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“Portugal, Vasto Império”

Fernando Pessoa

Jornal do Commercio e das Colonias , 28 de maio e 5 de junho de 1926, p. 1 e 1.

  • “Portugal, Vasto Imperio”
    Um inquerito nacional

    Depoimento do escriptor Fernando Pessoa

    Primeira pregunta formulada no meu questionário:

    I — Sim ou não Portugal, potencia da primeira grandeza na Renascença, guarda em si a vitalidade necessaria para manter no futuro, na nova Renascença que ha de seguir-se à Edade Média que atravessamos, o logar de uma grande potencia?

    Resposta do sr. Fernando Pessoa:

    (1) Cumpre, antes de mais nada, definir a expressão «grande potencia». Por «grande potencia» se deve entender, evidentemente, uma nação que influe notavelmente na vida ou nos destinos da civilisação. Podemos, porém, distinguir trez maneiras de assim influir notavelmente. Distinguiremos, portanto, trez especies de «grande potencia».

    Influir é transformar. Ha trez maneiras de transformar: transformar para menos, ou desagregar; transformar para mais, ou desenvolver; transformar para outro, ou construir. Força é, pois, que as grandes potencias se manifestem taes, ou pela desagregação que produzem; ou pelo desenvolvimento que promovem; ou pela construcção que estabelecem ou novidade que originam.

    Duas forças

    Duas são as forças da desagregação — a decadencia e a violencia externa. A decadencia é intransmissivel: póde ser estimulada, porém não imposta; são portanto seus estimulos, que não ella mesma, que comportam transmissão. A violencia externa, pelo contrario, é imposição por natureza. Uma grande potencia de desagregação significa portanto uma grande potencia de violencia, ou seja uma grande potencia guerreira. É este o sentido em que ordinariamente se toma a expressão «grande potencia»: é que a violencia, como é a força visivel, representa para o commum dos homens o modo unico da força.

    Duas são tambem as forças de desenvolvimento — o estimulo physico, ou material; e o estimulo intellectual ou moral. Na vida das sociedades, o primeiro é dado pelo commercio, o segundo pela cultura. Com efeito, o desenvolvimento dos povos se efectua, no que material, pela multiplicação de contactos economicos; no que mental, pela multiplicação de contactos culturaes. E o commercio e a cultura andam commumente a par: é que a multiplicação de relações de uma especie facilita inevitavelmente a multiplicação de relações da outra especie. Ha, pois, duas especies de «grandes potencias» expansivas da vida alheia: as potencias primordialmente economicas, como a Allemanha e os Estados Unidos; e as potencias culturaes, como antigamente a Italia, e subsequentemente a França.

    Transformação

    Qualquer transformação póde ser definida como sendo «para outro», porém a transformação constructiva merece esse nome distinctivamente. Na transformação para mais ou para menos a coisa transformada mantém os seus caracteristicos essenciaes; a transformação é quantitativa. Na transformação para outro a mudança é qualitativa. Que caracteristicos adquire, porém, a coisa transformada, ao ser transformada «para outro»? Os do elemento transformador, pois outros não ha que possivelmente adquira. Segue, pois, que a transformação constructiva implica uma conversão da substancia da coisa transformada na substancia da coisa transformadora. Á nação, que exerce esta especie de influencia, que é uma «grande potencia» n’esta funcção, chama-se com justeza, não grande potencia, senão Imperio. Até hoje, a dentro da civilisação que vivemos, tem havido quatro imperios — o grego, o romano, o christão, e o inglez (que não o britannico, que é imperio em outro, e mais baixo, sentido). Com sua prodigiosa visão, historica como prophetica, distingue sempre Nostradamo entre o que chama simplesmente empire (que é qualquer dos grandes dominios fugazes com que se orna a historia) e grand empire, que é o Imperio no sentido em que aqui usamos do termo.

    Sem duvida que as trez fórmas de ser grande potencia se não excluem entre si; antes a duas, e a mais que duas, as pode reunir uma só nação.

    Condições de Portugal

    Postos estes principios, pergunta-se: para que fórma de grande potencia tem Portugal condições, se as tem para alguma?

    Portugal, grande potencia guerreira, ou desagregadora, é invisionavel, o que não quer dizer que seja impossivel, pois não podemos prever que allianças ou combinações poderão surgir do abysmo do futuro. A pergunta, porém, refere-se as condições que Portugal tem, que não aquellas que poderá um dia vir a ter; e por «condições que tem» se entendem aquellas que ou estão hoje claramente latentes n’elle, ou em qualquer fórma ou esboço n’elle se revelaram no passado. Ora, pondo, de parte, por irrisorio n’este respeito, o que somos hoje, o facto é que nunca tivemos condições ou propensão para a fórma guerreira de grande potencia. Nem para tal nos dispunha nossa situação terrestre de nação pequena e excentrica em continente e peninsula; nem, em prova d’isso, nos empenhámos nunca com vantagem em guerras puramente agressivas, excepto as que procederam inevitavelmente do nosso mistér organico de descobridores. E estas viveram na atmosphera triumphal do phenomeno que lhes deu origem.

