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"Prefácio" a Alma errante, de António Botto

Fernando Pessoa

Alma errante, .

  • PREFÁCIO

    ELIEZER KAMENESKY é judeu russo, vagamundo temporáriamente parado, cultor teórico e prático do que chamam naturismo, e idealista e romantico como são todos os judeus, quando não são o contrário.

    A sua personalidade como vagamundo não interessa para o entendimento das suas composições: não se reflecte nelas. Se Eliezer nunca tivesse saído de Lugansk, onde nasceu, essas composições poderiam nunca ter sido outras no sentido, embora, evidentemente, o houvessem de ser na linguagem, que não seria a portuguesa.

    Tambem o seu culto do naturismo, ainda que deliberadamente expresso em muitos passos do que escreve, não é ponto fundamental para a compreensão das suas prosas ou versos. Êsse culto do natural é a forma ou expressão do seu misticismo de judeu, e o seu misticismo de judeu é um misticismo de judeu russo.

    Para o caso, pois, de apresentar estas composições a leitores portugueses, de sorte que êstes demasiadamente as não estranhem, basta que consideremos que Eliezer é judeu, judeu russo, e judeu místico. Uma análise, de onde venha a explicação, terá pois que incidir sôbre a mentalidade mítica do judeu em geral, e do judeu russo em particular.

     

    Os povos equilibram-se, na sua vida psíquica, pela coexistencia automática de qualidades opostas. Se soubermos, de qualquer povo, que êle é brutalmente materialista, desde logo poderemos concluir que êle será brutalmente místico. Se soubermos, de qualquer nação, que ha nêla típicamente um grande número de criminosos, poderemos asseverar, sem investigação, que haverá nela, típicamente tambem, um grande número de santos. A vida oscila como um pêndulo, e a oscilação num sentido requere, para que a mesma vida não pare, uma igual oscilação no sentido inverso.

    Como, porém, na oscilação do pêndulo se mantém o ritmo do movimento, sucede que tanto as qualidades que estão num limite da oscilação, como as que estão no outro limite, participam da mesma oscilação essencial. Em outras palavras, e servindo-nos do exemplo que citámos: um povo violentamente material é, ao mesmo tempo, um povo violentamente místico; mas haverá um elemento — a violencia — de comum ao seu materialismo e ao misticismo que se lhe contrapõe. Não pode existir um povo de brutais na vida e delicados no sentimento dela: seriam ritmos diferentes, que o equilíbrio da vida não consente.

    Onde quer que lancemos os olhos, na película ininterrupta da história, encontramos disto exemplos. A Idade Média, bárbara e anciosa, era intensa e brutal na sua vida de matéria e sentidos, e era intensa e brutal na vida do seu misticismo maníaco. Não destôa da tése a subtileza delirante da especulação escolástica, pois a subtileza, embora o não pareça, é a violencia do pensamento: a violencia é o excesso da força, e, como a força do pensamento consiste na capacidade de distinção, a volencia dêle consistirá na tendencia a distinguir de mais, e é isso que é a subtileza.

    A Inglaterra ministra-nos outro exemplo, e noutra ordem. O povo inglês foi sempre claramente activo e prático; é contudo o povo que deu ao mundo a poesia lírica mais etérea e subtil. Mas o inglês, na mesma plena imersão prática, é incoordenado e inconstrutivo: vai pela realidade fora aos apalpões, ainda que aos apalpões seguros. Um Infante D. Henrique, ou um Bismarck, é produto impossível em Inglaterra. E, do mesmo modo, na mais alta poesia inglesa a inspiração sobreleva á construção. Continúa a técnica de apalpões: nêsse nível, porém, tocam nos astros. Onde, por desvio e excepção, a construção suba, como em Milton, desde logo a subtileza e a eteridade descem. O Ariel do pagão Shakespeare, não sendo mais que um elemental do Ar, é todavia mais angélico que os anjos do cristão Milton ― anjos da Cabala ou da Rosea Cruz, ou, pelo menos, da Rosea cruz como Fludd a entendeu.

     

    Esta existência necessária, nos povos, de elementos opostos, e porisso complementares e equilibrantes, manifesta-se, em geral, atravez de indivíduos diferentes. Quer dizer: não é no mesmo indivíduo que normalmente coincidem os dois elementos complementares; aparece um em certos indivíduos, outro em outros. O equilíbrio dá-se na raça ou no povo em conjunto, não nos indivíduos separadamente.

    Algumas vezes, é certo, essa dupla mentalidade da raça se reflecte, ou parece reflectir, no mesmo indivíduo. Tal foi, talvez, o caso de Shakespeare — burguês banal, dirigindo atiladamente o seu teátro, emprestando dinheiro a juros a seus conterrâneos, e, no mesmo tempo, escrevendo A tormenta, que, para tudo ter de etéreo e inspirado, é até simbólica e profética. Mas nem no caso de se citar Shakespeare quer dizer que a coexistencia individual dos elementos opostos se dê sómente em altos espíritos, nem o apontamos senão como a excepção, e para acentuar a regra. É na raça ou nação, repita-se, que o equilíbrio essencial se dá.

