que hoje se é diferente de ontem!
    Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
    Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
    Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aéroplanos!
    Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
    Amo-vos carnivoramente,
    Pervertidamente e enroscando a minha vista
    Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
    Ó coisas todas modernas,
    Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
    Do sistema imediato do Universo!
    Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!
    Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
    Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes ―
    Na minha mente turbulenta e encandescida
    Possúo-vos como a uma mulher bela,
    Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
    Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
    Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
    Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
    Eh-la-hô recomposições ministeriais!
    Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
    Orçamentos falsificados!
    (Um orçamento é tão natural como uma árvore
    E um parlamento tão belo como uma borboleta).
    Eh lá o interesse por tudo na vida,
    Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
    Até á noite ponte misteriosa entre os astros
    E o mar antigo e solene, lavando as costas
    E sendo misericordiosamente o mesmo
    Que era quando Platão era realmente Platão
    Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
    E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dêle.
    Eu podia morrer triturado por um motor
    Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
    Atirem-me para dentro das fornalhas!
    Metam-me debaixo dos comboios!
    Espanquem-me a bordo de navios!
    Masóquismo através de maquinismos!
    Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!
    Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
    Morder entre dentes o teu cap de duas côres!
    (Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
    Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)
    Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
    Deixai-me partir a cabêça de encontro às vossas esquinas,
    E ser levantado da rua cheio de sangue
    Sem ninguem saber quem eu sou!
    Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
    Roçai-vos por mim até ao espasmo!
    Hilla! hilla! hilla-hô!
    Dai-me gargalhadas em plena cara,
    Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
    Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
    Rio multicolôr anónimo e onde eu não me posso banhar como quereria!
    Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
    Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
    As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
    Os pensamentos que cada um tem a sós comsigo no seu quarto
    E os gestos que faz quando ninguem o pode ver!
    Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
    Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
    Me põe a magro o rôsto e me agita às vezes as mãos
    Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
    Nas ruas cheias de encontrões!
    Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
    Que emprega palavrões como palavras usuais,
    Cujos filhos roubam às portas das mercearias
    E cujas filhas aos oito anos ― e eu acho isto belo e amo-o! ―
    Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
    A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
    Por vielas quase irreais de estreitesa e podridão.
    Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
    Que está abaixo de todos os sistemas morais,
    Para quem nenhuma religião foi feita,
    Nenhuma arte criada,
    Nenhuma política destinada para êles!
    Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
    Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
    Inatingíveis por todos os progressos,
    Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!
    (Na nora do quintal da minha casa
    O burro anda à roda, anda à roda,
    E o mistério do mundo é do tamânho disto.
    Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
    A luz do sol abafa o silêncio das esferas
    E havemos todos de morrer,
    Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
    Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
    Do que eu sou hoje…)
    Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
    Outra vez a obsessão movimentada dos ómnibus.
    E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
    De todas as partes do mundo,
    De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
    Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
    Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
    Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!
    Eh-lá grandes desastres de comboios!
    Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
    Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
    Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
    Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
    Ruìdo, injustiças, violências, e talvês para breve o fim,
    A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
    E outro Sol no novo Horizonte!
    Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
    Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
    Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
    Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
    O Momento de tronco nú e quente como um fogueiro,
    O momento estridentemente ruidoso e mecânico,
    O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
    Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.
    Eia comboios, eia pontes, eia hoteis à hora do jantar,
    Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
    Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
    Engenhos, brocas, máquinas rotativas!
    Eia! eia! eia!
    Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
    Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
    Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
    Eia todo o passado dentro do presente!
    Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
    Eia! eia! eia!
    Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
    Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
    Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
    Engatam-me em todos os comboios.
    Içam-me em todos os cais.
    Giro dentro das hélices de todos os navios.
    Eia! eia-hô! eia!
    Eia! sou o calor mecânico e a eletricidade!
    Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
    Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
    Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
    Hup lá, hup lá, hup-lá-hô, hup-lá!
    Hé-há! Hé-hô! Ho-o-o-o-o!
    Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
    Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

    ALVARO DE CAMPOS.

