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Abdicação

Fernando Pessoa

Resurreição 9,

Fevereiro de 1920, p.4.

ABDICAÇÃO

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.

Eu sou um rei


Que voluntariamente abandonei
O meu throno de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu sceptro e corôa, — eu os deixei
Na antecamara, feitos em pedaços.
Minha cota de malha, tão inutil,
Minhas esporas, de um tinir tão futil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei á noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

FERNANDO PESSOA.

Abdicação Fernando Pessoa Edição, Transcrição Pedro Sepúlveda Transcrição Pablo Javier Pérez López Modelagem de dados, Codificação Ulrike Henny-Krahmer Codificação Sviatoslav Drach Consultoria Institut für Dokumentologie und Editorik (IDE) Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) Cologne Center for eHumanities (CCeH) 2017 Pessoa_Abdicacao.xml Abdicação Abdicação Fernando Pessoa Resurreição Fevereiro de 1920 9 4 Poesia

ABDICAÇÃO

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.

Eu sou um rei


Que voluntariamente abandonei
O meu throno de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu sceptro e corôa, — eu os deixei
Na antecamara, feitos em pedaços.
Minha cota de malha, tão inutil,
Minhas esporas, de um tinir tão futil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei á noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

FERNANDO PESSOA.