    Isto vem, primeiro, para o fim geral de se compreender que, se nos aparecer um indivíduo com característicos opostos aos que são vulgarmente distintivos da sua raça, não é lícito que duvidemos que êle pertença a essa raça, ou que seja sincero na presentação dêsses característicos: êle poderá ser tamsómente um depositário dos característicos complementares da raça a que pertence. Isto vem, depois, para o fim particular de se compreender que, sendo a raça judaíca universalmente conhecida pela sua fechada e cautelosa materialidade, não havemos necessáriamente de desconfiar de sinceridade de um judeu que se nos apresenta como um romantico e um idealista. E, para o caso das composições de Eliezer — porque é delas, afinal, que se trata —, êste ponto da sinceridade é importante: sem ela, como veremos, elas nada seriam.

     

    O povo judeu é, essencialmente, e no sentido filosofico da palavra, um povo materialista. E, como é essencialmente um povo materialista, é materialista na sua materialidade e materialista na sua idealidade. Da sua materialidade não ha que falar, pois todos falam dela e não é dela que aqui se trata. É à-cerca da sua idealidade que convém e cabe a explicação.

    A idealidade judaica manifesta-se de três fórmas diferentes, todas elas eivadas do materialismo central da raça, rítmo do pêndulo da vida que a anima. A primeira fórma é o seu patriotismo tradicionalista; e o patriotismo tradicionalista, seja de que nação fôr, é o modo mais material do sentimento da pátria ou da raça. A segunda fórma é a especulação cabalistica, em que, embora se pretenda subtilizar, por interpretações de três ordens, o conteúdo do Pentateuco, e de mais que o Pentateuco, nunca se atinge uma vera abstração ou uma espiritualidade verdadeira: material, considerando o que pretende ser, é ainda o Nome Inefável, materiais os Sephiroth, os Arcanjos, os Anjos e as Esferas Celestes, através de quem vem até nós a Sua emanação. A terceira fórma ― não mais recente, mas mais recentemente sensível ― é o idealismo social em todos os seus modos, desde o egualitarismo até ao naturismo; e essa é material por sua mesma natureza.

    São estas as três fórmas da idealidade judaica, e, embora todas manifestem o materialismo central da raça, não são materiais em seus intuitos; não ha porisso que duvidar da sinceridade daquêles judeus em quem as vemos. Do tradicionalismo racico, e certo, ninguém duvida ou duvidou; aliás, os antisemitas não têm nem tiveram senão vantagem em acentuá-lo. As outras duas fórmas têm sido diversamente consideradas pelos inimigos dos judeus: a primeira como sincera na origem mas não em certos modos do seu uso, a segunda como insincera; e como ambas elas servindo — uma por utilisação, outra por invenção — para desintegrar e dissolver a civilisação cristã, em a qual os judeus adversariamente vivem.

    Acusam os cabalistas, de cuja sinceridade original se não duvida, de, primeiro, através da Rósea Cruz, terem criado a Maçonaria, Ordem supostamente anti-cristã, e de, mais tarde, por diversas vias, se terem infiltrado nela, para, presumivelmente, contrariar e vencer as expansões cristã e templaria que se manifestaram, depois da Oração de Ramsay, na creação dos Altos Graus e sobretudo da Stricta Observancia de von Hund ou dos seus Superiores Incognitos. Acusam os idealistas sociais de, por meio de doutrinas egualitarias, para tal fim inventadas, pretenderem mergulhar, e de facto estarem mergulhando, a sociedade aristrocratica que é a de Europa na decadencia e na anarquia, para, evidentemente, sobre os escombros construirem o Reino e o Reinado de Israel. E acusam a Maçonaria de ter provocado a Revolução Francesa e os judeus de terem provocado a Revolução Russa.

     

    Antes de mais, entendamo-nos bem sobre qual é a matéria de que se está tratando. Trata-se do idealismo judaico e da sua sinceridade ou não sinceridade; não se trata da acção política dos judeus. Essa é evidente e natural; tem-se aproveitado, não so da Maçonaria e da ideologia egualitaria, mas de tudo quanto, de origem judaica ou não judaica, possa de facto, devidamente utilizado, servir para dissolver a civilisação tradicional, greco-romana e cristã, de Europa e do mundo europeizado. E legitimamente se tem aproveitado, pois aos judeus assistem os mesmos direitos que aos outros povos: o direito de defeza e o direito de império ― o primeiro em absoluto, o segundo se o concedemos aos outros. Nem foram os judeus, ou a Maçonaria, ou qualquer outra fôrça estranha, que provocou, ou poderia provocar, a Revolução Francesa, ou a Revolução Russa, ou qualquer outra verdadeira Revolução. As revoluções são provocadas pelo Poder tiranico que as torna, passado certo ponto, inevitáveis. Foi a tirania do Antigo Regimen que fez a Revolução Francesa. Foi a tirania do Czarismo que fez a Revolução Russa. As fôrças estranhas não fizeram mais que aproveitar-se, conforme puderam, da matéria social incoordenada em que as tiranias, depois das revoluções que provocaram, deixaram os povos que regiam.

