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O Menino Da Sua Mãe

Fernando Pessoa

Contemporânea 1,

Maio de 1926.

O MENINO DA SUA
MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado —
Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços extendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tam jovem! que jovem era!
(Agora que edade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»
Cahiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lh’a a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Elle é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lh’o a creada
Velha que o trouxe ao collo.
Lá longe, em casa, ha a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o lmperio tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

FERNANDO PESSOA