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Luís de Montalvor

Fernando Pessoa

O Imparcial, 13 de janeiro de 1927.

Luiz de Montalvôr

Ha duas espécies de poetas – os que pensam o que sentem, e os que sentem o que pensam. A terceira espécie apenas pensa ou sente, e não escreve versos, sendo por isso que não existe.

Aos poetas que pensam o que sentem chamamos românticos; aos poetas que sentem o que pensam chamamos classicos. A definição inversa é igualmente aceitavel.

Em Luiz de Montalvôr (Luiz da Silva Ramos), autor de um livro Poemas a aparecer em breve, a sensibilidade se confunde com a inteligencia – como em Mallarmé, porém diferentemente – para formar uma terceira faculdade da alma, infiel ás definições. Tanto podemos dizer que ele poensa o que sente, como que sente o que pensa. Realiza, como nenhum outro poeta vivo, nosso ou estranho, a harmonia entre o que a razão nega e o que a sensibilidade desconhece. O resultado – poemas subtis, irreais, quasi todos admiraveis – pode confundir os que esperam encontrar na originalidade um velho conhecimento, e no imprevisto o que já sabiam. Mas para os que esperam o que nunca chega, e por isso o alcançam, a surpresa dos seus versos é a surpresa da propria inteligencia em se encontrar sempre diferente de si mesma, e em verificar sempre de novo que cada homem é, em sua essencia, um conceito do universo diferente de todos os outros. E como, visto que tudo é essencialmente subjectivo, um conceito do universo é ele mesmo o proprio universo, cada homem é essencialmente criador. Resta que saiba que o é, e que saiba mostrar que o sabe: é a essa expressão, quando profunda, que chamamos poesia.

Não nos ilude Luiz de Montalvôr na expressão essencial dos seus versos: vive num mundo seu, como todos nós; mas vive com ida num mundo seu, ao passo que a maioria, em verso ou prosa, morre o universo que involuntariamente cria.

Palavras estranhas, porém verdadeiras. Como poderiam ser verdadeiras se não fôssem estranhas?

FERNANDO PESSOA

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    • Luís de Montalvor
    • Stéphane Mallarmé