     

    O problema das origens da Maçonaria, e sobretudo do Grau de Mestre, que é o seu fulcro, é confuso e obscuro ao ultimo ponto: ninguém, fóra ou dentro da Ordem, se póde orgulhar de ter achado para ele uma solução, simples ou composta, que satisfaça senão a quem a deu. Uma coisa, porém, se póde afirmar: a Maçonaria não é uma Ordem judaica, e o conteúdo dos graus fundamentais, que vulgarmente chamam símbolicos, não é judaico em espírito, mas só em figura. Se se quizer dar um nome de origem à Maçonaria, o mais que poderá dizer-se é que ela é, quanto à composição dos graus simbolicos, plausivelmente um produto do protestantismo liberal, e, quanto à redacção dêles, certamente um produto do século dezoito inglês, em toda a sua chateza e banalidade. O quadro judaico dos três graus e o cenário judaico do drama do Terceiro podem ser considerados naturais em uma terra e um tempo protestantes. O protestantismo foi, precisamente, a emergencia, a-dentro da religião cristã, dos elementos judaicos, em desproveito dos greco-romanos; porisso se servíu ele sempre abundantemente de citações, tipos e figuras extraídos do Velho Testamento. Ninguém crê, porém, ou diz que a Reforma, pense-se dela o que se pensar, fôsse um movimento judaico.

    Áparte isto, os dois primeiros graus maçonicos, menos simbolicos que emblematicos, não conduzem definitivamente a coisa nenhuma; e o grande mistério do Grau de Mestre — que é, por assim dizer, a Rosa de toda a Cruz maçonica — é um símbolo vital mas abstracto, que cada qual póde interpretar no sentido que entender. E assim de facto se tem interpretado ― a êle e à parte simbolica dos outros dois ― através do vasto esquêma divagativo dos Altos Graus e dos Graus Velados — estes, aliás, já fora e além da Maçonaria. Tudo, desde o catolicismo ao ateísmo, se tem reflectido nêsses graus interpretativos. Se ha Altos Graus que são nitida e materialmente cabalisticos, e até anti-cristãos, tambem os ha que são espirituais ou cristãos, desde o sobregrau do Sacro Rial Arco até àquele grau criptico em que Hiram é erquido como Cristo. Sucede, até, que o mesmo grau do mesmo rito póde ter conteúdos diferentes sob diferentes Obediencias: assim é que o Grau 18, propriamente Príncipe Rosa-Cruz, do Rito Escocês é «filosofico» na America (depois da revisão de Pike), menos talvês que «filosofico» na Maçonaria francêsa e suas congéneres, mas plenamente cristão (como aliás não poderia deixar de ser) sob as Magnas Obediencias britanicas. Em resumo, nada e tudo se tem refletido na Maçonaria: nada nos graus simbolicos, que de per si se não explicam; tudo nos Altos Graus e nos Graus Velados, onde cada fabricante de ritos, de católico a ateu, deixou o rastro dos seus preconceitos e das suas preocupações. Mais em resumo ainda: a Maçonaria é, nas suas bases, insuficientemente dogmatica e definida para que do seu conteúdo se possa afirmar isto ou aquilo, judaismo ou outra coisa qualquer.

    A presença de elementos cabalisticos nos graus simbolicos, tambem não prova a origem judaica da Maçonaria. Quando a Maçonaria emergiu e se constituiu declaradamente, em seus graus fundamentais, já de ha muito a Cabala tinha intérpretes não-judeus e por êsses fôra cristianizada, para o que, aliás, eminentemente se prestava. A presença de elementos cabalisticos na Maçonaria não prova, pois, uma origem judaica. De resto, êsses elementos cabalisticos resumem-se em dois ― o sentido simbolico do Templo de Salomão e a Palavra Perdida. O sentido simbolico do Primeito Templo, póde ser, na Maçonaria, de origem templaria, e portanto cristã, pois a Ordem do Templo era-o «do Templo de Salomão», e não se sabem ao certo os pormenores da iniciação secreta nessa Ordem. Quanto à Palavra Perdida do Grau de Mestre, se de facto relembra o Nome Perdido do cabalismo judaico, não é necessáriamente da mesma natureza. Sabe-se em que consiste a essencia do Nome Perdido dos cabalistas; não se sabe que espécie de Palavra é que o Mestre morreu para não revelar. A maior autoridade maçonica de hoje interpreta a Palavra Perdida de um modo nitidamente não-judaico: Verbum Christus est, diz.

     

    O que acaba de dizer-se da Maçonaria, com mais forte razão se pode dizer dos Rosicrúcios, que, misturados com ela na antecâmara da sua vida emblemática, bem pode ser que a houvessem fundado, ou contribuido para a sua fundação, como sistêma especulativo. A grande Fraternidade é cristã no seu nome, cristã nos seus dois Magnos Símbolos, cristã e católica (embora não-romana) nas suas dedicações. Os Rosicrúcios eram, é certo, cabalistas, como eram, em dois sentidos, alquimístas; mas eram cabalistas cristãos, como eram (sobretudo) alquimístas espirituais. Como vários outros, aproveitaram-se da Cabala e lhe deram um sentido e um complemento cristãos; porisso com mais razão se poderiam queixar os judeus de que os Irmãos se haviam servido da Cabala para fins anti-judaicos, do que os cristãos de que êles tinham introduzido a Cabala na substância do cristismo, onde, aliás, desde o Quarto Evangelho, já tôda a alma dela existia. Acresce, quanto á Rosea Cruz, que os grandes expositores dela, desde antes do seu aparecimento até nossos dias, teem sido declaradamente místicos cristãos, e, ainda, que o voto de castidade absoluta, a que (por motivos que nada teem com virtude) a Fraternidade obrigava o candidato, é a coisa menos judaica, embora «cabalística», que se póde conceber.

