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Mar Português

Fernando Pessoa

Contemporânea 4, outubro de 1922, pp. 9-14.

Leitura para todos — Revista mensal ilustrada 83, junho de 1926, pp. 22-26.

Revolução, 16 de junho de 1933.

  • MAR PORTUGUEZ

    I

    O INFANTE

    Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
    Deus quiz que a terra fosse toda uma,
    Que o mar unisse, já não separasse.
    Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
    E a orla branca foi de ilha em continente,
    Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
    E viu-se a terra inteira, de repente,
    Surgir, redonda, do azul profundo.
    Quem te sagrou creou-te portuguez.
    Do mar e nós em ti nos deu signal.
    Cumpriu-se o Mar, e o Imperio se desfez.
    Senhor, falta cumprir-se Portugal!

    II

    HORIZONTE

    Ó mar anterior a nós, teus medos
    Tinham coral e praias e arvoredos!
    Desvendadas a noite e a cerração,
    As tormentas passadas, e o mysterio,
    Abria em flor o Longe, e o Sul siderio
    Splendia sobre as náos da iniciação.
    Linha severa da longinqua costa —
    Quando a náo se approxima, ergue-se a encosta
    Em arvores onde o Longe nada tinha;
    Mais perto abre-se a terra em sons e côres;
    E no desembarcar ha aves, flores,
    Onde eraLeitura, 1926:será só, de longe a abstracta linha.
    O sonho é ver as formas invisiveis
    Da distancia imprecisa, e, com sensiveis
    Movimentos da esp’rança e da vontade,
    Buscar na linha fria do horizonte
    A arvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
    Os beijos merecidos da Verdade.

    III

    PADRÃO

    O exforço é grande e o homem é pequeno.
    Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
    Este padrão ao pé do areal moreno

    E para deante naveguei.


    A alma é divina e a obra é imperfeita.
    Este padrão signala ao vento e aos céos
    Que, da obra ousada, é minha a parte feita;Contemporânea, 1922::

    O por-fazer é só com Deus.


    E ao immenso e possivel oceano
    Ensinam estas quinas, que aqui vês,
    Que o mar com fim será grego ou romano:

    O mar sem fim é portuguez.


    E a cruz ao alto diz que o que me ha na alma
    E faz a febre em mim de navegar
    Só encontrará de Deus na eterna calma

    O porto sempre por achar.


    IV

    O MORCEGO

    O morcego que está no fim do mar
    Na noite de breu ergueu-se a voar,
    Á roda da nao voou trez vezes,
    Voou tres vezes a chiar,
    E disse: "Quem é que ousou entrar
    Nas minhas cavernas que não desvendo,
    Meus tectos negros do fim do mundo?"
    E o homem do leme disse tremendo,

    "El-Rei Dom João Segundo!"


    "De quem são as velas onde me róço?
    De quem as quilhas que vejo e ouço?"
    Disse o morcego, e rodou tres vezes,
    Tres vezes rodou immundo e grosso,
    "Quem vem poder o que só eu posso,
    Que móro onde nunca ninguem me visse
    E escorro os medos do mar sem fundo?"
    E o homem do leme tremeu, e disse:

    «El-Rei Dom João Segundo!»


    Tres vezes do leme as mãos ergueu,
    Tres vezes ao leme as reprendeu,
    E ao monstro que volta disse tres vezes,
    "Aqui ao leme sou mais que eu:
    Sou um Povo que quer o mar que é teu!
    E mais que o morcego, que me a alma teme
    E roda nas trevas do fim do mundo,
    Manda a vontade, que me ata ao leme,

    D’El-Rei Dom João Segundo!"


    V

    EPITAPHIO DE BARTHOLOMEU DIAS

    Jaz aqui, na pequena praia extrema,
    O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
    O mar é o mesmo: já ninguem o tema!
    Atlas, mostra alto o mundo no seu hombro.