    Portugal, grande potencia economica, é talvez ainda mais invisionavel que Portugal grande potencia guerreira. Uma potencia guerreira fórma-se e desenvolve se com mais facilidade e rapidez que uma potencia economica, pois procede de instinctos e forças mais primitivos do que esta. E se de potencia guerreira não temos tradição senão, por assim dizer corollaria, de potencia economica não temos tradição nenhuma, ou a temos negativa. Ainda, pois, que uma expansão ou federação futura nos convertesse em grande nação — sem o que se não pode ser uma grande potencia economica —, nossa acção n’esse campo seria sempre limitada pela de nucleos não só quantitativamente superiores ao nosso, mas ainda preparados tradicionalmente para o exercicio d’essa especie de influencia.

    Potencia cultural

    Portugal, grande potencia cultural, é uma hypothese já de outro genero. O exercicio da grande influencia guerreira ou economica implica a existencia de uma nação grande, unida, disciplinada: o da grande influencia cultural dispensa estes caracteristicos. Exerceu-a a Italia quando nem sequer era nação, se não uma justaposição de pequenos estados em conflicto perpetuo uns com os outros, e cada um em quasi constante desordem interna. Nem a nossa condição actual é, pois, obstaculo n’este respeito; é o, porém, a nossa carencia quasi absoluta de tradição cultural, propriamente dita. Quantitativamente, nunca a tivemos; qualitativamente, pouco. No fim da chamada Edade Media, e no principio da Renascença esboçámos, é certo, um acentuado movimento cultural, que abrange os Cancioneiros, os Romances de Cavalaria, e um ou outro phenomeno como a especulação de Francisco Sanches, aliás formado em outro ambiente; mas em breve o vinco, muito mais typicamente nacional, das Descobertas arrastava para si toda a vitalidade portugueza, e o Catholicismo, então em período de reacção, se encarregou de annular aquella liberdade de especulação sem a qual a cultura é impossivel. Ficámos no estado vil de intelligencia, servil e mimetico, em que desde esse tempo temos vegetado. Se, porém, a necessidade cultural fosse, por qualquer razão, em nós organica, teria havido d’ella signaes, sobretudo desde que entrámos, com o mimetismo já citado, em regimen liberal e depois em Republica. Mas o que tem havido é menos que pouco; a nossa indisposição cultural permanece evidente.

    Potencia constructiva

    Portugal, grande potencia constructiva, Portugal Imperio — aqui, sim, é que, atravez de grandeza e de decadencia, se revela o nosso instincto, e se mantém a nossa tradição. Somos, por indole, uma nação creadora e imperial. Com as Descobertas, e o estabelecimento do Imperialismo Ultramarino, creamos o mundo moderno — creação absoluta, tanto quanto socialmente isso é possivel, que não simples elaboração ou renovação de creações alheias. Nas mais negras horas da nossa decadencia, proseguiu, sobretudo no Brasil, a nossa acção imperial, pela colonização; e foi n’estas mesmas horas que em nós nasceu o sonho sebastianista, em que a idéa do Imperio Portuguez attinge o estado religioso.

    Portugal tem pois condições organicas para ser uma grande potencia constructiva ou creadora, um Imperio. Uma coisa, porém, é dizer-se que Portugal tem condições para sel-o; outra é predizer que o será. A pergunta não exige esta segunda demonstração, que, aliás, por extensa não poderia ser aqui dada. Nem há mister que se diga, tambem, em que consistirá presumivelmente essa creação portugueza, qual será o sentido e o contheúdo d’esse Quinto Imperio. Fôra preciso um livro inteiro para o dizer, nem chegou ainda a hora de dizer-se.

    Devo dizer ao sr. Fernando Pessoa que a minha primeira interrogação não postulava de qualquer fórma a existencia futura de Portugal como potencia dominante entre as que hoje são consideradas «Grandes potencias.» Os nossos desejos são mais limitados, porque o nosso espirito é mais realista do que possa, á primeira vista, parecer. Como grande potencia guerreira (aceitando a classificação de grandes potencias esboçada por Fernando Pessoa) não ambicionamos para Portugal mais do que as forças materiaes e moraes necessarias para garantirmos as fronteiras contra todos os ataques possíveis, quer venham de visinhos, quer venham de mais longe; e não ambicionamos mais do que a marinha necessaria para a defeza das estradas que nos ligam ás provincias ultramarinas, para a guarda do commercio n’essas estradas, e para a defeza d’essas provincias — que mais adeante Fernando Pessoa considera- dispensaveis... O mundo, sob o ponto de vista territorial, está já conquistado; as nossas fronteiras geographicas estão já nitidamente vincadas: não precisamos, pois, como grande potencia guerreira, mais do que o exercito e a marinha necessarios para a defeza do nosso patrimonio actual, do statu quo.