     

    Quanto ao idealismo social — isto é, aquêles princípios de radicalismo social que habitualmente se manifestam pelo lema «Liberdade, Igualdade, Fraternidade» do místico cristão Saint-Martin —, êle não é só judaico, nem, nas suas origens europeias, precisou do judaismo para nascer. O radicalismo social europeu nasceu, como doutrina, de remotas especulações gregas, transmitidas e reforçadas pelas especulações (tam frequêntemente anti-monárquicas) dos escolásticos; nasceu, como facto, da normal reacção humana contra as várias tiranías de Europa, auxiliada espiritualmente pelos princípios sociais cristãos, tais como os Evangelhos os revelam. As doutrinas do Cristo, se as não interpretarmos mística ou simbólicamente, são plenamente anarquistas. Assim, o radicalismo social só pode dizer-se judeu no sentido em que o cristianísmo é judeu.

    Existe, contudo, um radicalismo social puramente judaico e, coincidindo êle com o radicalismo social de origem europeia, é evidente que um ao outro se auxiliaram e auxiliam, se estimularam e estimulam. O radicalismo social judaico tem, porém, uma origem diferente da do radicalismo social de Europa.

    O idealismo social dos judeus é, cumulativamente, uma saüdade e um odio, ou, mais própriamente, um saüdosismo e uma defeza. A ância da pátria perdida assume necessáriamente a fórma da ância pela presumivel fórma original, patriarcal e simples, dessa mesma pátria; e o contraste, tanto entre a suposta liberdade dessa vida primitiva e a sujeição constante do povo judeu pelos povos cristãos, como entre o supôsto judaismo típico dessa vida e o supôsto cristianismo típico da presente, faz com que, de dois modos, o idealismo judaico assuma um carácter egualitário, e esse egualitarismo um carácter místico, pois procede de um sentimento e não de uma ideia. De aí a sua intensidade intima e o seu formidável poder emissor.

    O que mais claramente prova isto é que êsse egualitarismo místico se vê entre aquêles judeus que mais sofrem a opressão quotidiana, social ou política, da civilisação estranha em que existem. São porisso os judeus orientais, e maximamente os judeus russos, que albergam, nutrem e espalham o egualitarismo como doutrina. Fazem-no sobretudo, como é natural, onde encontram para isso ambiente, e êsse ambiente é fácil entre os povos meio selvagens como o russo, ou entre as camadas meio selvagens como são, pela barbárie da semi-ignorancia, os operários de todo o mundo. O comunismo de hoje ― que, como ideia, só os idiotas sabem o que é ― é o produto hibrido, e porisso esteril, do misticismo judaico e da estupidês europeia. Não esqueçamos: e da estupidês europeia.

     

    Dado que o idealismo social dos judeus se constitui em tôrno da saüdade anciosa daquela primitiva vida paradisiaca que nunca houve em parte alguma, êsse idealismo necessáriamente agrega outras ideias, umas meio-sociais, outras não-sociais, que se ajustam ao sonho de tal vida. De aí o naturismo, o culto da simplicidade, o fraternitarismo directo e generalisado.

    Tal é, tipicamente, a mentalidade do judeu socialmente místico, e sobretudo do judeu russo, que é, pelas razões já expostas, o representante maximo dessa espécie do misticismo de Israel.

     

    Nas composições de Eliezer Kamenezky tudo isso se revela e se expande ingenuamente. E, como tudo isso é sentido e sincero, essas composições, que não vivem, evidentemente, de uma intensa vida intelectual, nem do que nós europeus chamariamos uma intensa vida espiritual, ganham uma valia própria, que não é dificil sentir se nos desfizermos, ao lê-las, do que podemos chamar, sem nos insultarmos, os nossos preconceitos estéticos. Devemos reparar em que a sinceridade — e os poemas de Eliezer são infantilmente sinceros — tem uma poesia própria, independente da poesia que é própriamente poesia. Nisso, sim, devemos reparar sem Grecia, isto é, sem estética nem metafísica.

    Duas outras considerações, alheias à substância dos raciocínios formados no decurso dêste breve prefácio, nos completarão na disposição, se a tivermos, de sermos justos para com Eliezer, e portanto para com o entendimento emotivo dos seus versos.

    A primeira é que Eliezer não é português, nem se pode portanto esperar que maneje com qualquer intima destreza a que é uma das mais completas, subtis e opulentas línguas do mundo. A simplicidade do que tem a dizer-nos não exige, é certo, os contornos de Vieira ou as cambiantes do Orfeu. Mas, assim como a ideia e a emoção se refletem no vocabulario e no jôgo sintático, assim também êstes reagem sôbre a emoção ou ideia, e, se por qualquer razão são simples, as compelem, em certo grau, a ser simples também.

    A segunda é que toda a literatura judaica, do melhor ao peor, ― direi, até, toda a literatura semitica ― é essencialmente incoordenada e difusa. Não ha construção no conjunto nem precisão na frase. Nenhum judeu, grande poeta que fôsse, seria capaz de escrever uma composição que contivesse, explicito ou implicito, o profundo movimento logico — strofe, antistrofe, épodo — da ode grega. Nenhum judeu, grande poeta que fôsse, seria capaz de escrever, como Esquilo, «riso inumero das ondas do mar». E, é claro, nenhum judeu seria capaz de escrever êste prefácio.

