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"Notícia" ― Motivos de Beleza, de António Botto

Fernando Pessoa

Motivos de Beleza, 1923.

  • NOTICIA

    Estes villancetes de Antonio Botto são representativos da phase de sua arte que precedeu a composição das CANÇÕES. São estas sem duvida melhores, tanto por novidade com em perfeição; são, talvez por isso mesmo, menos accessiveis ao maior publico. Em seus villancetes Antonio Botto continúa galhardamente uma tradição portugueza que nasceu ― ao contrario de muitas tradições, ― se não com a propria nacionalidade, por certo com a adolescencia d'ella. O villancete, que Antonio Botto escreve, não é porém o tradicional: o poeta, como todos espiritos interessantes, segue a tradição principalmente em afastar-se d'ella, que antes de começar tambem não existia.

    No trabalho do villancete, ao contrario de no da cantiga, requere-se uma sciencia especial, subtil e astuciosa, elegante sem que seja dolente. O villancete de Antonio Botto está mais proximo da cantiga. Não pode já dizer-se que nelle não haja dolencia, ou que a subtileza se accrescente á astucia. Na feitura das suas cantigas em villancete Antonio Botto dificilmente pode ser superado. A elegancia espontanea de seu pensamento, a dolencia latente de sua emoção asseguram-lhe facilmente, conjugando-se, a mestria nesta subespecie do lyrismo.

    Áparte isto, estes villancetes são um exemplo translato da arte de Antonio Botto. Distingue-se esta pela simplicidade perversa e pela preoccupação esthetica destituida de preoccupações. Foge da complicação com o mesmo ardor com que se esconde da intenção directa. É em verdade singular que se seja simples para dizer exactamente outra cousa, e se vá buscar as palavras mais naturaes para por meio d'ellas ter entendimentos secretos.

    Certo é que o que Antonio Botto escreve, em verso ou em prosa, ha que ser lido sempre com a attenção posta em o que não está lá escripto. Pode tambem ser lido com a attenção posta em o que está lá escripto. De qualquer das formas se é leitor.

    Fernando Pessoa.

  • NOTICIA

    Estes vilancetes de António Botto são representativos da fase de sua arte que precedeu a composição das CANÇÕES. São estas sem dúvida melhores, tanto por novidade com em perfeição; são, talvez por isso mesmo, menos acessíveis ao maior público. Em seus vilancetes António Botto continua galhardamente uma tradição portuguesa que nasceu ― ao contrário de muitas tradições, ― se não com a própria nacionalidade, por certo com a adolescência dela. O vilancete, que António Botto escreve, não é porém o tradicional: o poeta, como todos espíritos interessantes, segue a tradição principalmente em afastar-se dela, que antes de começar também não existia.

    No trabalho do vilancete, ao contrário de no da cantiga, requere-se uma ciência especial, subtil e astuciosa, elegante sem que seja dolente. O vilancete de António Botto está mais próximo da cantiga. Não pode já dizer-se que nele não haja dolência, ou que a subtileza se acrescente à astúcia. Na feitura das suas cantigas em vilancete António Botto dificilmente pode ser superado. A elegância espontânea de seu pensamento, a dolência latente de sua emoção asseguram-lhe facilmente, conjugando-se, a mestria nesta subespécie do lirismo.

    À parte isto, estes vilancetes são um exemplo translato da arte de António Botto. Distingue-se esta pela simplicidade perversa e pela preocupação estética destituída de preocupações. Foge da complicação com o mesmo ardor com que se esconde da intenção direta. É em verdade singular que se seja simples para dizer exatamente outra coisa, e se vá buscar as palavras mais naturais para por meio delas ter entendimentos secretos.

    Certo é que o que António Botto escreve, em verso ou em prosa, há que ser lido sempre com a atenção posta em o que não está lá escrito. Pode também ser lido com a atenção posta em o que está lá escrito. De qualquer das formas se é leitor.

    Fernando Pessoa.

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