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Sobre os ʺpoemasʺ de Paulino de Oliveira

Fernando Pessoa

Descobrimento , verão — outono de 1932.

  • Sôbre os «Poemas» de Paulino de Oliveira

    Como em Portugal, com raras excepções, quem tem que dizer não tem voz nos jornais, vemo-nos obrigados a recorrer à correspondencia para dar uma ideia do que representa, na literatura portuguesa, o livro de Paulino de Oliveira que acabamos de editar.

    Transcrevemos, por isso, uma carta de Fernando Pessoa e o trecho duma carta de Joaquim de Carvalho, dois dos raros espíritos críticos da nossa terra:

    «A doença, que me inhibiu, desculpavelmente, de escrever o artigo sobre Goethe, que lhe promettera, fez tambem, menos desculpavelmente, com que até agora lhe não tenha agradecido o exemplar, que me offereceu, dos Poemas de seu Pae.

    «Ao agradecer-lh’o enfim, desejo não limitar esta carta ao simples agradecimento. O caso poetico de Paulino de Oliveira offerece, a meu ver, um aspecto curioso, cuja analyse não posso furtar-me a delinear.

    «Seu Pae era organicamente um pagão—não um pagão por poesia (como os pseudo-classicos do seculo XVIII), não um pagão por politica poetica (como os que, então ou depois, achavam que fallar em Venus era uma maneira habil de desherdar a Virgem Maria), mas um pagão verdadeiro, sanguineo, sentindo o paganismo vitalmente, vivendo-o no espirito, como qualquer pagão dos tempos pagãos o viveria.

    «Succede, porém, que Paulino de Oliveira viveu em nosso tempo, que não no de Horacio. E é essa discordancia entre o homem e a epocha que me parece explicar dois dos characteristicos, a meu ver, distinctivos dos poemas de seu Pae—o tom, mais ou menos audivel de angustia — a angustia do exilio-nato, da intima expatriação —, e o facto de que, tendo elle notaveis, accentuadas, qualidades poeticas, a sua obra não attinge a perfeição, não só formal mas expressiva, a que a Natureza, se não fôra a Sorte, a destinava.

    «Não é, comtudo, o simples caso de não ter nascido no tempo de Augusto que constituiu para seu Pae o estorvo poetico que aponto. Tivesse elle, sem differença de epocha, nascido, ou sido educado, em Inglaterra—onde a cultura é greco-romana com predominancia do espírito grego (já não digo em França, onde o espirito romano, com o que tem de fruste, predomina)—, e tanto bastaria para haver aquella harmonia entre o homem e o ambiente mental sem a qual a obra perfeita é impossivel. Digo «a obra perfeita» com dois sentidos, com uma dupla intençao — a obra perfeita com obra, e a obra perfeita como expressão do homem.

    «Accresce que seu Pae não teve, ao que parece, contacto algum profundo com um ambiente cultural extrangeiro, que, ainda que menos perfeitamente que o inglez, em certo modo o libertasse para dentro. Não teve, creio estivesse onde estivesse, outro clima do espirito senão Portugal. Ora aqui em Portugal de agora, com um seculo de má cultura franceza a succeder a dois de má cultura latina, o ambiente mental não podia ser, para um pagão-nato como elle, senão uma Inquisisiçao por que elle não deu. A dois seculos de deseducação ministrada por pseudo-humanistas, que do latim só sabiam o latim (tornando-o assim deveras uma lingua morta) seguiu-se um seculo de deseducação ministrada por anti-humanistas, que nem portuguez, quanto mais latim, sabiam. Os symbolos da epocha eram o Guerra Junqueiro, que conseguiu plagiar o Hugo sem o plagiar, o Theophilo Braga, que não existia, e o suicidio do Anthero.

    «Num ambiente d’estes, qualquer sinceridade, como o paganismo de seu Pae, estava condemnada de nascença a estiolar ou calar. Tam intenso, porém, era o sentimento pagão que nelle animava que em alguns poemas conseguiu fugir do carcere. Esses poemas, creio, ficarão. Não deixarão, quasi o affirmo, de ser incluidos na Anthologia Portugueza definitiva que alguem futuro formará.

    «Não lh’o digo para lhe ser agradavel, mas para me ser agradavel a mim, poisque julgo que é a verdade.»

