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Alguns Poemas (Sacadura Cabral, Gladio, De um Cancioneiro)

Fernando Pessoa

Athena 3,

Dezembro de 1924, pp.81-88.

ALGUNS POEMAS

SACADURA CABRAL

No frio mar do alheio Norte,

Morto, quedou,


Servo da Sorte infiel que a sorte

Deu e tirou.


Brilha alto a chamma que se apaga.

A noite o encheu.


De extranho mar que extranha plaga,

Nosso, o acolheu?


Floriu, murchou na extrema haste;

Joia do ousar,


Que teve por eterno engaste

O céu e o mar.


GLADIO

Ao Alberto Da Cunha Dias.
Deu-me Deus o Seu gladio, porque eu faça

A sua sancta guerra.


Sagrou-me Seu em genio e em desgraça
Ás horas em que um frio vento passa

Por sobre a fria terra.


Poz-me as mãos sobre os hombros, e dourou-me

A fronte com o olhar;


E esta febre de Além, que me consome,
E este querer-justiça são Seu nome

Dentro em mim a vibrar.


E eu vou, e a luz do gladio erguido dá

Em minha face calma.


Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será

Maior do que a minha alma!


DE UM CANCIONEIRO

No entardecer da terra
O sopro do longo outomno
Amarelleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num somno,
Na livida solidão.
Soergue as folhas, e pousa
As folhas, e volve, e revolve,
E esvahe-se inda outra vez.
Mas a folha não repousa,
E o vento livido volve
E expira na lividez.
Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E até do que hoje sou
Amanhã direi, Quem dera
Volver a sel-o!… Mais frio
O vento vago voltou.
*
Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tam lento o teu soar,
Tam como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que tanjas perto,
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
*
Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.
Nunca, nunca, em nada,
Raie a madrugada,
Ou splenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gosar.
*
Pobre velha música!
Não sei porque agrado,
Enche-se de lagrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infancia
Que me lembra em ti.
Com que ancia tam raiva
Quero aquelle outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
*
Dorme enquanto eu vello...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tam attento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
*
Sol nullo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!
Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ella passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!
Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ella tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguem!
*
Trila na noite uma flauta. É de algum
Pastor? Que importa? Perdida
Série de notas vaga esem sentido nenhum,
Como a vida.
Sem nexo ou principio ou fim ondeia
A aria alada.
Pobre aria fóra de musica e de voz, tam cheia
De não ser nada!
Não ha nexo ou fio por que se lembre aquella
Aria, ao parar;
E já ao ouvil-a soffro a saudade d’ella
E o quando cessar.
*
Põe-me as mãos nos hombros…
Beija-me na fronte…
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.
Eu não sei por quê,
Meu dêsde onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo extranho.
Põe a tua mão
Sobre o meu cabello…
Tudo é illusão.
Sonhar é sabel-o.
*
Manhã dos outros! Ó sol que dás confiança

Só a quem já confia!


É só á dormente, e não á morta, sperança

Que accorda o teu dia.


Aquem sonha de dia e sonha de noite, sabendo

Todo sonho vão,


Mas sonha sempre, só para sentir-se vivendo

E a ter coração,


A esses raias sem o dia que trazes, ou sòmente

Como alguem que vem


Pela rua, invisivel ao nosso olhar consciente,

Por não ser-nos ninguem.


*
Treme em luz a agua.
Mal vejo. Parece
Que uma alheia magua
Na minha alma desce —
Magua erma de alguem
De algum outro mundo
Onde a dor é um bem
E o amor é profundo,
E só punge ver,
Ao longe, illudida,
A vida a morrer
O sonho da vida.
*
Dorme sobre o meu seio,
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lubrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na illusão de amar.
Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O spaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,
Sem magua nem amor…
No teu olhar eu leio
O intimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e goso e dor.
*
Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me extranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angustia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.
*
Em toda a noite o somno não veio. Agora

Raia do fundo


Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.

Que faço eu no mundo?


Nada que a noite acalme ou levante a aurora,

Coisa seria ou vã.


Com olhos tontos da febre vã da vigilia

Vejo com horror


O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim

Do mundo e da dor —


Um dia egual aos outros, da eterna familia

De serem assim.


Nem o symbolo ao menos val, a significação

Da manhã que vem


Sahindo lenta da propria essencia da noite que era,

Para quem,


Por tantas vezes ter sempre sperado em vão,

Já nada spera.


*
Ella canta, pobre ceifeira,
Julgando se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anonyma viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E ha curvas no enredo suave
Do som que ella tem a cantar.
Ouvil-a alegra e entristece,
Na sua voz ha o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciencia,
E a consciencia d’isso! Ó céu!
Ó campo! ó canção! A sciencia
Pesa tanto e a vida é tam breve!
Entrae por mim dentro! Tornae
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passae!

FERNANDO PESSOA

O poema “Gladio“, aqui incluído em “Alguns Poemas”, foi republicado em Cancioneiro do 1º Salão dos Independentes, 1930, pp. 21-22. Para além de diferenças ortográficas, a segunda publicação apresenta a correção de uma gralha da primeira, lendo-se no início do terceiro verso da segunda estrofe “E esta febre de além”. A transcrição aqui apresentada segue esta correção. Apresentamos aqui as imagens de ambas as publicações.

Em “Alguns Poemas / De um Cancioneiro” Pessoa republica três poemas, anteriormente publicados sob os títulos “Impressões do Crepusculo” (A Renascença, Fevereiro de 1914), “A Ceifeira” (Terra Nossa, Setembro de 1916, p. 46) e “Canção de Outomno” (Ilustração Portuguesa, 28 Janeiro de 1922, p. 86). Apresentando as versões destes poemas diferenças significativas, optamos por publicar todas as transcrições e respetivas imagens.