    VI

    IRONIA

    Faz um a casa onde outro poz a pedra.
    O gallego Colón, de Pontevedra,
    Seguiu-nos para onde nós não fomos.
    Não vimos da nossa arvore esses pomos.
    Um imperio ganhou para Castella,
    Para si gloria merecida — aquella
    De um grande longe aos mares conquistado.
    Mas não ganhou o tel-o começado.

    VII

    OS DESCOBRIDORES DO OCCIDENTE

    Com duas mãos, o Acto e o Destino,
    Desvendámos. No mesmo gesto, ao céo
    Uma ergue o facho tremulo e divino,

    E a outra afasta o véo.


    Fosse a hora propicia ou a força friaLeitura, 1926:acaso, ou vontade, ou temporal,
    A mão que o Oeste a estes entregou,
    Foi alma a Sciencia e Leitura, 1926:o corpo a Ousadia

    Da mão que consummou.


    Fosse Acaso, ou Vontade, ou TemporalLeitura, 1926:acaso, ou vontade, ou temporal,
    A mão que a estes o Occidente abriu,
    Foi Deus a alma e o corpo Portugal

    Da mão que o conduziu.


    VIII

    DANÇA DOS TITANS

    No valle clareia uma fogueira,
    Uma dansa sacode a terra inteira,
    E sombras disformes e descompostas
    Em clarões negros do valle vão
    Subitamente pelas encostas
    E vão perder-se na escuridão.
    De quem é a dansa que a noite aterra?
    São os titans, os filhos da Terra,
    Que dançam á morte do marinheiro
    Que quiz cingir o materno vulto,
    Ser circumnavegador primeiro,
    Na praia ao longe por fim sepulto.
    Dansam, nem sabem que a alma ousada
    Do morto ainda commanda a armada,
    Pulso sem corpo ao leme a guiar
    As náos no resto do fim do espaço;
    Que mesmo ausente soube cercar
    A terra inteira com seu abraço!
    Violou a terra. Mas elles não
    O sabem, e dansam na escuridão;
    E sombras disformes e descompostas,
    Indo perder-se nos horizontes,
    Galgam do valle pelas encostas
    Dos mudos montes.

    IX

    ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA

    Os deuses da tormenta e os gigantes da terra
    Suspendem de repente o odio da sua guerra
    E pasmam. Pelo valle onde se ascende aos céos
    Surge um silencio, e vae, da nevoa ondeando os véos,
    Primeiro um movimento e depois um assombro.
    Ladeiam-o, ao durar, os medos, hombro a hombro,
    E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
    Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
    Cae-lhe, e em extase vê, á luz de mil trovões,
    O céo abrir o abysmo á alma do Argonauta.

    X

    MAR PORTUGUÊS

    Ó mar salgado, quanto do teu sal

    São lagrimas de Portugal!


    Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

    Quantos filhos em vão rezaram!


    Quantas noivas ficaram por casar

    Para que fosses nosso, ó mar!


    Valeu a pena? Tudo vale a pena

    Se a alma não é pequena!


    Quem quer passar além do Bojador

    Tem que passar além da dor.


    Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,

    Mas nelle é que espelhou o céo.


    XI

    A ULTIMA NAO

    Levando a bordo El-ReiContemporânea, 1922:el-rei Dom Sebastião,
    E erguendo, como um nome, alto, o pendãoContemporânea, 1922:,

    Do Imperio,


    Foi-se a ultima náo, ao sol aziago
    Erma, e entre choros de ansia e de presago

    Mysterio.


    Não voltou mais. A que ilha indescoberta
    Aportou? Volverá da sorte incerta

    Que teve?


    Deus guarda o corpo e a fórma do futuro,
    Mas sua luz projecta-o,Leitura, 1926: sonho escuro

    E breve.


    Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
    Mais a minh’alma atlantica se exalta

    E entorna,


    E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,
    Vejo,Contemporânea, 1922: entre a cerração,Contemporânea, 1922: teu vulto baço

    Que torna.


    Não sei a hora, mas sei que ha a hora,
    Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora

    Mysterio.