    Observação identica devo fazer no tocante a «Portugal, grande potencia economica.» Não pretendemos fazer de Portugal um grande emporio commercial á maneira da Inglaterra ou da America, nem, como estes dois paizes, fazer d’um ambicioso imperialismo economico a razão de ser da nossa existencia. A America, como tal, é o que é, porque se encontra n’um estado de creação social, n’um estado de elaboração proprio d’um paiz recem sahido do colonato, e onde os homens encontram na vastidão dos territorios um largo campo d’acção para a livre expansão da sua actividade de povo novo. A Inglaterra, como tal, é o que é, mercê das circumstancias que a collocaram n’uma ilha no meio do oceano, em terrenos d’onde a agricultura foi quasi expulsa pela industria. A Inglaterra, não produzindo o necessario para se alimentar, encontra no imperialismo economico, ao mesmo tempo, uma fonte de recursos alimentares e o principal objetivo da sua actividade. Ora, se Portugal se não encontra nem nas circunstancias da America, nem nas da Inglaterra, torna-se evidente que não podemos aspirar a uma situação de predominio economico do mundo identica á situação d’esses dois paizes. De resto, e entre parentesis, o Destino fez de nós uma nação, um povo de apostolos e colonisadores, e nunca um povo de mercantes. O que nós pretendemos, sob o ponto de vista economico, é que Portugal saiba explorar as riquezas que pejam os seus territorios riquissimos, na metropole como nas provincias ultramarinas. Não aspiramos a sobrepujar o visinho, nem a dominar o mundo: bastará que nos saibamos valorisar economicamente, sob o triplice ponto de vista agricola, industrial e commercial (refiro-me especialmente á marinha mercante) para que não tenhamos, como hoje, para nosso mal, acontece, que estar na dependencia alheia, quando temos á mão, nosso, tudo ou quasi tudo aquillo de que necessitamos.

    Mas Fernando Pessoa, que não admitte a hypothese de Portugal, grande potencia guerreira, nem a de Portugal, grande potencia economica, admitte, comtudo, a de Portugal grande potencia cultural. Tambem nós a admittimos. Simplesmente, divergimos quando Fernando Pessoa afirma que a nossa condição actual não é obstaculo n’este respeito. Se a Italia exerceu uma grande influencia cultural «quando nem sequer era nação, senão uma justaposição de pequenos estados, em conflicto perpetuo uns com os outros, e cada um em quasi constante desordem interna», era porque a Italia tinha uma longa tradição intellectual, moral e artistica, uma velha tradição cultural tão forte que podia sobreviver e sobrevivia á anarchia politica dos seus pequenos estados. Com Portugal, porém, o caso é diferente: como diz Fernando Pessoa, a nossa carencia de tradição cultural é quasi absoluta; «o que tem havido é menos que pouco; a nossa indisposição cultural permanece evidente». Mas, não estará na nossa mão, não estará na capacidade dos homens fazer alguma coisa n’este sentido? Creio que sim. Mas crer que sim é ir d’encontro ao paradoxo fundamental d’uma epoca de individualismo e de liberdade absoluta, que, ao mesmo tempo que divinisa o homem como Individuo, como Entidade social, o torna escravo e joguete dos factos e das circumstancias.

    Reputo necessario que os homens que pensam, que o escol intellectual e social portuguez faça alguma coisa n’este sentido, já procurando desbravar a anarchia politica que nos exgota, já creando um patrimonio cultural digno do patrimonio territorial que faz de nós, já hoje, a terceira potencia colonial. Quanto ao mais, basta-me o que Fernando Pessoa affirma no tocante ao «Portugal grande potencia constructiva», ao «Portugal Imperio». Está provocando que Portugal é, «por indole, uma nação creadora e imperial»: o Brasil por exemplo, melhor do que todas as palavras, ahi está a atestal-o. Portugal tém pois condições organicas para ser uma grande potencia constructiva ou creadora, um imperio — e isto é, para o nosso inquerito, o fundamental. O resto virá em seguida, tao depressa nos convençamos, todos nós, os que escrevemos, fallamos, pensamos, de que assim é, de que assim deve ser.

    Eis a segunda resposta ao questionario

    II- Sim ou não Portugal, sendo a terceira potencia colonial, tem todos os direitos a ser considerado uma grande potencia europeia?

    Responde Fernando Pessoa:

    «Como Portugal, grande potencia, está no futuro ou, se se preferir, só pode estar no futuro, não póde exigir ao presente que o considere por aquillo que elle ainda não é, nem se sabe ao certo se será. Mas, como é a terceira potencia colonial, póde e deve exigir que o tratem como a terceira potencia colonial».

    Potencia colonial

    Deixemos o que, de momento, nos separa, para nos preocuparmos com aquillo que nos reune: emquanto que, para nós, Portugal é já hoje, virtualmente, pelo menos, uma grande potencia, para Fernando Pessoa, como acabamos de vêr, «Portugal, grande potencia, está no futuro» e não no presente. Estamos, pois, separados; mas logo de seguida nos encontramos, quando o meu correspondente afirma que Portugal, sendo a terceira potencia colonial — e isto é indiscutível — tém todo o direito a que o tratem como tal. Ora, é isso, precisamente, o que não acontece, e é isso o que se torna mister que aconteça. Somos a terceira potencia colonial, mas, no concerto das nações, essa cathegoria só nos é reconhecida quando as nações mais pobres do que nós, em dominios ultramarinos, se lembram de afirmar que temos um patrimonio colonial grande de mais para a nossa capacidade e para as nossas possibilidades.