    Fernando Pessoa.

  • PREFÁCIO

    ELIEZER KAMENESKY é judeu russo, vagamundo temporariamente parado, cultor teórico e prático do que chamam naturismo, e idealista e romântico como são todos os judeus, quando não são o contrário.

    A sua personalidade como vagamundo não interessa para o entendimento das suas composições: não se reflete nelas. Se Eliezer nunca tivesse saído de Lugansk, onde nasceu, essas composições poderiam nunca ter sido outras no sentido, embora, evidentemente, o houvessem de ser na linguagem, que não seria a portuguesa.

    Também o seu culto do naturismo, ainda que deliberadamente expresso em muitos passos do que escreve, não é ponto fundamental para a compreensão das suas prosas ou versos. Esse culto do natural é a forma ou expressão do seu misticismo de judeu, e o seu misticismo de judeu é um misticismo de judeu russo.

    Para o caso, pois, de apresentar estas composições a leitores portugueses, de sorte que estes demasiadamente as não estranhem, basta que consideremos que Eliezer é judeu, judeu russo, e judeu místico. Uma análise, de onde venha a explicação, terá pois que incidir sobre a mentalidade mítica do judeu em geral, e do judeu russo em particular.

     

    Os povos equilibram-se, na sua vida psíquica, pela coexistência automática de qualidades opostas. Se soubermos, de qualquer povo, que ele é brutalmente materialista, desde logo poderemos concluir que ele será brutalmente místico. Se soubermos, de qualquer nação, que há nela tipicamente um grande número de criminosos, poderemos asseverar, sem investigação, que haverá nela, tipicamente também, um grande número de santos. A vida oscila como um pêndulo, e a oscilação num sentido requere, para que a mesma vida não pare, uma igual oscilação no sentido inverso.

    Como, porém, na oscilação do pêndulo se mantém o ritmo do movimento, sucede que tanto as qualidades que estão num limite da oscilação, como as que estão no outro limite, participam da mesma oscilação essencial. Em outras palavras, e servindo-nos do exemplo que citámos: um povo violentamente material é, ao mesmo tempo, um povo violentamente místico; mas haverá um elemento — a violência — de comum ao seu materialismo e ao misticismo que se lhe contrapõe. Não pode existir um povo de brutais na vida e delicados no sentimento dela: seriam ritmos diferentes, que o equilíbrio da vida não consente.

    Onde quer que lancemos os olhos, na película ininterrupta da história, encontramos disto exemplos. A Idade Média, bárbara e ansiosa, era intensa e brutal na sua vida de matéria e sentidos, e era intensa e brutal na vida do seu misticismo maníaco. Não destoa da tese a subtileza delirante da especulação escolástica, pois a subtileza, embora o não pareça, é a violência do pensamento: a violência é o excesso da força, e, como a força do pensamento consiste na capacidade de distinção, a volência dele consistirá na tendência a distinguir de mais, e é isso que é a subtileza.

    A Inglaterra ministra-nos outro exemplo, e noutra ordem. O povo inglês foi sempre claramente ativo e prático; é contudo o povo que deu ao mundo a poesia lírica mais etérea e subtil. Mas o inglês, na mesma plena imersão prática, é incoordenado e inconstrutivo: vai pela realidade fora aos apalpões, ainda que aos apalpões seguros. Um Infante D. Henrique, ou um Bismarck, é produto impossível em Inglaterra. E, do mesmo modo, na mais alta poesia inglesa a inspiração sobreleva à construção. Continua a técnica de apalpões: nesse nível, porém, tocam nos astros. Onde, por desvio e exceção, a construção suba, como em Milton, desde logo a subtileza e a eteridade descem. O Ariel do pagão Shakespeare, não sendo mais que um elemental do Ar, é todavia mais angélico que os anjos do cristão Milton ― anjos da Cabala ou da Rósea Cruz, ou, pelo menos, da Rósea cruz como Fludd a entendeu.

     

    Esta existência necessária, nos povos, de elementos opostos, e por isso complementares e equilibrantes, manifesta-se, em geral, através de indivíduos diferentes. Quer dizer: não é no mesmo indivíduo que normalmente coincidem os dois elementos complementares; aparece um em certos indivíduos, outro em outros. O equilíbrio dá-se na raça ou no povo em conjunto, não nos indivíduos separadamente.

    Algumas vezes, é certo, essa dupla mentalidade da raça se reflete, ou parece refletir, no mesmo indivíduo. Tal foi, talvez, o caso de Shakespeare — burguês banal, dirigindo atiladamente o seu teatro, emprestando dinheiro a juros a seus conterrâneos, e, no mesmo tempo, escrevendo A tormenta, que, para tudo ter de etéreo e inspirado, é até simbólica e profética. Mas nem no caso de se citar Shakespeare quer dizer que a coexistência individual dos elementos opostos se dê somente em altos espíritos, nem o apontamos senão como a exceção, e para acentuar a regra. É na raça ou nação, repita-se, que o equilíbrio essencial se dá.

