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Odes, Livro Primeiro

Ricardo Reis

Athena 1,

Outubro de 1924, pp.19-24.

ODES

LIVRO PRIMEIRO

I

Seguro assento na columna firme

Dos versos em que fico,


Nem temo o influxo innumero futuro

Dos tempos e do olvido;


Que a mente, quando, fixa, em si contempla

Os reflexos do mundo,


D’elles se plasma torna, e á arte o mundo

Cria, que não a mente.


Assim na placa o externo instante grava

Seu ser, durando nella.


II

As rosas amo dos jardins de Adonis,
Essas volucres amo, Lydia, rosas,

Que em o dia em que nascem.


Em esse dia morrem.


A luz para ellas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam

Antes que Apollo deixe


O seu curso visivel.


Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lydia, voluntariamente

Que ha noite antes e após


O pouco que durâmos.


III

O mar jaz; gemem em segredo os ventos

Em Eolo captivos;


Só com as pontas do tridente as vastas

Aguas franze Neptuno;


E a praia é alva e cheia de pequenos

Brilhos sob o sol claro.


Inutilmente parecemos grandes.

Nada, no alheio mundo,


Nossa vista grandeza reconhece

Ou com razão nos serve.


Si aqui de um manso mar meu fundo indicio

Trez ondas o apagam,


Que me fará o mar que na atra praia

Echoa de Saturno?


IV

Não consentem os deuses mais que a vida.
Tudo pois refusemos, que nos alce

A irrespiraveis pincaros,


Perennes sem ter flores.


Só de acceitar tenhamos a sciencia,
E, emquanto bate o sangue em nossas fontes,

Nem se engelha comnosco


O mesmo amor, duremos,


Como vidros, ás luzes transparentes
E deixando escorrer a chuva triste,

Só mornos ao sol quente,


E reflectindo um pouco.


V

Como si cada beijo


Fôra de despedida,


Minha Chloe, beijemo-nos, amando.

Talvez que já nos toque


No hombro a mão, que chama


Á barca que não vem senão vazia;

E que no mesmo feixe


Ata o que mutuos fomos


E a alheia somma universal da vida.

VI

O rythmo antigo que ha em pés descalços,
Esse rythmo das nymphas repetido,

Quando sob o arvoredo


Batem o som da dança,


Vós na alva praia relembrae, fazendo,
Que scura a spuma deixa; vós, infantes,

Que inda não tendes cura


De ter cura, reponde


Ruidosa a roda, emquanto arqueia Apollo,
Como um ramo alto, a curva azul que doura,

E a perenne maré


Flue, enchente ou vasante.


VII

Ponho na altiva mente o fixo exforço

Da altura, e á sorte deixo,


E a suas leis, o verso;


Que, quando é alto e regio o pensamento,

Subdita a phrase o busca


E o scravo rythmo o serve.


VIII

Quam breve tempo é a mais longa vida
E a juventude nella! Ah Chloe, Chloe,

Si não amo, nem bebo,


Nem sem querer não penso,


Pesa-me a lei inimploravel, doe-me
A hora invita, o tempo que não cessa,

E aos ouvidos me sobe


Dos juncos o ruido


Na occulta margem onde os lirios frios
Da infera leiva crescem, e a corrente

Não sabe onde é o dia,


Sussurro gemebundo.


IX

Coroae-me de rosas,
Coroae-me em verdade

De rosas —


Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se

Tam cedo!


Coroae-me de rosas
E de folhas breves.

E basta.


X

Melhor destino que o de conhecer-se
Não frue quem mente frue. Antes, sabendo,

Ser nada, que ignorando:


Nada dentro de nada.


Si não houver em mim poder que vença
As parcas trez e as moles do futuro,

Já me dêem os deuses


O poder de sabe-lo;


E a belleza, increavel por meu sestro,
Eu gose externa e dada, repetida

Em meus passivos olhos,


Lagos que a morte sécca.


XI

Temo, Lydia, o destino. Nada é certo
Em qualquer hora pode succeder-nos

O que nos tudo mude.


Fora do conhecido é extranho o passo
Que proprio damos. Graves numes guardam

As lindas do que é uso.


Não somos deuses: cegos, receemos,
E a parca dada vida anteponhamos

Á novidade, abysmo.


XII

A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.

Tempo ha para negares


Depois de teres dado.


