English|Português|Deutsch

Adiamento

Álvaro de Campos

Revista da Solução Editora 1, 1929, pp. 4-5.

Cancioneiro do 1º Salão dos Independentes 1, 1930, pp. 4-5.

  • Addiamento

    Depois de àmanhã, sim, só depois de àmanhã…
    Levarei àmanhã a pensar em depois de àmanhã,
    E assim será possivel; mas hoje não…
    Não, hoje nada; hoje não posso.
    A persistencia confusa da minha subjectividade objectiva,
    O somno da minha vida real, intercalado,
    O cansaço anticipado e infinito,
    Um cansaço de mundos para apanhar um electrico…
    Esta especie de alma…
    Só depois de àmanhã…
    Hoje quero preparar-me,
    Quero preparar-me para pensar àmanhã no dia seguinte…
    Elle é que é decisivo.
    Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
    Amanhã é o dia dos planos.
    Amanhã sentar-me-hei á secretaria para conquistar o mundo;
    Mas só conquistarei o mundo depois de àmanhã…
    Tenho vontade de chorar,
    Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
    Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
    Só depois de àmanhã…
    Quando era creança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
    Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infancia…
    Depois de àmanhã serei outro,
    A minha vida triumphar-se-ha,
    Todas as minhas qualidades reaes de intelligente, lido e práctico
    Serão convocadas por um edital…
    Mas por um edital de àmanhã…
    Hoje quero dormir, redigirei àmanhã…
    Por hoje, qual é o espectaculo que me repetiria a infancia?
    Mesmo para eu comprar os bilhetes àmanhã,
    Que depois de àmanhã é que está bem o espectaculo…
    Antes, não…
    Depois de àmanhã terei a pose publica que àmanhã estudarei.
    Depois de àmanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
    Só depois de àmanhã…
    Tenho somno como o frio de um cão vadio.
    Tenho muito somno.
    Amanhã te direi as palavras, ou depois de àmanhã…
    Sim, talvez só depois de àmanhã…
    O porvir…
    Sim, o porvir…

    ALVARO DE CAMPOS

    Poema publicado em Revista da Solução Editora, 1929 e Cancioneiro do 1º Salão dos Independentes, 1930. Apresentamos aqui as imagens de ambas as publicações, cujos textos são, em termos formais e de conteúdo, idênticos.
  • Adiamento

    Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
    Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
    E assim será possível; mas hoje não…
    Não, hoje nada; hoje não posso.
    A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
    O sono da minha vida real, intercalado,
    O cansaço antecipado e infinito,
    Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
    Esta espécie de alma…
    Só depois de amanhã…
    Hoje quero preparar-me,
    Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
    Ele é que é decisivo.
    Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
    Amanhã é o dia dos planos.
    Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
    Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
    Tenho vontade de chorar,
    Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
    Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
    Só depois de amanhã…
    Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
    Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
    Depois de amanhã serei outro,
    A minha vida triunfar-se-á,
    Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
    Serão convocadas por um edital…
    Mas por um edital de amanhã…
    Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
    Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
    Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
    Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
    Antes, não…
    Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
    Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
    Só depois de amanhã…
    Tenho sono como o frio de um cão vadio.
    Tenho muito sono.
    Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
    Sim, talvez só depois de amanhã…
    O porvir…
    Sim, o porvir…

    ÁLVARO DE CAMPOS

    Poema publicado em Revista da Solução Editora, 1929 e Cancioneiro do 1º Salão dos Independentes, 1930. Apresentamos aqui as imagens de ambas as publicações, cujos textos são, em termos formais e de conteúdo, idênticos.