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Como organizar Portugal

Fernando Pessoa

Acção, 1 de maio de 1919, pp. 2-4.

COMO ORGANIZAR PORTUGAL

Quando a guerra findou — como se a guerra alguma vez findasse, ou houvesse neste mundo senão guerra! —; quando, enfim, findou esta guerra de ha pouco, passou a ser assumpto de primeiro plano aquillo, já de havia bastante discutido, a que mais vulgarmente se chamou «os problemas da reconstrução». A phrase é ingleza, e, como participa da nebulosidade mental que caracteriza os inglezes, susceptivel de ser mal interpretada. Se o termo diz respeito ao mero restabelecimento das vias normaes da vida pacifica, tem cabimento etymologico; se diz respeito á reconstituição das industrias estagnadas, á reedificação das cidades destruidas, tem cabimento tambem. A phrase porém tem um sentido vulgar arbitrariamente mais lato: quando se diz «reconstruir», quer, em geral, dizer-se simplesmente «organizar». E esta idéa de organização não tem origem simplesmente na necessidade de preencher lacunas, que a guerra abrisse, ou de reparar estragos, que os exercitos fizessem. Tem uma, de certo modo, mais vergonhosa origem.

Durante quatro annos supportaram os alliados embates sobre embates dos allemães. Aguentaram-os conforme os Deuses foram servidos, ora bem, ora mal, ora confiando, ora descrendo, até que o mais velho dos Deuses, o Tempo, lhes concedeu a victoria. E durante esses quatro annos, e atravez da dura experiencia que elles fôram, aprenderam — com que proveito, ainda se não sabe — pelo menos uma cousa. Repararam que a força da Allemanha provinha, não da valentia notavel dos componentes individuaes dos seus exercitos, não da pericia especial dos seus chefes militares, mas de ser na guerra o que era na paz, e na disciplina particular da vida guerreira o que era no geral de toda a sua vida — uma nação plenamente organizada, coherindo dynamicamente em virtude de uma applicação intelligente e estudada dos principios de organização. A inveja é mãe do estimulo, como a curiosidade o é da sciencia; da inveja da organização allemã nasceu o fallar-se tanto em organizar tanta cousa.

Se é fácil, porém, fallar em organizar, menos fácil é, ao que parece, organizar deveras, ou, pelo menos, indicar como se organize. Nem se pode conceber epocha mais inapta para tomar sobre si o encargo intellectual que a palavra «organização» comporta. Os homens do nosso tempo, destituidos por completo do senso das realidades, extraviados por hypotheticos «direitos», «justiças» e «liberdades» da noção scientifica das cousas, não logram, nem mesmo em theoria, visionar a construção da practica. Um seculo, ou mais, de «principios de 89», um seculo, ou mais, de «liberdade, igualdade, fraternidade» tornou o geral dos europeus, salvo os allemães, obtuso para aquellas noções concretas, com as quaes seguramente se construe o futuro.

E um estudo, como este, da organização, devia, para ser completo, começar pela eliminação critica de quanto lixo a loucura dos seculos mortos, os idealismos frustes do seculo passado, deixaram nas almas; por uma analyse — facil, afinal — que mostrasse como, desde a Revolução Franceza, o espirito humano, no que politico, retrogradou, e como as idéas de liberdade, de egualdade e de fraternidade, como as teem entendido desde Babeuf aos bolchevistas, não são mais que restos laicos da ideologia christan, drogas de reclame para uso das plebes por educar.

Isto, porém, estorvaria o intuito directo d’este estudo, que é o de determinar em que principios deve ficar assente qualquer theoria da organização social, e, em especial, da organização social portugueza.

Supponhamos que queremos organizar a sociedade portugueza; como a organizaremos?

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É evidente que o problema da organização se divide em trez partes, uma das quaes compete ao theorico, e as outras duas ao practico. Temos, primeiro, a determinação do plano ou norma, segundo o qual se vae organizar; temos, depois, a collocação, nos logares que lhes competem, dos homens competentes que hão de effectivar, na practica, essa organização; temos, por ultimo, a coordenação dynamica dos exforços d’esses homens, a maneira especial de pôr a organização em marcha. A primeira parte é de pura theoria, a segunda e a terceira pertencem já á practica. Para a primeira não há senão regras; para a segunda e a terceira não há outra regra senão a realidade, nem outra norma, na segunda parte, senão a intuição na escolha dos homens, e, na terceira, o espirito practico de coordenação de exforços.

