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Athena

Fernando Pessoa

Athena 1, Outubro de 1924, pp. 5-8.

ATHENA

Tem duas fórmas, ou modos, o que chamamos cultura. Não é a cultura senão o aperfeiçoamento subjectivo da vida. Esse aperfeiçoamento é directo ou indirecto; ao primeiro se chama arte, sciencia ao segundo. Pela arte nos aperfeiçoamos a nós; pela sciencia aperfeiçoamos em nós o nosso conceito, ou illusão, do mundo.

Como, porém, o nosso conceito do mundo comprehende o que fazemos de nós mesmos, e, por outra parte, no conceito, que de nós formamos, se contém o que formamos das sensações, pelas quaes o mundo nos é dado; succede que em seus fundamentos subjectivos, e portanto na sua maior perfeição em nós – que não é senão a sua maior conformidade com esses mesmos fundamentos –, a arte se mixtura com a sciencia, a sciencia se confunde com a arte.

Com tal assiduidade e estudo se empregam os summos artistas no conhecimento das materias, de que hão de servir-se, que antes parecem sabios do que imaginam, que apprendizes da sua imaginação. Nem escasseiam, assim nas obras como nos dizeres dos grandes sabedores, lucilações logicas do sublime; em a licção d’elles se inventou o dicto, o bello é o esplendor do vero, que a tradição, exemplarmente erronea, attribuiu a Platão. E na acção mais perfeita que nos figuramos – a dos que chamamos deuses – aúnamos por instincto as duas fórmas da cultura: figuramol-os creando como artistas, sabendo como sabios, porém em um só acto; pois o que criam, o criam inteiramente, como verdade, que não como creação; e o que sabem, o sabem inteiramente, porque o não descobriram mas crearam.

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Se é lícito que acceitemos que a alma se divide em duas partes – uma como material, a outra puro espirito –, diremos, de qualquer conjuncto ou homem hoje civilizado, que deve a primeira á nação deAcrescimo manuscrito a tinta preta por Pessoa no seu exemplar da revista. que é ou em que nasceu, a segunda á Grecia antiga. Exceptas as forças cegas da Natureza, disse Sumner Maine, tudo, quanto neste mundo se move, é grego em sua origem.

Estes gregos, que ainda nos governam de além dos proprios tumulos desfeitos, figuraram em dois deuses a producção da arte, cujas fórmas todas lhes devemos e de que só não crearam a necessidade e a imperfeição. Figuraram em o deus Apollo a liga instinctiva da sensibilidade com o entendimento, em cuja acção a arte tem origem como belleza. Figuraram em a deusa Athena a união da arte e da sciencia, em cujo effeito a arte (como tambem a sciencia) tem origem como perfeição. Sob o influxo do deus nasce o poeta, entendendo nós por poesia, como outros, o principio animador de todas as artes; com o auxilio da deusa se fórma o artista.

Com esta ordem de symbolos – e assim nesta materia como em outras – ensinaram os gregos que tudo é de origem divina, isto é, extranho ao nosso entendimento, e alheio á nossa vontade. Somos só o que nos fizeram ser, e dormimos com sonhos, servos orgulhosos nelles da liberdade que nem nelles temos. Porisso o nascitur, que se diz do poeta, se applica tambem a metade do artista. Não se apprende a ser artista; apprende-se porém a saber sel-o. Em certo modo, comtudo, quanto maior o artista nato, maior a sua capacidade para ser mais que o artista nato. Cada um tem o Apollo que busca, e terá a Athena que buscar. Tanto o que temos, porém, como o que teremos, já nos está dado, porque tudo é lógico. Deus geometriza, disse Platão.

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Da sensibilidade, da personalidade distincta que ella determina, nasce a arte per o que se chama a inspiração – o segredo que ninguem fallou, a sesame dicta por acaso, o eco em nós do encantamento distante.

