English|Português|Deutsch

Opiário

Álvaro de Campos

Orpheu 1, janeiro — março de 1915, pp. 71-76.

  • OPIÁRIO

    Ao senhor Mário de Sá-Carneiro
    É antes do ópio que a minh’alma é doente.
    Sentir a vida convalesce e estióla
    E eu vou buscar ao ópio que consóla
    Um Oriente ao oriente do Oriente.
    Esta vida de bórdo ha-de matar-me.
    São dias só de febre na cabêça
    E, por mais que procure até que adoêça,
    Já não encontro a móla pra adaptar-me.
    Em paradoxo e incompetência astral
    Eu vivo a vincos d’ouro a minha vida,
    Onda onde o pundonôr é uma descida
    E os próprios gosos ganglios do meu mal.
    É por um mecanismo de desastres,
    Uma engrenagem com volantes falsos,
    Que passo entre visões de cadafalsos
    Num jardim onde ha flores no ar, sem hastes.
    Vou cambaleando através do lavôr
    Duma vida-interior de renda e láca.
    Tenho a impressão de ter em casa a fáca
    Com que foi degolado o Precursôr.
    Ando expiando um crime numa mála,
    Que um avô meu cometeu por requinte.
    Tenho os nervos na fôrca, vinte a vinte,
    E caí no ópio como numa vála.
    Ao toque adormecido da morfina
    Perco-me em transparências latejantes
    E numa noite cheia de brilhantes
    Ergue-se a lua como a minha Sina.
    Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
    Não faço mais que ver o navio ir
    Pelo canal de Suez a conduzir
    A minha vida, camfora na aurora.
    Perdi os dias que já aproveitara.
    Trabalhei para ter só o cansaço
    Que é hoje em mim uma especie de braço
    Que ao meu pescôço me sufoca e ampara.
    E fui criança como toda a gente.
    Nasci numa provincia portuguêsa
    E tenho conhecido gente inglêsa
    Que diz que eu sei inglês perfeitamente.
    Gostava de ter poêmas e novélas
    Publicados por Plon e no Mercure,
    Mas é impossivel que esta vida dure.
    Se nesta viagem nem houve procélas!
    A vida a bórdo é uma coisa triste
    Embora a gente se divirta ás vezes.
    Falo com alemães, suecos e inglêses
    E a minha mágoa de viver persiste.
    Eu acho que não vale a pena ter
    Ido ao Oriente e visto a India e a China.
    A terra é semelhante e pequenina
    E ha só uma maneira de viver.
    Porisso eu tomo ópio. É um remedio.
    Sou um convalescente do Momento.
    Móro no rés-do-chão do pensamento
    E ver passar a Vida faz-me tedio.
    Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, emfim,
    Muito a leste não fosse o oeste já!
    Pra que fui visitar a India que ha
    Se não ha India senão a alma em mim?
    Sou desgraçado por meu morgadío.
    Os ciganos roubaram minha Sorte.
    Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
    Um lugar que me abrigue do meu frio.
    Eu fingi que estudei engenharia.
    Vivi na Escóssia. Visitei a Irlanda.
    Meu coração é uma avòzinha que anda
    Pedindo esmóla ás portas da Alegria.
    Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
    Volta á direita, nem eu sei para onde.
    Passo os dias no smoking-room com o conde ―
    Um escroc francês, conde de fim de enterro.
    Volto á Europa descontente, e em sortes
    De vir a ser um poeta sonambólico.
    Eu sou monarquico mas não católico
    E gostava de ser as coisas fortes.
    Gostava de ter crenças e dinheiro,
    Ser varia gente insipida que vi.
    Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
    Num navio qualquer um passageiro.
    Não tenho personalidade alguma.
    É mais notado que eu êsse criado
    De bórdo que tem um belo modo alçado
    De laird escossez ha dias em jejum.
    Não posso estar em parte alguma. A minha
    Patria é onde não estou. Sou doente e fraco.