Não nos interessa — escusado é dizel-o — senão aquella parte que é theoria, e é d’essa que vamos tratar. As outras duas partes, que competem aos practicos, não nos interessam porque não podem ser objecto de estudo, nem para ellas ha regras que se possam dar. Antes, porém, de entrarmos na theoria, propriamente dita, vejamos bem de que especie de theoria é que se trata.

É que ha duas especies de theorias — a theoria puramente scientifica e interpretativa, e a theoria preliminar da acção. A cada uma d’ellas corresponde um modo determinado de analyse, uma attitude especial do espirito. A analyse de um problema para o comprehender não é egual á analyse do mesmo problema para applicar á practica a sua solução. Comprehender involve esmiuçar o mais possivel; resolver involve simplificar: ha, portanto, opposição entre as attitudes do espirito em um, e outro, caso. Quem estuda um problema para o comprehender não tem deante do seu espirito senão esse problema; quem estuda um problema para o resolver e applicar tem deante do seu espirito duas cousas — o problema, e a realidade a que ha de ser applicada a sua soluçção. No primeiro caso, a attenção tem que concentrar-se apenas sobre o problema; no segundo, tem que estudar qual a media entre o problema e a realidade. Não é só que o escrupulo normalmente excessivo da comprehensão entibia, de ordinario, a vontade; isso é com o theorista e não com a theoria, e só lhe pode fazer realmente mal se elle pretende ser, além de planeador, o chefe practico da execução do seu plano. E’ que toda a realização é a diagonal do parallelogramo de forças, cujos lados são a idéa a applicar e a realidade a que ella se aplica.

Quanto mais concretamente plausivel seja a theoria que se tenta applicar, mais facilmente será applicada; ou, em outras palavras, e para me servir da imagem justa que empreguei, quanto mais pequeno fôr o angulo entre a linha-fôrça da theoria e a linha-fôrça da realidade, menor será o desvio, de ambas, da diagonal da realização.

Esta é a parte que compete á theoria. A intensidade da fôrça applicada, que graphicamente se representa pelo comprimento da linha, pertence já á practica. D’ella não trataremos, nem podemos tratar.

Applique-se, agora, esta doutrina. Tratando de organizar, tratamos de organizar qualquer cousa; determinemos primeiro que cousa é essa, para que, desde o principio, possamos limitar a nossa investigação a um ponto concreto. Não se trata — é bem de ver — de uma theoria da organização abstracta, da organização attitude mental, que tanto pode ser applicada a um poema como a um estado, a um tratado de philosophia como a uma empreza de commercio. O que procuramos organizar é a sociedade portugueza;  é sobre esse ponto, e sobre esse apenas, que temos que fazer incidir a nossa investigação.

O estudo d’esse ponto, porém, desdobra-se em trez partes. Para a analyse, a sociedade portugueza é, primeiro sociedade, e depois sociedade portugueza; temos, portanto, que investigar, primeiro, em que principios deve assentar a organização de qualquer sociedade, e, depois, por que applicação especial d’esses principios deve ser organizada a sociedade portugueza. São estas as duas primeiras partes, mas como nellas apenas se assentam principios, uma terceira parte, derivada e complementar de aquellas, será o estudo dos processos a adoptar para realizar a organização, cujos principios estabeleçam.

*

Na investigação dos principios em que deve assentar a organização de qualquer sociedade, tropeçamos, logo de começo, num obstaculo — a ausencia de ponto de apoio scientifico para tal determinação.

Tomando a imagem da chimica, podemos dizer que a sciencia chamada sociologia está ainda no seu periodo alchimico. De forte e seguro, em materia sociologica ou politica, pouco temos— nós, humanidade em geral—a não ser a «Politica» de Aristoteles, fructo de toda a experiencia politica da Grecia antiga, e «O Principe», de Machiavelli, fructo de toda a experiencia politica da Renascença. Um como outro, habitantes de pequenos estados, onde as engrenagens da politica estavam patentes, podiam colher ensinamentos que são vedados aos subditos de grandes nações, onde a profusão de elementos acidentaes e heterogenos obscurece as grandes linhas, as linhas simples, da realidade substancial. Desde a Revolução Franceza, sobretudo, se perdeu por completo o senso das realidades sociaes, em proveito de theorias abstractas, de sentimentalismos vagos, de imperialismos mysticos e mixtos. E de então para cá, na era dos grandes estados e do internacionalismo crescente, que a progressiva facilidade de communicações e de relações instaurou, ficou sendo completa a obnubilação do senso politico. Foi em meios como estes que nasceram as modernas theorias sociologicas. Não admira que a nada cheguem e de nada sirvam, e que se possa dizer que estamos ante ellas como os velhos diplomatas recommendavam que se estivesse, para aprender, ante o celebre governo da Sicilia: esse governo era uma perfeita lição de administração, pois bastava ver o que ele fazia, e fazer o contrario, para se acertar.