    Surges ao sol em mim, e a nevoa finda,
    A mesma, e trazes o pendão ainda

    Do Imperio.


    XII

    PRECE

    Senhor, a noite veiu e a alma é vil.
    Tanta foi a tormenta e a vontade!
    Restam-nos hoje, no silencio hostil,
    O mar universal e a saudade.
    Mas a chama, que a vida em nós creou,
    Se ainda ha vida ainda não é finda;
    O frio morto em cinzas a occultou;
    A mão do vento póde erguel-a ainda.
    Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ansia —
    Com que a chama do esforço se remóça,
    E outra vez conquistemos a Distancia —
    Do mar ou outra, mas que seja nossa!

    FERNANDO PESSOA

    A sequência “Mar Portuguez” foi publicada, sob o mesmo título, com algumas diferenças ortográficas, de pontuação e conteúdo, em Contemporânea, n.º 4, Outubro de 1922, Leitura para todos – Revista mensal illustrada, n.º 83, Junho de 1926 e Revolução, 16 de Junho de 1933. Apresentamos as imagens dos dois primeiros jornais e aguardamos a disponibilização das imagens do último. Foi ainda republicada no livro Mensagem (Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934), igualmente com variações ortográficas, de pontuação e conteúdo. O poema “Ironia” não foi incluído no livro, sendo substituído por “Os Colombos”. O texto aqui apresentado privilegia nos casos de variantes substantivas a versão de Contemporânea, seguida igualmente pelo autor no livro publicado.

    O poema “Prece“ foi republicado em O “Notícias” Ilustrado, 20 de Janeiro de 1929, p. 7, com diferenças ortográficas e de pontuação.

    Os poemas I, IV e XII foram republicados sob o título de conjunto “Do livro Mensagem” (Diário de Lisboa, 14 de Dezembro de 1934, p. 5). Para além de diferenças ortográficas e de pontuação, o poema IV é aí publicado sob o título “O Mostrengo”, apresentando variantes em diversos versos.

  • MAR PORTUGUÊS

    I

    O INFANTE

    Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
    Deus quis que a terra fosse toda uma,
    Que o mar unisse, já não separasse.
    Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
    E a orla branca foi de ilha em continente,
    Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
    E viu-se a terra inteira, de repente,
    Surgir, redonda, do azul profundo.
    Quem te sagrou criou-te português.
    Do mar e nós em ti nos deu sinal.
    Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
    Senhor, falta cumprir-se Portugal!

    II

    HORIZONTE

    Ó mar anterior a nós, teus medos
    Tinham coral e praias e arvoredos!
    Desvendadas a noite e a cerração,
    As tormentas passadas, e o mistério,
    Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
    Esplendia sobre as naus da iniciação.
    Linha severa da longínqua costa —
    Quando a nau se aproxima, ergue-se a encosta
    Em árvores onde o Longe nada tinha;
    Mais perto abre-se a terra em sons e cores;
    E no desembarcar há aves, flores,
    Onde eraLeitura, 1926:será só, de longe a abstrata linha.
    O sonho é ver as formas invisíveis
    Da distância imprecisa, e, com sensíveis
    Movimentos da esp’rança e da vontade,
    Buscar na linha fria do horizonte
    A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
    Os beijos merecidos da Verdade.

    III

    PADRÃO

    O esforço é grande e o homem é pequeno.
    Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
    Este padrão ao pé do areal moreno

    E para diante naveguei.


    A alma é divina e a obra é imperfeita.
    Este padrão assinala ao vento e aos céus
    Que, da obra ousada, é minha a parte feita;Contemporânea, 1922::

    O por-fazer é só com Deus.


    E ao imenso e possível oceano
    Ensinam estas quinas, que aqui vês,
    Que o mar com fim será grego ou romano:

    O mar sem fim é português.


    E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
    E faz a febre em mim de navegar
    Só encontrará de Deus na eterna calma

    O porto sempre por achar.