    Isto vem, primeiro, para o fim geral de se compreender que, se nos aparecer um indivíduo com característicos opostos aos que são vulgarmente distintivos da sua raça, não é lícito que duvidemos que ele pertença a essa raça, ou que seja sincero na presentação desses característicos: ele poderá ser tão-somente um depositário dos característicos complementares da raça a que pertence. Isto vem, depois, para o fim particular de se compreender que, sendo a raça judaica universalmente conhecida pela sua fechada e cautelosa materialidade, não havemos necessariamente de desconfiar de sinceridade de um judeu que se nos apresenta como um romântico e um idealista. E, para o caso das composições de Eliezer — porque é delas, afinal, que se trata —, este ponto da sinceridade é importante: sem ela, como veremos, elas nada seriam.

     

    O povo judeu é, essencialmente, e no sentido filosófico da palavra, um povo materialista. E, como é essencialmente um povo materialista, é materialista na sua materialidade e materialista na sua idealidade. Da sua materialidade não há que falar, pois todos falam dela e não é dela que aqui se trata. É acerca da sua idealidade que convém e cabe a explicação.

    A idealidade judaica manifesta-se de três formas diferentes, todas elas eivadas do materialismo central da raça, ritmo do pêndulo da vida que a anima. A primeira forma é o seu patriotismo tradicionalista; e o patriotismo tradicionalista, seja de que nação for, é o modo mais material do sentimento da pátria ou da raça. A segunda forma é a especulação cabalística, em que, embora se pretenda subtilizar, por interpretações de três ordens, o conteúdo do Pentateuco, e de mais que o Pentateuco, nunca se atinge uma vera abstração ou uma espiritualidade verdadeira: material, considerando o que pretende ser, é ainda o Nome Inefável, materiais os Sephiroth, os Arcanjos, os Anjos e as Esferas Celestes, através de quem vem até nós a Sua emanação. A terceira forma ― não mais recente, mas mais recentemente sensível ― é o idealismo social em todos os seus modos, desde o igualitarismo até ao naturismo; e essa é material por sua mesma natureza.

    São estas as três formas da idealidade judaica, e, embora todas manifestem o materialismo central da raça, não são materiais em seus intuitos; não há por isso que duvidar da sinceridade daqueles judeus em quem as vemos. Do tradicionalismo rácico, e certo, ninguém duvida ou duvidou; aliás, os antisemitas não têm nem tiveram senão vantagem em acentuá-lo. As outras duas formas têm sido diversamente consideradas pelos inimigos dos judeus: a primeira como sincera na origem mas não em certos modos do seu uso, a segunda como insincera; e como ambas elas servindo — uma por utilização, outra por invenção — para desintegrar e dissolver a civilização cristã, em a qual os judeus adversariamente vivem.

    Acusam os cabalistas, de cuja sinceridade original se não duvida, de, primeiro, através da Rósea Cruz, terem criado a Maçonaria, Ordem supostamente anticristã, e de, mais tarde, por diversas vias, se terem infiltrado nela, para, presumivelmente, contrariar e vencer as expansões cristã e templária que se manifestaram, depois da Oração de Ramsay, na criação dos Altos Graus e sobretudo da Stricta Observancia de von Hund ou dos seus Superiores Incógnitos. Acusam os idealistas sociais de, por meio de doutrinas igualitarias, para tal fim inventadas, pretenderem mergulhar, e de facto estarem mergulhando, a sociedade aristrocrática que é a de Europa na decadência e na anarquia, para, evidentemente, sobre os escombros construírem o Reino e o Reinado de Israel. E acusam a Maçonaria de ter provocado a Revolução Francesa e os judeus de terem provocado a Revolução Russa.

     

    Antes de mais, entendamo-nos bem sobre qual é a matéria de que se está tratando. Trata-se do idealismo judaico e da sua sinceridade ou não sinceridade; não se trata da ação política dos judeus. Essa é evidente e natural; tem-se aproveitado, não só da Maçonaria e da ideologia igualitária, mas de tudo quanto, de origem judaica ou não judaica, possa de facto, devidamente utilizado, servir para dissolver a civilização tradicional, greco-romana e cristã, de Europa e do mundo europeizado. E legitimamente se tem aproveitado, pois aos judeus assistem os mesmos direitos que aos outros povos: o direito de defesa e o direito de império ― o primeiro em absoluto, o segundo se o concedemos aos outros. Nem foram os judeus, ou a Maçonaria, ou qualquer outra força estranha, que provocou, ou poderia provocar, a Revolução Francesa, ou a Revolução Russa, ou qualquer outra verdadeira Revolução. As revoluções são provocadas pelo Poder tirânico que as torna, passado certo ponto, inevitáveis. Foi a tirania do Antigo Regímen que fez a Revolução Francesa. Foi a tirania do Czarismo que fez a Revolução Russa. As forças estranhas não fizeram mais que aproveitar-se, conforme puderam, da matéria social incoordenada em que as tiranias, depois das revoluções que provocaram, deixaram os povos que regiam.

