English|Português|Deutsch

O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspetos da arte e da literatura portuguesas

Fernando Pessoa

Revista Portuguesa 23-24, 13 de outubro de 1923, pp. 17-22.

O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os varios aspectos da arte e da literatura portuguesas

Entrevistar Fernando Pessôa não é facil. Só é facil entrevistar os que não pensam, os que não se importam de jogar palavras, ao acaso, atirando-as impudicamente ao vento.

Fernando Pessôa, quere como Fernando Pessôa, quere como Alvaro de Campos ― o engenheiro alucinado que comporta o seu segundo eu, e que aparece em toda a parte, enchendo a voz de louvores e raios para a Vida – raios partam a Vida e quem lá ande! – é sempre um voluptuoso do raciocinio, um amante da inteligencia, podemos dizer: um creadôr duma nova Razão. Paradoxal? Sem duvida. Mas ha tantas maneiras de ser paradoxal!

A entrevista que se segue, toda escripta por Fernando Pessôa — nem podia deixar de ser visto Fernando Pessôa possuir uma sintaxe propria para a logica propria dos seus pensamentos, mixto de seriedade e de ironia, vái decerto prender o espirito dos leitores...

Atenção! Fernando Pessôa vai responder ás perguntas que lhe fizemos:

– Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos – politico, moral e intellectual?

– A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizaveis. Esta phrase, como todas que involvem uma contradição não involve contradicção nenhuma. Eu explico.

Todo povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este elle mesmo teem uma substancia identica; manifestam-se, porém, differentemente. A aristocracia manifesta-se como individuos, incluindo alguns individuos amadores; o povo revela-se como todo elle um individuo só. Só collectivamente é que o povo não é collectivo.

O povo portuguez é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro portuguez foi portuguez: foi sempre tudo. Ora ser tudo em um individuo é ser tudo; ser tudo em uma collectividade é cada um dos individuos não ser nada. Quando a atmosphera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o portuguez pode ser portuguez, pode portanto ser individuo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosphera da civilização não é cosmopolita – como no tempo entre o fim da Renascença e o principio, em que estamos, de uma Renascença nova – o portuguez deixa de poder respírar individualmente. Passa a ser só portuguezes. Passa a não poder ter aristocracia. Passa a não passar. (Garanto-lhe que estas phrases teem uma mathematica intima.)

Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdôa. Porisso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjuncto. E como o seu conjuncto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o portuguez, com a sua tendencia para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possiveis. Foi neste vacuo de si-proprio que o portuguez abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essencia da nossa crise.

As nossas crises particulares procedem d’esta crise geral. A nossa crise politica é o sermos governados por uma maioria que não ha. A nossa crise moral é que desde 1580 – fim da Renascença em nós e de nós na Renascença – deixou de haver individuos em Portugal para haver só portuguezes. Porisso mesmo acabaram os portuguezes nessa ocasião. Foi então que começou o portuguez á antiga portugueza, que é mais moderno que o portuguez, e é o resultado de estarem interrompidos os portuguezes. A nossa crise intellectual é simplesmente o não termos consciencia d’isto.

Respondi, creio, á sua pergunta. Se v. reparar bem para o que lhe disse, verá que tem um sentido. Qual, não me compete a mim dizer.

– Que pensa dos nossos escriptores do momento, prosadores, poetas e dramaturgos?

– Citar é ser injusto. Enumerar é esquecer. Não quero esquecer ninguem de quem me não lembre. Confio ao silencio a injustiça. A ansia de ser completo leva ao desespero de o não poder ser. Não citarei ninguem. Julgue-se citado quem se julgue com direito a sel-o. Resolvo assim todos. Lavo as mãos, como Pilatos; lavo-as, porém, inutilmente, porque é sempre inutilmente que se faz um gesto simplificador. Que sei eu do presente, salvo que elle é já o futuro? Quem são os meus contemporaneos? Só o futuro o poderá dizer. Coexiste commigo muita gente que vive commigo apenas porque dura commigo. Esses são apenas os meus conterraneos no tempo; e eu não quero ser bairrista em materia de immortalidade. Na duvida, repito, não citarei ninguem.

– Estaremos em face de uma renascença espiritual?

– Estamos tão desnacionalizados que devemos estar renascendo. Para os outros povos, na sua totalidade elles-proprios, o desnacionalizar-se é o perder-se. Para nós, que não somos nacionaes, o desnacionalizar-se é o encontrar-se. Apezar dos grandes obstáculos á nossa regeneração – todas as doutrinas de regeneração – estamos no inicio de tornar a começar a existir. Chegámos ao ponto em que collectivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos. Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho. Os signaes do nosso resurgimento proximo estão patentes para os que não vêem o visivel. São o caminho de ferro de Anthero a Pascoaes e a nova linha que está quasi construida. Fallo em termos de vida metallica porque a epocha renasce nestes termos. O symbolo, porém, nasceu antes dos engenheiros.