    Dum livro chamado Arco de Triunfo, a publicar.
  • ODE TRIUNFAL

    À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
    Tenho febre e escrevo.
    Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
    Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
    Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
    Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
    Em fúria fora e dentro de mim,
    Por todos os meus nervos dissecados fora,
    Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
    Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
    De vos ouvir demasiadamente de perto,
    E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
    De expressão de todas as minhas sensações,
    Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
    Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical ―
    Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força ―
    Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
    Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
    E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes elétricas
    Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
    E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
    Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
    Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
    Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
    Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
    Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
    Ser completo como uma máquina!
    Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
    Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
    Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
    A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
    Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
    Fraternidade com todas as dinâmicas!
    Promíscua fúria de ser parte-agente
    Do rodar férreo e cosmopolita
    Dos comboios estrénuos,
    Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
    Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
    Do tumulto disciplinado das fábricas,
    E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
    Horas europeias, produtoras, entaladas
    Entre maquinismos e afazeres úteis!
    Grandes cidades paradas nos cafés,
    Nos cafés ― oásis de inutilidades ruidosas
    Onde se cristalizam e se precipitam
    Os rumores e os gestos do Útil
    E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
    Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
    Novos entusiasmos de estatura do Momento!
    Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
    Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
    Atividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
    Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
    Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
    E Piccadillies e Avenues de l’Opéra que entram
    Pela minh’alma dentro!
    Hé-la as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
    Tudo o que passa, tudo o que para às montras!
    Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
    Membros evidentes de clubes aristocráticos;
    Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
    E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
    De algibeira a algibeira!
    Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
    Presença demasiadamente acentuada das cocottes;
    Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
    Das burguezinhas, mãe e filha geralmente,
    Que andam na rua com um fim qualquer;
    A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
    E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
    E afinal tem alma lá dentro!
    (Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)
    A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
    Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
    Agressões políticas nas ruas,
    E de vez em quando o cometa dum regicídio
    Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
    Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!
    Notícias desmentidas dos jornais,
    Artigos políticos insinceramente sinceros,
    Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes ―
    Duas colunas deles passando para a segunda página!
    O cheiro fresco a tinta de tipografia!
    Os cartazes postos há pouco, molhados!
    Vients-de-paraître amarelos com uma cinta branca!
    Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
    Como eu vos amo de todas as maneiras,
    Com os olhos e com os ouvidos e com o olfato
    E com o tato (o que palpar-vos representa para mim!)
    E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
    Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!
    Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
    Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
    Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
    Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
    Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!
    Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
    Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
    Olá grandes armazéns com várias secções!
    Olá anúncios elétricos que vêm e estão e desaparecem!
    Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
    Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
    Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
    Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
    Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
    Amo-vos carnivoramente,
    Pervertidamente e enroscando a minha vista
    Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
    Ó coisas todas modernas,
    Ó minhas contemporâneas, forma atual e próxima
    Do sistema imediato do Universo!
    Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!
    Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
    Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes ―
    Na minha mente turbulenta e encandescida
    Possuo-vos como a uma mulher bela,
    Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
    Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
    Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
    Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
    Eh-la-hô recomposições ministeriais!
    Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
    Orçamentos falsificados!
    (Um orçamento é tão natural como uma árvore
    E um parlamento tão belo como uma borboleta).
    Eh lá o interesse por tudo na vida,
    Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
    Até à noite ponte misteriosa entre os astros
    E o mar antigo e solene, lavando as costas
    E sendo misericordiosamente o mesmo
    Que era quando Platão era realmente Platão
    Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
    E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.
    Eu podia morrer triturado por um motor
    Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
    Atirem-me para dentro das fornalhas!
    Metam-me debaixo dos comboios!
    Espanquem-me a bordo de navios!
    Masoquismo através de maquinismos!
    Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!
    Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
    Morder entre dentes o teu cap de duas cores!
    (Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
    Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)
    Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
    Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
    E ser levantado da rua cheio de sangue
    Sem ninguém saber quem eu sou!
    Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
    Roçai-vos por mim até ao espasmo!
    Hilla! hilla! hilla-hô!
    Dai-me gargalhadas em plena cara,
    Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
    Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
    Rio multicolor anónimo e onde eu não me posso banhar como quereria!
    Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
    Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
    As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
    Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
    E os gestos que faz quando ninguém o pode ver!
    Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
    Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
    Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
    Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
    Nas ruas cheias de encontrões!
    Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
    Que emprega palavrões como palavras usuais,
    Cujos filhos roubam às portas das mercearias
    E cujas filhas aos oito anos ― e eu acho isto belo e amo-o! ―
    Masturbam homens de aspeto decente nos vãos de escada.
    A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
    Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
    Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
    Que está abaixo de todos os sistemas morais,
    Para quem nenhuma religião foi feita,
    Nenhuma arte criada,
    Nenhuma política destinada para eles!
    Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
    Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
    Inatingíveis por todos os progressos,
    Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!
    (Na nora do quintal da minha casa
    O burro anda à roda, anda à roda,
    E o mistério do mundo é do tamanho disto.
    Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
    A luz do sol abafa o silêncio das esferas
    E havemos todos de morrer,
    Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
    Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
    Do que eu sou hoje…)
    Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
    Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
    E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
    De todas as partes do mundo,
    De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
    Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
    Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
    Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!
    Eh-lá grandes desastres de comboios!
    Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
    Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
    Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
    Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
    Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
    A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
    E outro Sol no novo Horizonte!
    Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
    Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
    Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
    Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
    O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
    O momento estridentemente ruidoso e mecânico,
    O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
    Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.
    Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
    Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
    Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
    Engenhos, brocas, máquinas rotativas!
    Eia! eia! eia!
    Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
    Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
    Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
    Eia todo o passado dentro do presente!
    Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
    Eia! eia! eia!
    Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
    Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
    Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
    Engatam-me em todos os comboios.
    Içam-me em todos os cais.
    Giro dentro das hélices de todos os navios.
    Eia! eia-hô! eia!
    Eia! sou o calor mecânico e a eletricidade!
    Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
    Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
    Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
    Hup lá, hup lá, hup-lá-hô, hup-lá!
    Hé-há! Hé-hô! Ho-o-o-o-o!
    Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
    Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

    ÁLVARO DE CAMPOS.

    Dum livro chamado Arco de Triunfo, a publicar.