A só sensibilidade, porém, não gera a arte; é tãosómente a sua condição, como o desejo o é do proposito. Ha mistér que ao que a sensibilidade ministra se ajuncte o que o entendimento lhe nega. Assim se estabelece um equilibrio; e o equilibrio é o fundamento da vida. A arte é a expressão de um equilíbrio entre a subjectividade da emoção e a objectividade do entendimento, que, como emoção e entendimento, e como subjectiva e objectivo, se entreoppõem, e porisso, conjugando-se, se equilibram.

Tem a arte, para nascer, que ser de um individuo; para não morrer, que ser como extranha a elle. Deve nascer no individuo per, que não em, o que elle tem de individual. No artista nato a sensibilidade, subjectiva e pessoal, é, ao sel-o, objectiva e impessoal tambem. Poronde se vê que em tal sensibilidade se contém já, como instincto, o entendimento; que ha portanto fusão, que não só conjugação, d’aquelles dois elementos do espirito.

A sensibilidade conduz normalmente á acção, o entendimento á contemplação. A arte, em que estes dois elementos se fundem, é uma contemplação activa, uma acção parada. É esta fusão, composta em sua origem, simples em seu resultado, que os gregos figuraram em Apollo, cuja acção é a melodia. Não tem porém valia como arte essa dupla unidade senão com seus elementos não só unidos mas equivalentes.

Pobre de sensibilidade e de pessoa, a arte é uma mathematica sem verdade. Por muito que um homem apprenda, nunca apprende a ser quem não é; se não fôr artista, não será artista, e da arte que finge se dirá o que Scaliger disse da de Erasmo: ex alieno ingenio poeta, ex suo versificator – poeta pelo ingenho alheio, versificador pelo proprio.

Pobre de entendimento, porém, e da objectividade que ha nelle, no genio sobresahe a loucura, em que se funda; no talento a extranheza, em que se fundamenta; no ingenho a singularidade, em que tem origem. O individuo mata a individualidade.

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Na arte buscamos para nós um aperfeiçoamento directo; podemos buscal-o temporario, ou constante, ou permanente. Nossa indole, e as circumstancias, determinarão a especie, que é tambem o grau, de nossa escolha.

Aperfeiçoamento temporario, não o ha senão o do esquecimento; porque, como forçosamente o que temos de mau está em nós, o aperfeiçoarmo-nos temporariamente, isto é, sem aperfeiçoamento, não pode ser mais que o esquecermo-nos de nós, e da imperfeição que somos. Ministram por natureza este esquecimento as artes inferiores – a dança, o canto, a representação –, cujo fim especial é o de distrahir e de entreter, e que, se excedem esse fim, tambem a si mesmas se excedem.

Aperfeiçoamento constante quer dizer, não o aperfeiçoamento, senão a presença constante de estimulos para elle. Não ha estimulos, porém, senão exteriores; serão tanto mais fortes, quanto mais exteriores; serão tanto mais exteriores, quanto mais physicos e concretos. Ministram por natureza este estimulo constante as artes superiores concretas – a pintura, a esculptura, a architectura –, cujo fim especial é o de adornar e de embellezar. Constantes como aperfeiçoamento, são porém permanentes como estimulos d’elle; de ahi o serem superiores. Podem ellas, comtudo, admittir, como todo concreto, uma animação do abstracto; na proporção em que, sem desertarem de seu fito, o fizerem, a si mesmas se excederão.

O aperfeiçoamento permanente não pode dar-se senão per aquillo que no homem é já mais permanente e mais aperfeiçoado. Operando e animando nesse elemento do espirito se fará o homem viver cada vez mais nelle, se o fará viver uma vida cada vez mais perfeita. É a abstracção o ultimo effeito da evolução do cerebro, a ultima revelação que em nós o destino fez de si mesmo. É ainda a abstracção substancialmente permanente; nella, e na operação d’ella a que chamamos razão, não vive o homem servo de si, como na sensibilidade, nem pensa superficial do ambiente, como com o entendimento: vive e pensa sub specie aeternitatis, desprendido e profundo. Nella, pois, e per ella, se deve effectuar o aperfeiçoamento permanente do homem. As artes que por natureza ministram tal aperfeiçoamento são as artes superiores abstractas – a musica e a litteratura, e ainda a philosophia, que abusivamente se colloca entre as sciencias, como se ella fôra mais que o exercicio do espirito em se figurar mundos impossiveis.