Privados, assim, de apoio scientifico — pois a propria «Politica» de Aristoteles é mais uma collecção de apontamentos admiraveis do que uma obra scientificamente coherente —, não temos remédio senão entrar sosinhos, e sem mais recursos que a propria lógica, na investigação do problema.

Não vamos, porém, investigar quaes as leis fundamentais e eternas, pelas quais as sociedades se regem; tal empreza seria, simplesmente, a de escrever um tratado de sociologia. O nosso fim, como já se explicou, é apenas ver o problema em relação á practica; basta, portanto, no caso presente, que descubramos qual a lei, o principio que serve de esteio ás sociedades; se fôr na verdade fundamental, tal qual é nos servirá para o nosso fim practico.

Limitemos, ainda mais, o problema. Escusamos de procurar o principio fundamental de todas as especies de sociedades; basta que procuremos o que serve de base ás sociedades civilizadas ou progressivas. Mais do que isto não é preciso, pois a uma sociedade civilizada e progressiva (embora atrazada e perturbada) se hão de applicar, por fim, as nossas conclusões. Vemo-nos, assim, livres do que Summer Maine disse ser um problema capital da sociologia — qual a distinção fundamental entre as sociedades susceptiveis e as insusceptiveis de progresso?

Ora se considerarmos uma sociedade progressiva, a propria designação está dizendo que o seu principio fundamental se liga com o progresso. Escusamos de definir progresso; e assim nos vemos livres de um outro dos pesadellos da sociologia. Para o nosso caso, basta determinar a dynamica do progresso, sem examinar o conteúdo logico do termo.

O progresso, seja o que fôr, e quer se considere bom quer mau, é, com certeza, uma alteração, e uma alteração envolve o abandono de certos habitos, de certos costumes, de certas normas e attitudes que, por serem velhas, se tornaram queridas, e, por serem usuaes, se tornaram necessarias. A alteração chamada progresso incide, portanto, quando não sobre os instinctos, pelo menos sobre os habitos dos individuos, ou da maioria dos individuos, que compõem uma sociedade. Ora o homem, como todos os animaes, é essencialmente uma creatura de instinctos e de habitos; a sciencia psychologica terá descoberto pouco, mas isso, pelo menos, descobriu. A essencia do progresso é portanto uma coisa que choca os homens no que teem de mais humano; a attitude instinctiva da maioria dos homens perante o progresso é, portanto, a resistência a elle. A resistencia é grande, patente e forte, se a alteração que se tenta fazer é notavel e fere ou muitos habitos ou habitos muito arreigados; de ordinario, e na normalidade do progresso, como este é lento, a resistencia é fraca, e opera como freio e não como obstaculo.

Temos, pois, que, nas sociedades progressivas, o que ha de fundamental se resume em duas forças — uma que tende a fazer progredir, outra que tende a resistir ao progresso.

Ora a sciencia constata que tudo quanto vive, vive em virtude do equilibrio de duas forças — uma força de integração e uma força de desintegração. A vitalidade de qualquer sêr está na razão directa do equilibrio d’estas duas forças; com o desequilíbrio d’ellas, essa vitalidade diminue.

A sociedade, como é composta de entes vivos, é, evidentemente regida por esta mesma lei; e isto embora não se queira ter a sociedade por um organismo. Basta que seja composta de entes vivos para que lhe seja aplicada a lei fundamental da vida. Nós constatámos, nas sociedades progressivas, a existencia, precisamente, de duas forças. Applicando a este caso especial aquella lei geral, podemos já concluir que no equilibrio das forças de progresso e de resistencia ao progresso reside a vitalidade de uma nação.

É quanto precisavamos saber de fundamental. Resta agora que formemos uma idéa clara dos phenomenos que se dão em qualquer sociedade civilizada quando se dá uma ruptura de equilibrio pelo predominio de uma, ou de outra, d’aquellas duas forças.