    Capacidade colonizadora

    É esta opinião interessada que as grandes potencias têm a nosso respeito que nós devemos rectificar a todo o transe. A nossa capacidade colonisadora está, historicamente, mais que demonstrada; e se as nossas possibilidades economicas não correspondem, de momento, ao largo campo d’actividade que se abre diante de nós, o facto de modo algum prova que, amanhã, não sejamos capazes de corresponder, economicamente, materialmente, ás responsabilidades moraes que a existencia d’um tão vasto patrimonio ultramarino faz pezar sobre os nossos hombros. Não são necessarios, para isso, genios politicos: apenas uma energia tenaz posta ao serviço d’uma inteligencia clarividente e equilibrada. Entraremos hoje, com o novo governo, n’esse caminho? Ou ainda não terá chegado a hora da nossa grandeza, que os politicos sacrificavam systematicamente aos seus caprichos, ás suas ambições pessoaes?

    Preguntava eu mais:

    III — Sim ou não Portugal, amputado das suas colonias, perderá toda a razão de ser como povo independente no conceito europeu?

    Fernando Pessoa responde:

    «Para o destino que presumo que será o de Portugal, as Colonias não são precisas. A perda d’ellas, porém, tambem não é precisa para esse destino. E, porcerto, sem Colonias ficaria Portugal diminuido ante o mundo e perante si mesmo, material como moralmente. As Colonias, portanto, não sendo uma necessidade, são comtudo uma vantagem».

    Potencia constructiva

    Não comprehendo francamente, como, sendo a vocação apostolica, como costumava dizer Antonio Sardinha, sendo Portugal, «por índole, uma nação creadora e imperial» como Fernando Pessoa escreveu no segundo paragrapho da sua resposta ao primeiro quesito; não comprehendo, repito, como é que as colonias não são necessariamente á existencia de Portugal. Não somos uma potencia cultural, porque a necessidade cultural não é em nós orgânica: a nossa indisposição cultural— Fernando Pessoa dixit— permanece evidente. Mas, por outro lado, «Portugal tem condições organicas para ser uma grande potencia constructiva ou creadora, um Imperio.» Que especie de Imperio, Fernando Pessoa? Você não responde directamente, porque a minha pergunta não exigia esta demonstração; mas, indirectamente, responde a essa pergunta, quando cita a nossa acção no Brasil. «Com as Descobertas, e o estabelecimento do Imperialismo Ultramarino, creámos o mundo moderno — creação absoluta, tanto quanto socialmente isso é possivel...

    Sonho sebastianista

    Nas mais negras horas da nossa decadencia, proseguiu, sobretudo no Brasil, a nossa acção imperial, pela colonização; e foi n’essas mesmas horas que em nós nasceu o sonho sebastianista, em que a ideia do Imperio Portuguez attinge o Estado religioso. «A nossa vocação é, essencialmente, a d’um povo creador de nações»: porque motivo, então, as colonias não são necessarias ao nosso destino? Porventura não teremos nós nas provincias ultramarinas a materia d’onde, mais tarde ou mais cedo, o espirito de Portugal tirará outras tantas nações? (Fallo, bem entendido, apenas d’aquellas que para tal tem condições naturaes). Não, não, meu caro Fernando Pessoa: as colonias portuguezas, não sómente são uma vantagem, porque são um valor positivo com que contamos, como são tambem uma necessidade do nosso destino. Se as perdêssemos, não só ficariamos diminuídos, como tambem ficaria truncado o destino de Portugal.

    Ultima pergunta do questionario:

    IV- Sim ou não o moral da nação poder ser levantado por uma intensa propaganda, pelo jornal, pela revista e pelo livro, de forma a crear uma mentalidade collectiva capaz de impôr aos politicos uma politica de grandeza nacional? Na hyphotese affirmativa, qual o caminho a seguir?

    Fernando Pessoa responde:

    «Ha só uma especie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação — a construcção ou renovação, e a diffusão consequente e multimoda, de um grande mytho nacional. De instincto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instincto, que não ha verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras: quem quizer despertal-o ou conduzil-o terá que mentir-lhe delirantemente, e fal-o-ha com tanto mais exito, quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que creou. Temos, felizmente, o mytho sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portugueza. Nosso trabalho é pois mais facil; não temos que crear um mytho, senão que renoval-o. Comecemos por nos embebedar d’esse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, por cada um de nós independentemente e a sós comsigo o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevemos, e a atmosphera estará creada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o phenomeno imprevisivel de onde nascerão as Novas Descobertas, a Creação do Mundo Novo, o Quinto Imperio. Terá regressado El Rei D. Sebastião».

    Fé e esperança

    O «sebastianismo», considerado por Oliveira Martins como uma prova posthuma da nacionalidade portugueza , é o mytho nacional por excellencia, é uma fórma da fé e da esperança na redempção nacional. Pode Antonio Sergio, em nome d'um racionalismo impenitente, cego ás forças do sentimento e da intuição, gritar contra elle tudo quanto queira e em suas forças caiba; pode classificar D. Sebastião de idiota, parvo, cretino, e tudo quanto, n'um assomo de romantismo, lhe desça ao bico da pena, —que nem por isso a religião portugueza da fé n'um futuro melhor, n'um Quinto Imperio sem egual, — que outra coisa não é o sebastianismo — deixará de ser um facto evidente, com que ha que contar para a restauração do organismo nacional. Dada esta interpretação do sebastianismo, todos os povos terão o seu sebastianismo próprio? Bem nos importa isso a nós! O que nos interessa é que exista sempre na alma portugueza um fermento de esperança, que a não deixe morrer, nem mesmo nos momentos mais angustiosos da crise que ha decenios estamos atravesando. E esse fermento existe. E porque elle existe, e é fundamentalmente dynamico, guardamos dentro de nós a possibilidade d'uma redempção colectiva. Como Fernando Pessoa diz, terá regressado El Rei D. Sebastião.

