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Impressões do Crepusculo

Fernando Pessoa

A Renascença número único,

Fevereiro de 1914, p.11.

Impressões do Crepusculo

I

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Sôa dentro da minh’alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem um som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo triste e errante,
E’s para mim como um sonho —
Sôas-me sempre distante…
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

II

Pauis de roçarem ansias pela minh’alma em ouro...
Dobre longinquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh’alma...
Tão sempre a mesma, a Hora!... Baloiçar de cimos de palma...
Silencio que as folhas fitam em nós... Outôno delgado
Dum canto de vaga ave... Azul esquecido em estagnado...
Oh que mudo grito de ansia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra cousa que o que chora!
Estendo as mãos para além, mas ao estende-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Cimbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A Hora expulsa de si-Tempo! Onda de recúo que invade
O meu abandonar-me a mim-proprio até desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola, transparente de Foi, ôco de têr-se...
O Misterio sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não contêr-se...
A sentinela é hirta — a lança que finca no chão
É mais alta do que ela... Pra que é tudo isto?... Dia chão...
Trepadeiras de desproposito lambendo de Hora os Aléns...
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são élos de erro...
Fanfarras de ópios de silencios futuros... Longes trens...
Portões vistos longe... atravez das arvores... tão de ferro!

FERNANDO PESSÔA.

Impressões do Crepusculo Fernando Pessoa Edição, Transcrição Pedro Sepúlveda Transcrição Pablo Javier Pérez López Modelagem de dados, Codificação Ulrike Henny-Krahmer Codificação Sviatoslav Drach Consultoria Institut für Dokumentologie und Editorik (IDE) Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) Cologne Center for eHumanities (CCeH) 2017 Pessoa_Impressoes-do-Crepusculo.xml Impressões do Crepusculo I II Impressões do Crepusculo Fernando Pessoa A Renascença Fevereiro de 1914 número único 11 Poesia

Impressões do Crepusculo

I

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Sôa dentro da minh’alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem um som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo triste e errante,
E’s para mim como um sonho —
Sôas-me sempre distante…
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

II

Pauis de roçarem ansias pela minh’alma em ouro...
Dobre longinquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh’alma...
Tão sempre a mesma, a Hora!... Baloiçar de cimos de palma...
Silencio que as folhas fitam em nós... Outôno delgado
Dum canto de vaga ave... Azul esquecido em estagnado...
Oh que mudo grito de ansia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra cousa que o que chora!
Estendo as mãos para além, mas ao estende-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Cimbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A Hora expulsa de si-Tempo! Onda de recúo que invade
O meu abandonar-me a mim-proprio até desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola, transparente de Foi, ôco de têr-se...
O Misterio sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não contêr-se...
A sentinela é hirta — a lança que finca no chão
É mais alta do que ela... Pra que é tudo isto?... Dia chão...
Trepadeiras de desproposito lambendo de Hora os Aléns...
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são élos de erro...
Fanfarras de ópios de silencios futuros... Longes trens...
Portões vistos longe... atravez das arvores... tão de ferro!

FERNANDO PESSÔA.