     

    O problema das origens da Maçonaria, e sobretudo do Grau de Mestre, que é o seu fulcro, é confuso e obscuro ao último ponto: ninguém, fora ou dentro da Ordem, se pode orgulhar de ter achado para ele uma solução, simples ou composta, que satisfaça senão a quem a deu. Uma coisa, porém, se pode afirmar: a Maçonaria não é uma Ordem judaica, e o conteúdo dos graus fundamentais, que vulgarmente chamam simbólicos, não é judaico em espírito, mas só em figura. Se se quiser dar um nome de origem à Maçonaria, o mais que poderá dizer-se é que ela é, quanto à composição dos graus simbólicos, plausivelmente um produto do protestantismo liberal, e, quanto à redação deles, certamente um produto do século dezoito inglês, em toda a sua chateza e banalidade. O quadro judaico dos três graus e o cenário judaico do drama do Terceiro podem ser considerados naturais em uma terra e um tempo protestantes. O protestantismo foi, precisamente, a emergência, adentro da religião cristã, dos elementos judaicos, em desproveito dos greco-romanos; por isso se serviu ele sempre abundantemente de citações, tipos e figuras extraídos do Velho Testamento. Ninguém crê, porém, ou diz que a Reforma, pense-se dela o que se pensar, fosse um movimento judaico.

    À parte isto, os dois primeiros graus maçónicos, menos simbólicos que emblemáticos, não conduzem definitivamente a coisa nenhuma; e o grande mistério do Grau de Mestre — que é, por assim dizer, a Rosa de toda a Cruz maçónica — é um símbolo vital mas abstrato, que cada qual pode interpretar no sentido que entender. E assim de facto se tem interpretado ― a ele e à parte simbólica dos outros dois ― através do vasto esquema divagativo dos Altos Graus e dos Graus Velados — estes, aliás, já fora e além da Maçonaria. Tudo, desde o catolicismo ao ateísmo, se tem refletido nesses graus interpretativos. Se há Altos Graus que são nítida e materialmente cabalísticos, e até anticristãos, tambem os há que são espirituais ou cristãos, desde o sobregrau do Sacro Rial Arco até àquele grau críptico em que Hiram é erquido como Cristo. Sucede, até, que o mesmo grau do mesmo rito pode ter conteúdos diferentes sob diferentes Obediências: assim é que o Grau 18, propriamente Príncipe Rosa-Cruz, do Rito Escocês é «filosófico» na América (depois da revisão de Pike), menos talvez que «filosófico» na Maçonaria francesa e suas congéneres, mas plenamente cristão (como aliás não poderia deixar de ser) sob as Magnas Obediências britânicas. Em resumo, nada e tudo se tem refletido na Maçonaria: nada nos graus simbólicos, que de per si se não explicam; tudo nos Altos Graus e nos Graus Velados, onde cada fabricante de ritos, de católico a ateu, deixou o rasto dos seus preconceitos e das suas preocupações. Mais em resumo ainda: a Maçonaria é, nas suas bases, insuficientemente dogmática e definida para que do seu conteúdo se possa afirmar isto ou aquilo, judaísmo ou outra coisa qualquer.

    A presença de elementos cabalísticos nos graus simbólicos, também não prova a origem judaica da Maçonaria. Quando a Maçonaria emergiu e se constituiu declaradamente, em seus graus fundamentais, já de há muito a Cabala tinha intérpretes não-judeus e por esses fora cristianizada, para o que, aliás, eminentemente se prestava. A presença de elementos cabalísticos na Maçonaria não prova, pois, uma origem judaica. De resto, esses elementos cabalísticos resumem-se em dois ― o sentido simbólico do Templo de Salomão e a Palavra Perdida. O sentido simbólico do Primeito Templo, pode ser, na Maçonaria, de origem templária, e portanto cristã, pois a Ordem do Templo era-o «do Templo de Salomão», e não se sabem ao certo os pormenores da iniciação secreta nessa Ordem. Quanto à Palavra Perdida do Grau de Mestre, se de facto relembra o Nome Perdido do cabalismo judaico, não é necessariamente da mesma natureza. Sabe-se em que consiste a essência do Nome Perdido dos cabalistas; não se sabe que espécie de Palavra é que o Mestre morreu para não revelar. A maior autoridade maçónica de hoje interpreta a Palavra Perdida de um modo nitidamente não-judaico: Verbum Christus est, diz.

     

    O que acaba de dizer-se da Maçonaria, com mais forte razão se pode dizer dos Rosicrúcios, que, misturados com ela na antecâmara da sua vida emblemática, bem pode ser que a houvessem fundado, ou contribuído para a sua fundação, como sistema especulativo. A grande Fraternidade é cristã no seu nome, cristã nos seus dois Magnos Símbolos, cristã e católica (embora não-romana) nas suas dedicações. Os Rosicrúcios eram, é certo, cabalistas, como eram, em dois sentidos, alquimistas; mas eram cabalistas cristãos, como eram (sobretudo) alquimistas espirituais. Como vários outros, aproveitaram-se da Cabala e lhe deram um sentido e um complemento cristãos; por isso com mais razão se poderiam queixar os judeus de que os Irmãos se haviam servido da Cabala para fins antijudaicos, do que os cristãos de que eles tinham introduzido a Cabala na substância do cristismo, onde, aliás, desde o Quarto Evangelho, já toda a alma dela existia. Acresce, quanto à Rósea Cruz, que os grandes expositores dela, desde antes do seu aparecimento até nossos dias, têm sido declaradamente místicos cristãos, e, ainda, que o voto de castidade absoluta, a que (por motivos que nada têm com virtude) a Fraternidade obrigava o candidato, é a coisa menos judaica, embora «cabalística», que se pode conceber.