    Augusto da Costa

  • “Portugal, Vasto Império”
    Um inquérito nacional

    Depoimento do escritor Fernando Pessoa

    Primeira pergunta formulada no meu questionário:

    I — Sim ou não Portugal, potência da primeira grandeza na Renascença, guarda em si a vitalidade necessária para manter no futuro, na nova Renascença que há de seguir-se à Idade Média que atravessamos, o lugar de uma grande potência?

    Resposta do sr. Fernando Pessoa:

    (1) Cumpre, antes de mais nada, definir a expressão «grande potência». Por «grande potência» se deve entender, evidentemente, uma nação que influi notavelmente na vida ou nos destinos da civilização. Podemos, porém, distinguir três maneiras de assim influir notavelmente. Distinguiremos, portanto, três espécies de «grande potência».

    Influir é transformar. Há três maneiras de transformar: transformar para menos, ou desagregar; transformar para mais, ou desenvolver; transformar para outro, ou construir. Força é, pois, que as grandes potências se manifestem tais, ou pela desagregação que produzem; ou pelo desenvolvimento que promovem; ou pela construção que estabelecem ou novidade que originam.

    Duas forças

    Duas são as forças da desagregação — a decadência e a violência externa. A decadência é intransmissível: pode ser estimulada, porém não imposta; são portanto seus estímulos, que não ela mesma, que comportam transmissão. A violência externa, pelo contrário, é imposição por natureza. Uma grande potência de desagregação significa portanto uma grande potência de violência, ou seja uma grande potência guerreira. É este o sentido em que ordinariamente se toma a expressão «grande potência»: é que a violência, como é a força visível, representa para o comum dos homens o modo único da força.

    Duas são também as forças de desenvolvimento — o estímulo físico, ou material; e o estímulo intelectual ou moral. Na vida das sociedades, o primeiro é dado pelo comércio, o segundo pela cultura. Com efeito, o desenvolvimento dos povos se efetua, no que material, pela multiplicação de contactos económicos; no que mental, pela multiplicação de contactos culturais. E o comércio e a cultura andam comummente a par: é que a multiplicação de relações de uma espécie facilita inevitavelmente a multiplicação de relações da outra espécie. Há, pois, duas espécies de «grandes potências» expansivas da vida alheia: as potências primordialmente económicas, como a Alemanha e os Estados Unidos; e as potências culturais, como antigamente a Itália, e subsequentemente a França.

    Transformação

    Qualquer transformação pode ser definida como sendo «para outro», porém a transformação construtiva merece esse nome distintivamente. Na transformação para mais ou para menos a coisa transformada mantém os seus característicos essenciais; a transformação é quantitativa. Na transformação para outro a mudança é qualitativa. Que característicos adquire, porém, a coisa transformada, ao ser transformada «para outro»? Os do elemento transformador, pois outros não há que possivelmente adquira. Segue, pois, que a transformação construtiva implica uma conversão da substância da coisa transformada na substância da coisa transformadora. À nação, que exerce esta espécie de influência, que é uma «grande potência» nesta função, chama-se com justeza, não grande potência, senão Império. Até hoje, a dentro da civilização que vivemos, tem havido quatro impérios — o grego, o romano, o cristão, e o inglês (que não o britânico, que é império em outro, e mais baixo, sentido). Com sua prodigiosa visão, histórica como profética, distingue sempre Nostradamo entre o que chama simplesmente empire (que é qualquer dos grandes domínios fugazes com que se orna a história) e grand empire, que é o Império no sentido em que aqui usamos do termo.

    Sem dúvida que as três formas de ser grande potência se não excluem entre si; antes a duas, e a mais que duas, as pode reunir uma só nação.

    Condições de Portugal

    Postos estes princípios, pergunta-se: para que forma de grande potência tem Portugal condições, se as tem para alguma?

    Portugal, grande potência guerreira, ou desagregadora, é invisionável, o que não quer dizer que seja impossível, pois não podemos prever que alianças ou combinações poderão surgir do abismo do futuro. A pergunta, porém, refere-se às condições que Portugal tem, que não aquelas que poderá um dia vir a ter; e por «condições que tem» se entendem aquelas que ou estão hoje claramente latentes nele, ou em qualquer forma ou esboço nele se revelaram no passado. Ora, pondo, de parte, por irrisório neste respeito, o que somos hoje, o facto é que nunca tivemos condições ou propensão para a forma guerreira de grande potência. Nem para tal nos dispunha nossa situação terrestre de nação pequena e excêntrica em continente e península; nem, em prova disso, nos empenhámos nunca com vantagem em guerras puramente agressivas, exceto as que procederam inevitavelmente do nosso mister orgânico de descobridores. E estas viveram na atmosfera triunfal do fenómeno que lhes deu origem.