Quando a ruptura de equilibrio se dá pelo predominio excessivo da força conservadora, dá-se uma estagnação, um entorpecimento, e o grau d’essa estagnação depende do grau do predomínio da força conservadora. Por atrazada, porém, que seja essa sociedade progressiva, algumas classes haverá, visto que ela é progressiva, que não estejam dispostas a aceitar essa estagnação. Essas classes buscarão progredir, instinctiva ou conscientemente, e esse seu exforço produzirá, tarde ou cedo, dois resultados funestos. O primeiro é que perderão o contacto com as classes estagnadas do paiz, dando-se assim uma quebra de cohesão social, e, portanto, uma baixa da vitalidade nacional, pela desintegração produzida; essa baixa de vitalidade, por sua vez, attingindo-os, ou aos seus descendentes, diminue-lhes tudo quanto trabalha para o progresso — o poder de pensar originalmente, a imaginação construtiva, a vontade directora. O segundo é que, perdido o contacto com as outras classes do paiz, os progressivos são fatalmente levados a viver mentalmente com o estrangeiro, e assim se desnacionalizam, abrindo ainda mais o abysmo entre elles e os outros, que, na sua estagnação, permanecem agarrados ao passado e às tradições nacionaes. E, quando a baixa de vitalidade nacional por fim attinge as classes progressivas, essa vida com o estrangeiro, perdidas já as qualidades que originam e orientam, transforma-se em servilismo desnacionalizado, em mimetismo idiota das coisas que veem de fôra.

Quando a ruptura de equilibrio se dá pela predominancia da corrente progressiva, acontece que as outras classes, não podendo acompanhar esse progresso (se o pudessem acompanhar não se rompia o equilibrio) e não se adaptando portanto a elle, passam a reagir violentamente, e o paiz cahe na anarchia. como do mesmo modo, que no caso contrario, um abysmo se abre entre as duas partes do paiz, temos a mesma perda de coesão e, portanto, de vitalidade nacional. E como uma d’essas partes, não coerindo com a outra, passa a viver mentalmente do estrangeiro, temos aqui tambem, mas em maior escala, o phenomeno de desnacionalização, que no caso opposto tambem se notou.

Ha, em dois pontos, similhança entre os resultados dos desequilibrios; em ambos os casos perda de cohesão e de vitalidade nacional, em ambos os casos desnacionalização de parte do paiz. A explicação é simples. É que esses phenomenos são os que caracterizam todas as decadencias, e as decadencias são, por igual, a estagnação em que uma sociedade super-conservadora se enterra, e a anarchia em que cahe uma sociedade super-progressiva.

No intuito, cuja razão já expliquei, de simplificar o problema, tenho estudado apenas os seus traços fundamentais. Isto não quer dizer que elle não seja, quando estudado com um fim puramente scientifico, muito mais complexo, e que não haja, nos periodos de estagnação, phenomenos de anarchia, nem nos de anarchia, phenomenos de estagnação. Esses phenomenos, porém, são, em cada um dos casos, secundarios; vinco apenas, em cada caso, o phenomeno fundamental e definidor.

Isto posto, passarei d’esta analyse geral ao estudo particular do problema portuguez.

*

Encarando o problema portuguez com o mesmo criterio, e, portanto, com o mesmo proposito de simplificação, constata-se, sem grande trabalho, que na nossa vida nacional se deu uma grande ruptura de equilibrio, e, muito depois, duas outras perturbações, de caracter secundario, e subsidiarias de aquela.

Onde quer que se colloque o inicio da nossa decadencia — da decadencia resultante do formidavel exforço com que realizámos as descobertas e as conquistas —, ahi se deve collocar o inicio da grande ruptura de equilíbrio, que se deu na vida nacional. Com a dispersão por todo o mundo, e a morte em tantos combates, precisamente d’aquelles elementos que criavam o nosso progresso, o nosso pequeno povo foi pouco a pouco ficando reduzido aos elementos apegados ao solo, aos que a aventura não tentava, a quantos representavam as forças que, em uma sociedade, instinctivamente reagem contra todo o avanço. É um dos casos mais visiveis da creação de uma predominancia das forças conservadoras. Com isto, visto á luz do que se explicou, queda revelado o porquê da nossa decadencia.

