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Aviso por causa da moral

Alvaro de Campos

Lisboa, Fevereiro/Março de 1923, 1p.

  • AVISO POR CAUSA DA MORAL

    Quando o publico soube que os estudantes de Lisboa, nos intervallos de dizer obscenidades ás senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciencia. Sim ‒ exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor...

    Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que teem, boas ou más ‒ boas ou más, que a gente nunca sabe com quaes é que vae para o Diabo.

    Os moços da vida das escolas intromettem-se com os escriptores que não passam pela mesma razão porque se intromettem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de eu lh'a dizer, tambem a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometteriam nem com as senhoras nem com os escriptores.

    Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem sciencias, se estudam sciencias; estudem artes, se estudam artes; estudem lettras, se estudam lettras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

    Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possivel.

    Porque ha só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, e é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguem de mais edade a pode commetter.

    Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o logar onde mais por acaso estamos presentes.

    Europa, 1923

    ALVARO DE CAMPOS

  • AVISO POR CAUSA DA MORAL

    Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim — exatamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor...

    Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más — boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.

    Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de eu lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

    Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

    Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível.

    Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, e é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.

    Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.

    Europa, 1923

    ÁLVARO DE CAMPOS

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