    FERNANDO PESSOA

  • Sobre os «Poemas» de Paulino de Oliveira

    Como em Portugal, com raras exceções, quem tem que dizer não tem voz nos jornais, vemo-nos obrigados a recorrer à correspondência para dar uma ideia do que representa, na literatura portuguesa, o livro de Paulino de Oliveira que acabamos de editar.

    Transcrevemos, por isso, uma carta de Fernando Pessoa e o trecho duma carta de Joaquim de Carvalho, dois dos raros espíritos críticos da nossa terra:

    «A doença, que me inibiu, desculpavelmente, de escrever o artigo sobre Goethe, que lhe prometera, fez também, menos desculpavelmente, com que até agora lhe não tenha agradecido o exemplar, que me ofereceu, dos Poemas de seu Pai.

    «Ao agradecer-lho enfim, desejo não limitar esta carta ao simples agradecimento. O caso poético de Paulino de Oliveira oferece, a meu ver, um aspeto curioso, cuja análise não posso furtar-me a delinear.

    «Seu Pai era organicamente um pagão — não um pagão por poesia (como os pseudoclássicos do século XVIII), não um pagão por política poética (como os que, então ou depois, achavam que falar em Vénus era uma maneira hábil de deserdar a Virgem Maria), mas um pagão verdadeiro, sanguíneo, sentindo o paganismo vitalmente, vivendo-o no espírito, como qualquer pagão dos tempos pagãos o viveria.

    «Sucede, porém, que Paulino de Oliveira viveu em nosso tempo, que não no de Horácio. E é essa discordância entre o homem e a época que me parece explicar dois dos característicos, a meu ver, distintivos dos poemas de seu Pai — o tom, mais ou menos audível de angústia ― a angústia do exílio-nato, da íntima expatriação —, e o facto de que, tendo ele notáveis, acentuadas, qualidades poéticas, a sua obra não atinge a perfeição, não só formal mas expressiva, a que a Natureza, se não fora a Sorte, a destinava.

    «Não é, contudo, o simples caso de não ter nascido no tempo de Augusto que constituiu para seu Pai o estorvo poético que aponto. Tivesse ele, sem diferença de época, nascido, ou sido educado, em Inglaterra — onde a cultura é greco-romana com predominância do espírito grego (já não digo em França, onde o espírito romano, com o que tem de fruste, predomina)—, e tanto bastaria para haver aquela harmonia entre o homem e o ambiente mental sem a qual a obra perfeita é impossível. Digo «a obra perfeita» com dois sentidos, com uma dupla intenção — a obra perfeita com obra, e a obra perfeita como expressão do homem.

    «Acresce que seu Pai não teve, ao que parece, contacto algum profundo com um ambiente cultural estrangeiro, que, ainda que menos perfeitamente que o inglês, em certo modo o libertasse para dentro. Não teve, creio estivesse onde estivesse, outro clima do espírito senão Portugal. Ora aqui em Portugal de agora, com um século de má cultura francesa a suceder a dois de má cultura latina, o ambiente mental não podia ser, para um pagão-nato como ele, senão uma Inquisição por que ele não deu. A dois séculos de deseducação ministrada por pseudo-humanistas, que do latim só sabiam o latim (tornando-o assim deveras uma lingua morta) seguiu-se um século de deseducação ministrada por anti-humanistas, que nem português, quanto mais latim, sabiam. Os símbolos da época eram o Guerra Junqueiro, que conseguiu plagiar o Hugo sem o plagiar, o Teófilo Braga, que não existia, e o suicídio do Antero.

    «Num ambiente destes, qualquer sinceridade, como o paganismo de seu Pai, estava condenada de nascença a estiolar ou calar. Tão intenso, porém, era o sentimento pagão que nele animava que em alguns poemas conseguiu fugir do cárcere. Esses poemas, creio, ficarão. Não deixarão, quase o afirmo, de ser incluídos na Antologia Portuguesa definitiva que alguém futuro formará.

    «Não lho digo para lhe ser agradável, mas para me ser agradável a mim, pois que julgo que é a verdade.»

    FERNANDO PESSOA

  • Nomes

    • Antero de Quental
    • Augusto
    • Fernando Pessoa
    • Guerra Junqueiro
    • Horácio
    • Joaquim de Carvalho
    • Johann Wolfgang von Goethe
    • Paulino de Oliveira
    • Teófilo Braga
    • Victor Hugo
    • Virgem Maria
    • Vénus

    Títulos

    • Anthologia Portugueza