    Portugal, grande potência econoómica, é talvez ainda mais invisionável que Portugal grande potência guerreira. Uma potência guerreira forma-se e desenvolve-se com mais facilidade e rapidez que uma potência económica, pois procede de instintos e forças mais primitivos do que esta. E se de potência guerreira não temos tradição senão, por assim dizer corolária, de potência económica não temos tradição nenhuma, ou a temos negativa. Ainda, pois, que uma expansão ou federação futura nos convertesse em grande nação — sem o que se não pode ser uma grande potência económica —, nossa ação nesse campo seria sempre limitada pela de núcleos não só quantitativamente superiores ao nosso, mas ainda preparados tradicionalmente para o exercício dessa espécie de influência.

    Potência cultural

    Portugal, grande potência cultural, é uma hipótese já de outro género. O exercício da grande influência guerreira ou económica implica a existência de uma nação grande, unida, disciplinada: o da grande influência cultural dispensa estes característicos. Exerceu-a a Itália quando nem sequer era nação, se não uma justaposição de pequenos estados em conflito perpétuo uns com os outros, e cada um em quase constante desordem interna. Nem a nossa condição atual é, pois, obstáculo neste respeito; é-o, porém, a nossa carência quase absoluta de tradição cultural, propriamente dita. Quantitativamente, nunca a tivemos; qualitativamente, pouco. No fim da chamada Idade Média, e no princípio da Renascença esboçámos, é certo, um acentuado movimento cultural, que abrange os Cancioneiros, os Romances de Cavalaria, e um ou outro fenómeno como a especulação de Francisco Sanches, aliás formado em outro ambiente; mas em breve o vinco, muito mais tipicamente nacional, das Descobertas arrastava para si toda a vitalidade portuguesa, e o Catolicismo, então em período de reação, se encarregou de anular aquela liberdade de especulação sem a qual a cultura é impossível. Ficámos no estado vil de inteligência, servil e mimético, em que desde esse tempo temos vegetado. Se, porém, a necessidade cultural fosse, por qualquer razão, em nós orgânica, teria havido dela sinais, sobretudo desde que entrámos, com o mimetismo já citado, em regímen liberal e depois em República. Mas o que tem havido é menos que pouco; a nossa indisposição cultural permanece evidente.

    Potência construtiva

    Portugal, grande potência construtiva, Portugal Império — aqui, sim, é que, através de grandeza e de decadência, se revela o nosso instinto, e se mantém a nossa tradição. Somos, por índole, uma nação criadora e imperial. Com as Descobertas, e o estabelecimento do Imperialismo Ultramarino, criámos o mundo moderno — criação absoluta, tanto quanto socialmente isso é possível, que não simples elaboração ou renovação de criações alheias. Nas mais negras horas da nossa decadência, prosseguiu, sobretudo no Brasil, a nossa ação imperial, pela colonização; e foi nestas mesmas horas que em nós nasceu o sonho sebastianista, em que a ideia do Império Português atinge o estado religioso.

    Portugal tem pois condições orgânicas para ser uma grande potência construtiva ou criadora, um Império. Uma coisa, porém, é dizer-se que Portugal tem condições para sê-lo; outra é predizer que o será. A pergunta não exige esta segunda demonstração, que, aliás, por extensa não poderia ser aqui dada. Nem há mister que se diga, também, em que consistirá presumivelmente essa criação portuguesa, qual será o sentido e o conteúdo desse Quinto Império. Fora preciso um livro inteiro para o dizer, nem chegou ainda a hora de dizer-se.

    Devo dizer ao sr. Fernando Pessoa que a minha primeira interrogação não postulava de qualquer forma a existência futura de Portugal como potência dominante entre as que hoje são consideradas «Grandes potências.» Os nossos desejos são mais limitados, porque o nosso espírito é mais realista do que possa, à primeira vista, parecer. Como grande potência guerreira (aceitando a classificação de grandes potências esboçada por Fernando Pessoa) não ambicionamos para Portugal mais do que as forças materiais e morais necessárias para garantirmos as fronteiras contra todos os ataques possíveis, quer venham de vizinhos, quer venham de mais longe; e não ambicionamos mais do que a marinha necessária para a defesa das estradas que nos ligam às províncias ultramarinas, para a guarda do comércio nessas estradas, e para a defesa dessas províncias — que mais adiante Fernando Pessoa considera - dispensáveis... O mundo, sob o ponto de vista territorial, está já conquistado; as nossas fronteiras geográficas estão já nitidamente vincadas: não precisamos, pois, como grande potência guerreira, mais do que o exército e a marinha necessários para a defesa do nosso património atual, do statu quo.