Todos os phenomenos se seguiram, que na devida altura detalhei, como o seguimento fatal da supertradicionalização. O que restava de progressivo desnacionalizou-se depressa. Cavou-se um abysmo entre esses e a maioria do paiz. Em uns e outros, o nivel intellectual, o nivel cultural, o nivel da vontade practica e útil foi baixando. Um ou outro homem de maior destaque surgia e desaparecia, e a sua obra, quando não morria com elle, morria pouco depois, pois não havia cohesão social, por onde se propagasse, nem interesse intellectual, por onde, ao menos, se mantivesse. A Restauração, livrando-nos da maior vergonha externa, não nos livrou, nem trouxe quem nos livrasse, da vergonha interna parallela. Ficámos independentes como paiz e dependentes como individuos. Tornámos a ser portuguezes de nacionalidade, mas nunca mais tornámos a ser portuguezes de mentalidade. Nem portuguezes, nem nada.

Só da obra do Marquez de Pombal alguma coisa ficou, e isso não pela energia do homem, nem mesmo pelas suas grandes qualidades de organizador, mas pelo ponto de apoio que deu a essa obra — o desenvolvimento industrial e commercial do paiz. No fim d’este estudo se verá a que vem esta observação. O que Pombal creou, porém, sumiu-se com as invasões francezas. Depois d’ellas a nossa desnacionalização teve o seu periodo abysmico: só o nome da nossa independencia nos ficou.

Pode, á primeira vista, parecer que a implantação do constitucionalismo representa uma reacção do espirito progressivo contra o peso do tradicionalismo. O constitucionalismo, porém, foi uma coisa muito differente: foi um simples phenomeno de desnacionalização. Longe de suspender a nossa decadencia, vincou bem que estavamos em decadencia. Uma reacção do espirito progressivo procuraria reformar a nossa antiga monarchia, procuraria estimular energias, modificar o nosso modo de não-ser economico. Reacção do espirito progressivo foi a obra de Pombal. O constitucionalismo, porém, não fez senão trazer-nos um regimen politico inteiramente estranho a toda a nossa vida nacional, inteiramente inadaptavel a todas as condições, materiaes como culturaes, da nossa verdadeira indole. Destruiu e expoliou inutil e estupidamente, tendo em mira apenas a nossa impossivel adaptação a um regimen que nenhum sentimento portuguez queria, e que a toda a intelligencia verdadeiramente portugueza instinctivamente repugnava. O resultado foi aquella politica que todos nós conhecemos, e que em oitenta anos o afundou. Foi isto o constitucionalismo — um 1640 feito por Miguel de Vasconcellos.

O unico bem, que o constitucionalismo trouxe, proveiu de um dos seus maiores males. As grandes convulsões sociais, as revoluções, as guerras civis, embora politicamente nada produzam, teem ao menos a vantagem de sacudir energias lethargicas; e é a este genero de mal do constitucionalismo que devemos a eclosão, no seculo passado, de individualidades de destaque relativo, se bem que innegavel. De obra politica, porém, não deixou senão um abysmo maior entre as classes sociaes e uma desnacionalização mais adeantada e corrupta.

O que se diz do constitucionalismo pode dizer-se, sem perigo de errar, da implantação da Republica. Nenhuma reacção do espirito progressivo a instaurou; foi um phenomeno, ainda mais adeantado, da nossa decadencia, da nossa desnacionalização. Se o regimen constitucional pouquissimo pontos de contacto tem com quanto em nós seja portuguez, a republica franceza que implantaram em Portugal não tem, então nenhuns. Uma reacção verdadeira do espirito progressivo, se achasse indispensavel acabar com o systema constitucional, só o teria feito para reconstruir o nosso antigo systema de regimen, ainda que o fizesse (conceda-se) sob uma forma republicana.

Dizer da Republica que a sua vinda foi motivada pelos erros e crimes do constitucionalismo vale o mesmo que se se dissesse que a vinda do constitucionalismo fora motivada pelos erros e crimes da velha monarchia; em ambos os casos a justificação é incompleta, pois esses erros e esses crimes podem ser razão para se deitar abaixo o que, com efeito, se derrubou, mas não teem nada que ver com o ter-se posto lá o que, nos dois casos, lá se poz.

Eis, pois, a nossa situação: fundamentalmente, uma ruptura de equilibrio social por predominancia dos elementos retrogrados e improgressivos; secundariamente, uma crescente desnacionalização, pois que a Republica levou o virus do estrangeirismo a um maior numero de classes do que a monarchia constitucional.