Flor, sê-me flor ! Se te colher avaro
A mão da infausta sphynge, tu perenne

Sombra errarás absurda,


Buscando o que não déste.


XIII

Ólho os campos, Neera,
Campos, campos, e soffro
Já o frio da sombra
Em que não terei olhos.
A caveira antesinto
Que serei não sentindo,
Ou só quanto o que ignoro
Me incognito ministre.
E menos ao instante
Chóro, que a mim futuro,
Subdito ausente e nullo
Do universal destíno.

XIV

De novo traz as apparentes novas
Flores o verão novo, e novamente

Verdesce a cor antiga


Das folhas redivivas.


Não mais, não mais d’elle o infecundo abysmo,
Que mudo sorve o que mal somos, torna

Á clara luz superna


A presença vivída.


Não mais; e a prole a que, pensando, dera
A vida da razão, em vão o chama,

Que as nove chaves fecham


Da Styge irreversivel.


O que foi como um deus entre os que cantam,
O que do Olympo as vozes, que chamavam,

Scutando ouviu, e, ouvindo,


Entendeu, hoje é nada.


Tecei embora as, que teceis, grinaldas.
Quem coroaes, não coroando a elle?

Votivas as deponde,


Funebres sem ter culto.


Fique, porém, livre da leiva e do Orco,
A fama; e tu, que Ulysses erigira,

Tu, em teus septe montes,


Orgulha-te materna,


Egual, desde elle, ás septe que contendem
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,

Ou heptapyla Thebas,


Ogygia mãe de Pindaro.


XV

Este, seu scasso campo ora lavrando,
Ora, solemne, olhando-o com a vista
De quem a um filho olha, gosa incerto

A não-pensada vida.


Das fingidas fronteiras a mudança
O arado lhe não tolhe, nem o empece
Per que consilios se o destino rege

Dos povos pacientes.


Pouco mais no presente do futuro
Que as hervas que arrancou, seguro vive
A antiga vida que não torna, e fica

Filhos, diversa e sua.


XVI

Tuas, não minhas, teço estas grinaldas,
Que em minha fronte renovadas ponho.

Para mim tece as tuas,


Que as minhas eu não vejo.


Se não pesar na vida melhor goso
Que o vermo-nos, vejamo-nos, e, vendo,

Surdos conciliemos


O insubsistente surdo.


Coroemo-nos pois uns para os outros,
E brindemos unisonos á sorte

Que houver, até que chegue


A hora do barqueiro.


XVII

Não queiras, Lydia edificar no spaço
Que figuras futuro, ou prometter-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não sperando.

Tu mesma és tua vida.


Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ella de novo enchida, não te a sorte

Interpõe o abysmo?


XVIII

Saudoso já d’este verão que vejo,
Lagrimas para as flores d’elle emprego

Na lembrança invertida


De quando hei de perdel-as.


Transpostos os portaes irreparaveis
De cada anno, me anticipo a sombra

Em que hei de errar, sem flores,


No abysmo rumoroso.


E colho a rosa porque a sorte manda.
Marcenda, guardo-a; murche-se commigo

Antes que com a curva


Diurna da ampla terra.


XIX

Prazer, mas devagar,


Lydia, que a sorte áquelles não é grata

Que lhe das mãos arrancam.


Furtivos retiremos do horto mundo

Os depredandos pomos.


Não dispertemos, onde dorme, a erynnis

Que cada goso trava.


Como um regato, mudos passageiros,

Gosemos escondidos.


A sorte inveja, Lydia. Emmudeçamos.

XX

Cuidas, invio, que cumpres, apertando
Teus infecundos, trabalhosos dias

Em feixes de hirta lenha,


Sem illusão a vida.


A tua lenha é só peso que levas
Para onde não tens fogo que te aqueça.

Nem soffrem peso aos hombros


As sombras que seremos.


Para folgar não folgas; e, se legas,
Antes legues o exemplo, que riquezas,

De como a vida basta


Curta, nem tambem dura.


Pouco usamos do pouco que mal temos.
A obra cança, o ouro não é nosso.

De nós a mesma fama


Ri-se, que a não veremos


Quando, acabados pelas parcas, formos,
Vultos solemnes, de repente antigos,

E cada vez mais sombras,


Ao encontro fatal —


O barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços da frieza stygia

E o regaço insaciavel


Da patria de Plutão.


RICARDO REIS