    Observação idêntica devo fazer no tocante a «Portugal, grande potência económica.» Não pretendemos fazer de Portugal um grande empório comercial à maneira da Inglaterra ou da América, nem, como estes dois países, fazer dum ambicioso imperialismo económico a razão de ser da nossa existência. A América, como tal, é o que é, porque se encontra num estado de criação social, num estado de elaboração próprio dum país recém-saído do colonato, e onde os homens encontram na vastidão dos territórios um largo campo d'ação para a livre expansão da sua atividade de povo novo. A Inglaterra, como tal, é o que é, mercê das circunstâncias que a colocaram numa ilha no meio do oceano, em terrenos d’onde a agricultura foi quase expulsa pela indústria. A Inglaterra, não produzindo o necessário para se alimentar, encontra no imperialismo económico, ao mesmo tempo, uma fonte de recursos alimentares e o principal objetivo da sua atividade. Ora, se Portugal se não encontra nem nas circunstâncias da América, nem nas da Inglaterra, torna-se evidente que não podemos aspirar a uma situação de predomínio económico do mundo idêntica à situação desses dois países. De resto, e entre parêntesis, o Destino fez de nós uma nação, um povo de apóstolos e colonizadores, e nunca um povo de mercantes. O que nós pretendemos, sob o ponto de vista económico, é que Portugal saiba explorar as riquezas que pejam os seus territórios riquíssimos, na metrópole como nas províncias ultramarinas. Não aspiramos a sobrepujar o vizinho, nem a dominar o mundo: bastará que nos saibamos valorizar economicamente, sob o tríplice ponto de vista agrícola, industrial e comercial (refiro-me especialmente à marinha mercante) para que não tenhamos, como hoje, para nosso mal, acontece, que estar na dependência alheia, quando temos à mão, nosso, tudo ou quase tudo aquilo de que necessitamos.

    Mas Fernando Pessoa, que não admite a hipótese de Portugal, grande potência guerreira, nem a de Portugal, grande potência económica, admite, contudo, a de Portugal grande potência cultural. Também nós a admitimos. Simplesmente, divergimos quando Fernando Pessoa afirma que a nossa condição atual não é obstáculo neste respeito. Se a Itália exerceu uma grande influência cultural «quando nem sequer era nação, senão uma justaposição de pequenos estados, em conflito perpétuo uns com os outros, e cada um em quase constante desordem interna», era porque a Itália tinha uma longa tradição intelectual, moral e artística, uma velha tradição cultural tão forte que podia sobreviver e sobrevivia à anarquia política dos seus pequenos estados. Com Portugal, porém, o caso é diferente: como diz Fernando Pessoa, a nossa carência de tradição cultural é quase absoluta; «o que tem havido é menos que pouco; a nossa indisposição cultural permanece evidente». Mas, não estará na nossa mão, não estará na capacidade dos homens fazer alguma coisa neste sentido? Creio que sim. Mas crer que sim é ir d’encontro ao paradoxo fundamental duma época de individualismo e de liberdade absoluta, que, ao mesmo tempo que diviniza o homem como Indivíduo, como Entidade social, o torna escravo e joguete dos factos e das circunstâncias.

    Reputo necessário que os homens que pensam, que o escol intelectual e social português faça alguma coisa neste sentido, já procurando desbravar a anarquia política que nos esgota, já criando um património cultural digno do património territorial que faz de nós, já hoje, a terceira potência colonial. Quanto ao mais, basta-me o que Fernando Pessoa afirma no tocante ao «Portugal grande potência construtiva», ao «Portugal Império». Está provocando que Portugal é, «por índole, uma nação criadora e imperial»: o Brasil por exemplo, melhor do que todas as palavras, aí está a atestá-lo. Portugal tem pois condições orgânicas para ser uma grande potência construtiva ou criadora, um império — e isto é, para o nosso inquérito, o fundamental. O resto virá em seguida, tão depressa nos convençamos, todos nós, os que escrevemos, falamos, pensamos, de que assim é, de que assim deve ser.

    Eis a segunda resposta ao questionário

    II — Sim ou não Portugal, sendo a terceira potência colonial, tem todos os direitos a ser considerado uma grande potência europeia?

    Responde Fernando Pessoa:

    «Como Portugal, grande potência, está no futuro ou, se se preferir, só pode estar no futuro, não pode exigir ao presente que o considere por aquilo que ele ainda não é, nem se sabe ao certo se será. Mas, como é a terceira potência colonial, pode e deve exigir que o tratem como a terceira potência colonial».

    Potência colonial

    Deixemos o que, de momento, nos separa, para nos preocuparmos com aquilo que nos reúne: enquanto que, para nós, Portugal é já hoje, virtualmente, pelo menos, uma grande potência, para Fernando Pessoa, como acabamos de ver, «Portugal, grande potência, está no futuro» e não no presente. Estamos, pois, separados; mas logo de seguida nos encontramos, quando o meu correspondente afirma que Portugal, sendo a terceira potência colonial — e isto é indiscutível — tem todo o direito a que o tratem como tal. Ora, é isso, precisamente, o que não acontece, e é isso o que se torna míster que aconteça. Somos a terceira potência colonial, mas, no concerto das nações, essa categoria só nos é reconhecida quando as nações mais pobres do que nós, em domínios ultramarinos, se lembram de afirmar que temos um património colonial grande de mais para a nossa capacidade e para as nossas possibilidades.