    O comissário de bórdo é velhaco.
    Viu-me co’a sueca… e o resto êle adivinha.
    Um dia faço escândalo cá a bórdo,
    Só para dar que falar de mim aos mais.
    Não posso com a vida, e acho fatais
    As iras com que ás vezes me debórdo.
    Levo o dia a fumar, a beber coisas,
    Drogas americanas que entontecem,
    E eu já tão bêbado sem nada! Déssem
    Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.
    Escrevo estas linhas. Parece impossivel
    Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
    O facto é que esta vida é uma quinta
    Onde se aborrece uma alma sensivel.
    Os inglêses são feitos pra existir.
    Não ha gente como esta pra estar feita
    Com a Tranquilidade. A gente deita
    Um vintém e sai um dêles a sorrir.
    Pertenço a um genero de portuguêses
    Que depois de estar a India descoberta
    Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
    Tenho pensado nisto muitas vêzes.
    Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
    Nem leio o livro á minha cabeceira.
    Enoja-me o Oriente. É uma esteira
    Que a gente enróla e deixa de ser béla.
    Caio no ópio por força. Lá querer
    Que eu leve a limpo uma vida destas
    Não se pode exigir. Almas honestas
    Com horas pra dormir e pra comer,
    Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
    Porque estes nêrvos são a minha morte.
    Não haver um navio que me transporte
    Para onde eu nada queira que o não vêja!
    Ora! Eu cansava-me do mesmo modo.
    Qu’ria outro ópio mais forte pra ir de ali
    Para sonhos que dessem cabo de mim
    E pregassem comigo nalgum lôdo.
    Febre! Se isto que tenho não é febre,
    Não sei como é que se tem febre e sente.
    O facto essencial é que estou doente.
    Está corrida, amigos, esta lebre.
    Veio a noite. Tocou já a primeira
    Corneta, pra vestir para o jantar.
    Vida social por cima! Isso! E marchar
    Até que a gente saia pla coleira!
    Porque isto acaba mal e ha-de haver
    (Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
    Dêste desassossego que ha em mim
    E não ha forma de se resolver.
    E quem me olhar, ha-de me achar banal,
    A mim e á minha vida… Ora! um rapaz…
    O meu proprio monóculo me faz
    Pertencer a um tipo universal.
    Ah quanta alma haverá, que ande metida
    Assim como eu na Linha, e como eu mística!
    Quantos sob a casaca carateristica
    Não terão como eu o horrôr á vida?
    Se ao menos eu por fóra fôsse tão
    Interessante como sou por dentro!
    Vou no Maelstrom, cada vês mais pró centro.
    Não fazer nada é a minha perdição.
    Um inutil. Mas é tão justo sê-lo!
    Pudesse a gente despresar os outros
    E, ainda que co’os cotovêlos rôtos,
    Ser heroi, doido, amaldiçoado ou bélo!
    Tenho vontade de levar as mãos
    Á bôca e morder nélas fundo e a mal.
    Era uma ocupação original
    E distraía os outros, os tais sãos.
    O absurdo como uma flôr da tal India
    Que não vim encontrar na India, nasce
    No meu cérebro farto de cansar-se.
    A minha vida mude-a Deus ou finde-a…
    Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
    Até virem meter-me no caixão.
    Nasci pra mandarim de condição,
    Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.
    Ah que bom que era ir daqui de caída
    Prá cova por um alçapão de estouro!
    A vida sabe-me a tabaco louro.
    Nunca fiz mais do que fumar a vida.
    E afinal o que quero é fé, é calma,
    E não ter estas sensações confusas.
    Deus que acabe com isto! Abra as eclusas ―
    E basta de comedias na minh’alma!
    No canal de Sués, a bordo.
  • OPIÁRIO