As condições do problema estão postas. Vamos, agora, á sua solução.

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É evidente que a organização reconstrutiva a dar a uma sociedade, onde se deu uma ruptura de equilibrio varía consoante se trate de uma ruptura de equilibrio por superprogressivismo, ou por supertradicionalização. A supertradicionalização é um mal mais fundo, mas menos grave, que o excesso de espirito progressivo. O ponto é intuitivo: é mais facil fazer ir para a frente mais depressa quem para lá vai indo muito devagar, do que fazer voltar atraz quem vae indo para a frente muito depressa. A base mental da supertradicionalização é a falta de educação e de vitalidade do espirito, no geral do povo; e, nas classes desnacionalizadas, uma educação escassa e viciada. A base mental do desequilibrio opposto, é, em todas as classes, uma educação viciada, de onde deriva a acção excessiva de umas e a reacção violenta de outras. Ora o resultado psychico de uma falta de educação é a ignorancia, a estupidez, a falta de interesse, a carencia de attenção e de vontade; o remedio a empregar deve atingir, portanto, directamente, as qualidades intellectuaes, deve ser de ordem a produzir uma transformação mental da maioria do povo, de todo o povo mesmo, pois, produzida que seja na maioria apathica, esta ou vitaliza ou esmaga a minoria desnacionalizada. Na educação viciada o caso é diferente, porque a educação viciada attinge primordialmente os sentimentos, e dá, marcantemente a perversão do caracter; aqui, como é de vêr, o remédio deve incidir directamente sobre os sentimentos, sobre as qualidades affectivas. Na supertradicionalização, a decadencia revela-se directamente pela estagnação e o atrazo, e apenas secundariamente pela descohesão social e pelo estrangeirismo; o remedio, portanto, sobre dever ser um transformador mental, deve ser directamente adaptado a quebrar o atrazo da nação. No superprogressivismo, a decadencia revela-se directamente pela anarquia e a desnacionalização; o remedio, nesse caso, sobre dever ser um transformador affectivo, deve tender directamente a unir as classes desunidas e fortalecer o patriotismo de todas.

No caso do superprogressivismo, o remedio é já patente. Há só um processo de transformar affectivamente uma nação inteira, aproximando, ao mesmo tempo, as classes desunidas e fortalecendo o patriotismo. Esse remedio é a guerra — uma guerra qualquer, preferivelmente justa, em que violentamente se lance a nação. E’, sem dúvida, o processo germanico, a doutrina germanica. Mas isso é para mim uma garantia de que este raciocinio seguiu certo. Sempre que, em matéria de organização, uma theoria é bem pensada, leva-nos a uma conclusão que os allemães já praticaram.

O caso do remedio para o excesso de espirito progressivo não é, porém, o que nos interessa.

No caso do superconservantismo, o remedio a applicar tem de ser um transformador mental, criador de interesse e de energia, e, ao mesmo tempo, uma cura para o atrazo da nação. Ora ha só um genero de transformação, applicavel a uma nação inteira, e pela qual se lhe avive o espirito e se lhe desperte interesse e vontade: é uma transformação profissional. E, como se trata de um paiz atrazado, e todos os paizes atrazados são predominantemente agricolas, é evidente que a unica transformação profissional a fazer, e que preenche todas as condições exigidas, é a industrialização systematica do pais.

Educação simultaneamente da intelligencia e da vontade, transformador ao mesmo tempo da mentalidade geral e do atrazo material do paiz, o industrialismo systematico, systematicamente applicado, é o remedio para as decadencias de atrazo, é, portanto, o remedio para o mal de Portugal. E se, de ha muito, esse remedio nos tem sido necessario, na conjunctura presente, em que, pelas condições da industria moderna, pode ser rapido e, pelas condições geraes da civilização, tem que ser urgente, passa de ser uma necessidade para ser a primeira de todas as necessidades.

Detalhar esse plano fundamental, assentar as suas bases practicas, estabelecer o modo de lhe dar realização — nenhuma d’estas cousas é objecto d’este estudo, ou assumpto da minha competencia. O que me cabia fazer está feito.

Fernando Pessoa

  • Namen

    • Aristóteles
    • Françoise Babeuse
    • Henry Sumner Maine
    • Marquês de Pombal
    • Miguel de Vasconcelos
    • Niccolò Machiavelli

    Titel

    • Politica