    Capacidade colonizadora

    É esta opinião interessada que as grandes potências têm a nosso respeito que nós devemos retificar a todo o transe. A nossa capacidade colonizadora está, historicamente, mais que demonstrada; e se as nossas possibilidades económicas não correspondem, de momento, ao largo campo d’atividade que se abre diante de nós, o facto de modo algum prova que, amanhã, não sejamos capazes de corresponder, economicamente, materialmente, às responsabilidades morais que a existência dum tão vasto património ultramarino faz pesar sobre os nossos ombros. Não são necessários, para isso, génios políticos: apenas uma energia tenaz posta ao serviço duma inteligência clarividente e equilibrada. Entraremos hoje, com o novo governo, nesse caminho? Ou ainda não terá chegado a hora da nossa grandeza, que os políticos sacrificavam sistematicamente aos seus caprichos, às suas ambições pessoais?

    Perguntava eu mais:

    III — Sim ou não Portugal, amputado das suas colónias, perderá toda a razão de ser como povo independente no conceito europeu?

    Fernando Pessoa responde:

    «Para o destino que presumo que será o de Portugal, as Colónias não são precisas. A perda delas, porém, também não é precisa para esse destino. E, por certo, sem Colónias ficaria Portugal diminuído ante o mundo e perante si mesmo, material como moralmente. As Colónias, portanto, não sendo uma necessidade, são contudo uma vantagem».

    Potência construtiva

    Não compreendo francamente, como, sendo a vocação apostólica, como costumava dizer António Sardinha, sendo Portugal, «por índole, uma nação criadora e imperial» como Fernando Pessoa escreveu no segundo parágrafo da sua resposta ao primeiro quesito; não compreendo, repito, como é que as colónias não são necessariamente à existência de Portugal. Não somos uma potência cultural, porque a necessidade cultural não é em nós orgânica: a nossa indisposição cultural — Fernando Pessoa dixit — permanece evidente. Mas, por outro lado, «Portugal tem condições orgânicas para ser uma grande potência construtiva ou criadora, um Império.» Que espécie de Império, Fernando Pessoa? Você não responde diretamente, porque a minha pergunta não exigia esta demonstração; mas, indiretamente, responde a essa pergunta, quando cita a nossa ação no Brasil. «Com as Descobertas, e o estabelecimento do Imperialismo Ultramarino, criámos o mundo moderno — criação absoluta, tanto quanto socialmente isso é possível...

    Sonho sebastianista

    Nas mais negras horas da nossa decadência, prosseguiu, sobretudo no Brasil, a nossa ação imperial, pela colonização; e foi nessas mesmas horas que em nós nasceu o sonho sebastianista, em que a ideia do Império Português atinge o Estado religioso. «A nossa vocação é, essencialmente, a dum povo criador de nações»: porque motivo, então, as colónias não são necessárias ao nosso destino? Porventura não teremos nós nas províncias ultramarinas a matéria d’onde, mais tarde ou mais cedo, o espírito de Portugal tirará outras tantas nações? (Falo, bem entendido, apenas daquelas que para tal tem condições naturais). Não, não, meu caro Fernando Pessoa: as colónias portuguesas, não somente são uma vantagem, porque são um valor positivo com que contamos, como são também uma necessidade do nosso destino. Se as perdêssemos, não só ficaríamos diminuídos, como também ficaria truncado o destino de Portugal.

    Última pergunta do questionário:

    IV — Sim ou não o moral da nação poder ser levantado por uma intensa propaganda, pelo jornal, pela revista e pelo livro, de forma a criar uma mentalidade coletiva capaz de impor aos políticos uma política de grandeza nacional? Na hipótese afirmativa, qual o caminho a seguir?

    Fernando Pessoa responde:

    «Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação — a construção ou renovação, e a difusão consequente e multimoda, de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras: quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito, quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o encarnar. Feito isso, por cada um de nós independentemente e a sós consigo o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevemos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião».

    Fé e esperança

    O «sebastianismo», considerado por Oliveira Martins como uma prova póstuma da nacionalidade portuguesa, é o mito nacional por excelência, é uma forma da fé e da esperança na redenção nacional. Pode António Sérgio, em nome dum racionalismo impenitente, cego às forças do sentimento e da intuição, gritar contra ele tudo quanto queira e em suas forças caiba; pode classificar D. Sebastião de idiota, parvo, cretino, e tudo quanto, num assomo de romantismo, lhe desça ao bico da pena, — que nem por isso a religião portuguesa da fé num futuro melhor, num Quinto Império sem igual, — que outra coisa não é o sebastianismo — deixará de ser um facto evidente, com que há que contar para a restauração do organismo nacional. Dada esta interpretação do sebastianismo, todos os povos terão o seu sebastianismo próprio? Bem nos importa isso a nós! O que nos interessa é que exista sempre na alma portuguesa um fermento de esperança, que a não deixe morrer, nem mesmo nos momentos mais angustiosos da crise que há decénios estamos atravessando. E esse fermento existe. E porque ele existe, e é fundamentalmente dinâmico, guardamos dentro de nós a possibilidade duma redenção coletiva. Como Fernando Pessoa diz, terá regressado El-Rei D. Sebastião.

    Augusto da Costa

  • Nomes

    • António Sardinha
    • António Sérgio
    • Augusto da Costa
    • D. Sebastião
    • Fernando Pessoa
    • Francisco Sanches
    • Nostradamus
    • Olivieria Martins