    Ao senhor Mário de Sá-Carneiro
    É antes do ópio que a minh’alma é doente.
    Sentir a vida convalesce e estiola
    E eu vou buscar ao ópio que consola
    Um Oriente ao oriente do Oriente.
    Esta vida de bordo há de matar-me.
    São dias só de febre na cabeça
    E, por mais que procure até que adoeça,
    Já não encontro a mola pra adaptar-me.
    Em paradoxo e incompetência astral
    Eu vivo a vincos d’ouro a minha vida,
    Onda onde o pundonor é uma descida
    E os próprios gozos gânglios do meu mal.
    É por um mecanismo de desastres,
    Uma engrenagem com volantes falsos,
    Que passo entre visões de cadafalsos
    Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.
    Vou cambaleando através do lavor
    Duma vida-interior de renda e laca.
    Tenho a impressão de ter em casa a faca
    Com que foi degolado o Precursor.
    Ando expiando um crime numa mala,
    Que um avô meu cometeu por requinte.
    Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
    E caí no ópio como numa vala.
    Ao toque adormecido da morfina
    Perco-me em transparências latejantes
    E numa noite cheia de brilhantes
    Ergue-se a lua como a minha Sina.
    Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
    Não faço mais que ver o navio ir
    Pelo canal de Suez a conduzir
    A minha vida, cânfora na aurora.
    Perdi os dias que já aproveitara.
    Trabalhei para ter só o cansaço
    Que é hoje em mim uma espécie de braço
    Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.
    E fui criança como toda a gente.
    Nasci numa província portuguesa
    E tenho conhecido gente inglesa
    Que diz que eu sei inglês perfeitamente.
    Gostava de ter poemas e novelas
    Publicados por Plon e no Mercure,
    Mas é impossível que esta vida dure.
    Se nesta viagem nem houve procelas!
    A vida a bordo é uma coisa triste
    Embora a gente se divirta às vezes.
    Falo com alemães, suecos e ingleses
    E a minha mágoa de viver persiste.
    Eu acho que não vale a pena ter
    Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
    A terra é semelhante e pequenina
    E há só uma maneira de viver.
    Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
    Sou um convalescente do Momento.
    Moro no rés do chão do pensamento
    E ver passar a Vida faz-me tédio.
    Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, emfim,
    Muito a leste não fosse o oeste já!
    Pra que fui visitar a Índia que há
    Se não há Índia senão a alma em mim?
    Sou desgraçado por meu morgadio.
    Os ciganos roubaram minha Sorte.
    Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
    Um lugar que me abrigue do meu frio.
    Eu fingi que estudei engenharia.
    Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
    Meu coração é uma avozinha que anda
    Pedindo esmola às portas da Alegria.
    Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
    Volta à direita, nem eu sei para onde.
    Passo os dias no smoking-room com o conde ―
    Um escroc francês, conde de fim de enterro.
    Volto à Europa descontente, e em sortes
    De vir a ser um poeta sonambólico.
    Eu sou monárquico mas não católico
    E gostava de ser as coisas fortes.
    Gostava de ter crenças e dinheiro,
    Ser vária gente insípida que vi.
    Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
    Num navio qualquer um passageiro.
    Não tenho personalidade alguma.
    É mais notado que eu esse criado
    De bordo que tem um belo modo alçado
    De laird escocês há dias em jejum.
    Não posso estar em parte alguma. A minha
    Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
    O comissário de bordo é velhaco.
    Viu-me co’a sueca… e o resto ele adivinha.
    Um dia faço escândalo cá a bordo,
    Só para dar que falar de mim aos mais.
    Não posso com a vida, e acho fatais
    As iras com que às vezes me debordo.
    Levo o dia a fumar, a beber coisas,
    Drogas americanas que entontecem,
    E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
    Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.
    Escrevo estas linhas. Parece impossível
    Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
    O facto é que esta vida é uma quinta
    Onde se aborrece uma alma sensível.
    Os ingleses são feitos pra existir.
    Não há gente como esta pra estar feita
    Com a Tranquilidade. A gente deita
    Um vintém e sai um deles a sorrir.
    Pertenço a um género de portugueses
    Que depois de estar a Índia descoberta
    Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
    Tenho pensado nisto muitas vezes.
    Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
    Nem leio o livro à minha cabeceira.
    Enoja-me o Oriente. É uma esteira
    Que a gente enrola e deixa de ser bela.
    Caio no ópio por força. Lá querer
    Que eu leve a limpo uma vida destas
    Não se pode exigir. Almas honestas
    Com horas pra dormir e pra comer,
    Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
    Porque estes nervos são a minha morte.
    Não haver um navio que me transporte
    Para onde eu nada queira que o não veja!
    Ora! Eu cansava-me do mesmo modo.
    Qu’ria outro ópio mais forte pra ir de ali
    Para sonhos que dessem cabo de mim
    E pregassem comigo nalgum lodo.
    Febre! Se isto que tenho não é febre,
    Não sei como é que se tem febre e sente.
    O facto essencial é que estou doente.
    Está corrida, amigos, esta lebre.
    Veio a noite. Tocou já a primeira
    Corneta, pra vestir para o jantar.
    Vida social por cima! Isso! E marchar
    Até que a gente saia pla coleira!
    Porque isto acaba mal e há de haver
    (Olá!) sangue e um revólver lá pro fim
    Deste desassossego que há em mim
    E não há forma de se resolver.
    E quem me olhar, há de me achar banal,
    A mim e à minha vida… Ora! um rapaz…
    O meu próprio monóculo me faz
    Pertencer a um tipo universal.
    Ah quanta alma haverá, que ande metida
    Assim como eu na Linha, e como eu mística!
    Quantos sob a casaca caraterística
    Não terão como eu o horror à vida?
    Se ao menos eu por fora fosse tão
    Interessante como sou por dentro!
    Vou no Maelstrom, cada vez mais pro centro.
    Não fazer nada é a minha perdição.
    Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
    Pudesse a gente desprezar os outros
    E, ainda que co’os cotovelos rotos,
    Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!
    Tenho vontade de levar as mãos
    À boca e morder nelas fundo e a mal.
    Era uma ocupação original
    E distraía os outros, os tais sãos.
    O absurdo como uma flor da tal Índia
    Que não vim encontrar na Índia, nasce
    No meu cérebro farto de cansar-se.
    A minha vida mude-a Deus ou finde-a…
    Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
    Até virem meter-me no caixão.
    Nasci pra mandarim de condição,
    Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.
    Ah que bom que era ir daqui de caída
    Pra cova por um alçapão de estouro!
    A vida sabe-me a tabaco louro.
    Nunca fiz mais do que fumar a vida.
    E afinal o que quero é fé, é calma,
    E não ter estas sensações confusas.
    Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
    E basta de comédias na minh’alma!
    No canal de Suez, a bordo.