Assim, porém, como qualquer das artes superiores pode descer ao nivel da infima, quando se dê o fito que naturalmente convém áquella, assim tambem as inferiores e as concretas podem, em certo modo, alçar-se ao da suprema. Assim é que toda arte, seja qual fôr seu lugar natural, deve tender para a abstracção das artes maiores.

Trez são os elementos abstractos que pode haver em qualquer arte, e que podem portanto nella sobresahir: a ordenação logica do todo em suas partes, o conhecimento objectivo da materia que ella informa, e a excedencia nella de um pensamento abstracto. Em qualquer arte é dado, em maior ou menor grau, manifestarem-se estes elementos, ainda que só nas artes abstractas, e sobretudo na litteratura, que é a mais completa, possam manifestar-se inteiramente.

A mesma abstracção é tambem o estádio supremo da sciencia. Tende esta para ser mathematica, isto é, abstracta, á medida que se eleva e se aperfeiçôa. É pois no nivel da abstracção que a arte e a sciencia, ambas se alçando, se conjugam, como dois caminhos no pincaro para que ambos tendam. É este o império de Athena, cuja acção é a harmonia.

Como, porém, toda sciencia, se tende para a mathematica, tende, com isso, para uma abstracção concreta, applicavel á realidade e verificavel em seus movimentos physicos; assim toda arte, por mais que se eleve, não pode desprender-se do entendimento e da sensibilidade, em cuja fusão se creou e teve origem. Onde não houver harmonia, equilibrio de elementos oppostos, não haverá sciencia nem arte, porque nem haverá vida. Representa Apollo o equilibrio do subjectivo e do objectivo; figura Athena a harmonia do concreto e do abstracto. A arte suprema é o resultado da harmonia entre a particularidade da emoção e do entendimento, que são do homem e do tempo, e a universalidade da razão, que, para ser de todos os homens e tempos, é de homem, e de tempo, nenhum. O producto assim formado terá vida, como concreto; organização, como abstracto. Isto estabeleceu Aristoteles, uma vez para sempre, naquella sua phrase que é toda a esthetica: um poema, disse, é um animal.

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Existe ainda o preconceito, nascido ou de se attender só ás fórmas inferiores da arte, ou de se attender inferiormente a qualquer d’ellas, de que a arte deve dar prazer ou alegria. Ninguem cuide, esquecendo os grandes fins d’ella, que a arte suprema deve dar-lhe alegria, ou, ainda quando o satisfaça, satisfacção. Se a arte ínfima tem por dever o entreter, se a média tem por mister o embellezar, elevar é o fim da suprema. Porisso toda arte superior é ao contrario das outras duas, profundamente triste. Elevar é deshumanizar, e o homem se não sente feliz onde se não sente já homem. É certo que a grande arte é humana; o homem, porém, é mais humano que ella.

Ainda per outra via a grande arte nos entristece. Constantemente ella nos aponta a nossa imperfeição: já porque, parecendo-nos perfeita, se oppõe ao que somos de imperfeitos; já porque, nem ella sendo perfeita, é o signal maior da imperfeição que somos.

É poristo que os gregos, paes humanos da arte, eram um povo infantil e triste. E a arte não é porventura mais, em sua forma suprema, que a infancia triste de um deus futuro, a desolação humana da immortalidade pressentida.

FERNANDO PESSOA

  • Nomes

    • Aristoteles
    • Erasmo de Roterdão
    • Henry Sumner Maine
    • Joseph Justus Scaliger
    • Platão