     

    Quanto ao idealismo social — isto é, aqueles princípios de radicalismo social que habitualmente se manifestam pelo lema «Liberdade, Igualdade, Fraternidade» do místico cristão Saint-Martin —, ele não é só judaico, nem, nas suas origens europeias, precisou do judaísmo para nascer. O radicalismo social europeu nasceu, como doutrina, de remotas especulações gregas, transmitidas e reforçadas pelas especulações (tão frequentemente antimonárquicas) dos escolásticos; nasceu, como facto, da normal reação humana contra as várias tiranias de Europa, auxiliada espiritualmente pelos princípios sociais cristãos, tais como os Evangelhos os revelam. As doutrinas do Cristo, se as não interpretarmos mística ou simbolicamente, são plenamente anarquistas. Assim, o radicalismo social só pode dizer-se judeu no sentido em que o cristianismo é judeu.

    Existe, contudo, um radicalismo social puramente judaico e, coincidindo ele com o radicalismo social de origem europeia, é evidente que um ao outro se auxiliaram e auxiliam, se estimularam e estimulam. O radicalismo social judaico tem, porém, uma origem diferente da do radicalismo social de Europa.

    O idealismo social dos judeus é, cumulativamente, uma saudade e um ódio, ou, mais propriamente, um saudosismo e uma defesa. A ânsia da pátria perdida assume necessariamente a forma da ânsia pela presumível forma original, patriarcal e simples, dessa mesma pátria; e o contraste, tanto entre a suposta liberdade dessa vida primitiva e a sujeição constante do povo judeu pelos povos cristãos, como entre o suposto judaísmo típico dessa vida e o suposto cristianismo típico da presente, faz com que, de dois modos, o idealismo judaico assuma um carácter igualitário, e esse igualitarismo um carácter místico, pois procede de um sentimento e não de uma ideia. Daí a sua intensidade íntima e o seu formidável poder emissor.

    O que mais claramente prova isto é que esse igualitarismo místico se vê entre aqueles judeus que mais sofrem a opressão quotidiana, social ou política, da civilização estranha em que existem. São por isso os judeus orientais, e maximamente os judeus russos, que albergam, nutrem e espalham o igualitarismo como doutrina. Fazem-no sobretudo, como é natural, onde encontram para isso ambiente, e esse ambiente é fácil entre os povos meio selvagens como o russo, ou entre as camadas meio selvagens como são, pela barbárie da semi-ignorância, os operários de todo o mundo. O comunismo de hoje ― que, como ideia, só os idiotas sabem o que é ― é o produto híbrido, e por isso estéril, do misticismo judaico e da estupidez europeia. Não esqueçamos: e da estupidez europeia.

     

    Dado que o idealismo social dos judeus se constitui em torno da saudade ansiosa daquela primitiva vida paradisíaca que nunca houve em parte alguma, esse idealismo necessariamente agrega outras ideias, umas meio-sociais, outras não-sociais, que se ajustam ao sonho de tal vida. Daí o naturismo, o culto da simplicidade, o fraternitarismo direto e generalizado.

    Tal é, tipicamente, a mentalidade do judeu socialmente místico, e sobretudo do judeu russo, que é, pelas razões já expostas, o representante máximo dessa espécie do misticismo de Israel.

     

    Nas composições de Eliezer Kamenezky tudo isso se revela e se expande ingenuamente. E, como tudo isso é sentido e sincero, essas composições, que não vivem, evidentemente, de uma intensa vida intelectual, nem do que nós europeus chamaríamos uma intensa vida espiritual, ganham uma valia própria, que não é difícil sentir se nos desfizermos, ao lê-las, do que podemos chamar, sem nos insultarmos, os nossos preconceitos estéticos. Devemos reparar em que a sinceridade — e os poemas de Eliezer são infantilmente sinceros — tem uma poesia própria, independente da poesia que é propriamente poesia. Nisso, sim, devemos reparar sem Grécia, isto é, sem estética nem metafísica.

    Duas outras considerações, alheias à substância dos raciocínios formados no decurso deste breve prefácio, nos completarão na disposição, se a tivermos, de sermos justos para com Eliezer, e portanto para com o entendimento emotivo dos seus versos.

    A primeira é que Eliezer não é português, nem se pode portanto esperar que maneje com qualquer íntima destreza a que é uma das mais completas, subtis e opulentas línguas do mundo. A simplicidade do que tem a dizer-nos não exige, é certo, os contornos de Vieira ou as cambiantes do Orfeu. Mas, assim como a ideia e a emoção se refletem no vocabulário e no jogo sintático, assim também estes reagem sobre a emoção ou ideia, e, se por qualquer razão são simples, as compelem, em certo grau, a ser simples também.

    A segunda é que toda a literatura judaica, do melhor ao pior ― direi, até, toda a literatura semítica ―, é essencialmente incoordenada e difusa. Não há construção no conjunto nem precisão na frase. Nenhum judeu, grande poeta que fosse, seria capaz de escrever uma composição que contivesse, explícito ou implícito, o profundo movimento lógico — estrofe, antístrofe, épodo — da ode grega. Nenhum judeu, grande poeta que fosse, seria capaz de escrever, como Ésquilo, «riso inúmero das ondas do mar». E, é claro, nenhum judeu seria capaz de escrever este prefácio.

    Fernando Pessoa.

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