Nada ha a esperar, é certo, das classes dirigentes, porque não são dirigentes; e ainda menos da proletariagem, porque ser inferior não é uma superioridade. Com razão lhes chamei eu, a estes, sub-gente, num artigo da antiga Aguia – da Aguia que voava. Só a burguezia, que é a ausencia da classe social, pode crear o futuro. Só de uma classe que não ha pode nascer uma classe que não ha ainda. Seja como fôr, avancemos confiadamente. Todos os caminhos vão dar á ponte quando o rio não tem nenhuma.

– O que se deve entender por arte portugueza? Concorda com este termo? Ha arte verdadeiramente portugueza?

– Por arte portugueza deve entender-se uma arte de Portugal que nada tenha de portuguez, por nem sequer imitar o estrangeiro. Ser portuguez no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-creação de nacionalidade. Arte portugueza será aquella em que a Europa – entendendo por Europa principalmente a Grecia antiga e o universo inteiro – se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações – a Grecia passada e Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só ellas mas tambem todas as outras. Chamo a sua attenção para o facto, mais importante que geographico, de que Lisboa e Athenas estão quasi na mesma latitude.

– O regionalismo na litteratura e na pintura?

– O regionalismo é uma degeneração gordurosa do nacionalismo, e o nacionalismo tambem. E como o nacionalismo é anti-portuguez (sendo bom, cá no Sul, só para os povos latinos e ibericos), o regionalismo em Portugal é uma doença do que não ha. Amar a nossa terra não é gostar do nosso quintal. E isto de quintal tambem tem interpretações. O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amal-o por elle estar na Europa. Mas quando chego a este regionalismo, sou já português, e já não penso no meu quintal. (O facto de o meu quintal ser inteiramente metaphorico não diminue a verdade de tudo isto: Deus, e o proprio universo, são metaphoras tambem.)

– Teriam existido em toda a nossa historia litteraria periodos de creação?

>– O nosso unico periodo de creação foi dedicado a crear um mundo. Não tivemos tempo para pensar nisso. O proprio Camões não foi mais que o que esqueceu fazer. Os Lusiadas é grande, mas nunca se escreveu a valer. Litterariamente, o passado de Portugal está no futuro. O Infante, Albuquerque e os outros semi-deuses da nossa gloria esperam ainda o seu cantor. Este poderá não fallar d’elles; basta que os valha em seu canto, e fallará d’elles. Camões estava muito perto para poder sonhal-os. Nas faldas do Himalaya o Himalaya é só as faldas do Himalaya. É na distancia, ou na memoria, ou na imaginação que o Himalaya é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto. Ha só um periodo de creação na nossa historia litteraria: não chegou ainda.

– Continuará sendo o lyrismo a nossa feição litteraria predominante?

– Ha duas feições litterarias – a epica e a dramatica. O lyrismo é a incapacidade commovida de ter qualquer d’ellas. O que é ser lyrico? É cantar as emoções que se teem. Ora cantar as emoções que se teem faz-se até sem cantar. O que custa é cantar as emoções que se não teem. Sentir profundamente o que se não sente é a flamula de almirante da inspiração. O poeta dramatico faz isto directamente; o poeta epico fal-o indirectamente, sentindo o conjuncto da obra mais que as partes d’ella, isto é, sentindo exactamente aquelle elemento da obra de que não pode haver emoção nenhuma pessoal, porque é abstracto e porisso impessoal. Fomos esboçadamente epicos. Seremos inviolavelmente dramaticos. Fomos lyricos quando não fomos nada. O lyrismo só continuará sendo a nossa feição predominante se não formos capazes de ter feição predominante.

– O que calcula que seja o futuro da raça portugueza?

– O Quinto Imperio. O futuro de Portugal – que não calculo mas sei – está escripto já, para quem saiba lel-o, nas trovas do Bandarra, e tambem nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja portuguez, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que portuguez verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza esteril do catholicismo, quando fóra d’elle ha que viver todos os protestantismos, todos os credos orientaes, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguezmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fóra de nós fique um unico deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portuguezes. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma cousa! Creemos assim o Paganismo Superior, o Polytheismo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.

Alves Martins.

  • Nomes

    • Afonso de Albuquerque
    • Antero de Quental
    • António Alves Martins
    • D. Henrique
    • Deus
    • Fernando Pessoa
    • Gonçalo Annes Bandarra
    • Luiz de Camões
    • Nostradamus
    • Pôncio Pilatos
    • Teixeira de Pascoaes
    • Álvaro de Campos

    Títulos

    • Os Lusiadas

    Periódicos

    • A Águia