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Conselho

Fernando Pessoa

Sudoeste, Cadernos de Almada Negreiros,

3 de Novembro de 1935, pp.5-6.

Conselho

Cérca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo sêr guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tam pobre que nem tu a vês...

FERNANDO PESSOA

Conselho Fernando Pessoa Edição, Transcrição Pedro Sepúlveda Transcrição Pablo Javier Pérez López Modelagem de dados, Codificação Ulrike Henny-Krahmer Codificação Sviatoslav Drach Consultoria Institut für Dokumentologie und Editorik (IDE) Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) Cologne Center for eHumanities (CCeH) 2017 Pessoa_Conselho.xml Conselho Conselho Fernando Pessoa Sudoeste, Cadernos de Almada Negreiros 3 de Novembro de 1935 5-6 Poesia

Conselho

Cérca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo sêr guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tam pobre que nem tu a vês...

FERNANDO PESSOA