    IV

    O MORCEGO

    O morcego que está no fim do mar
    Na noite de breu ergueu-se a voar,
    À roda da nau voou três vezes,
    Voou três vezes a chiar,
    E disse: ʺQuem é que ousou entrar
    Nas minhas cavernas que não desvendo,
    Meus tetos negros do fim do mundo?ʺ
    E o homem do leme disse tremendo,

    ʺEl-Rei Dom João Segundo!ʺ


    ʺDe quem são as velas onde me roço?
    De quem as quilhas que vejo e ouço?ʺ
    Disse o morcego, e rodou três vezes,
    Três vezes rodou imundo e grosso,
    ʺQuem vem poder o que só eu posso,
    Que moro onde nunca ninguém me visse
    E escorro os medos do mar sem fundo?ʺ
    E o homem do leme tremeu, e disse:

    «El-Rei Dom João Segundo!»


    Três vezes do leme as mãos ergueu,
    Três vezes ao leme as reprendeu,
    E ao monstro que volta disse três vezes,
    ʺAqui ao leme sou mais que eu:
    Sou um Povo que quer o mar que é teu!
    E mais que o morcego, que me a alma teme
    E roda nas trevas do fim do mundo,
    Manda a vontade, que me ata ao leme,

    D’El-Rei Dom João Segundo!ʺ


    V

    EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS

    Jaz aqui, na pequena praia extrema,
    O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
    O mar é o mesmo: já ninguem o tema!
    Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.

    VI

    IRONIA

    Faz um a casa onde outro pôs a pedra.
    O galego Colón, de Pontevedra,
    Seguiu-nos para onde nós não fomos.
    Não vimos da nossa árvore esses pomos.
    Um império ganhou para Castela,
    Para si glória merecida — aquela
    De um grande longe aos mares conquistado.
    Mas não ganhou o tê-lo começado.

    VII

    OS DESCOBRIDORES DO OCIDENTE

    Com duas mãos, o Ato e o Destino,
    Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu
    Uma ergue o facho trémulo e divino,

    E a outra afasta o véu.


    Fosse a hora propícia ou a força friaLeitura, 1926:acaso, ou vontade, ou temporal,
    A mão que o Oeste a estes entregou,
    Foi alma a Ciência e Leitura, 1926:o corpo a Ousadia

    Da mão que consumou.


    Fosse Acaso, ou Vontade, ou TemporalLeitura, 1926:acaso, ou vontade, ou temporal,
    A mão que a estes o Ocidente abriu,
    Foi Deus a alma e o corpo Portugal

    Da mão que o conduziu.


    VIII

    DANÇA DOS TITÃS

    No vale clareia uma fogueira,
    Uma dança sacode a terra inteira,
    E sombras disformes e descompostas
    Em clarões negros do vale vão
    Subitamente pelas encostas
    E vão perder-se na escuridão.
    De quem é a dança que a noite aterra?
    São os titãs, os filhos da Terra,
    Que dançam à morte do marinheiro
    Que quis cingir o materno vulto,
    Ser circum-navegador primeiro,
    Na praia ao longe por fim sepulto.
    Dançam, nem sabem que a alma ousada
    Do morto ainda comanda a armada,
    Pulso sem corpo ao leme a guiar
    As naus no resto do fim do espaço;
    Que mesmo ausente soube cercar
    A terra inteira com seu abraço!
    Violou a terra. Mas eles não
    O sabem, e dançam na escuridão;
    E sombras disformes e descompostas,
    Indo perder-se nos horizontes,
    Galgam do vale pelas encostas
    Dos mudos montes.

    IX

    ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA

    Os deuses da tormenta e os gigantes da terra
    Suspendem de repente o ódio da sua guerra
    E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
    Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
    Primeiro um movimento e depois um assombro.
    Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
    E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
    Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
    Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
    O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.

    X

    MAR PORTUGUÊS

    Ó mar salgado, quanto do teu sal

    São lágrimas de Portugal!


    Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

    Quantos filhos em vão rezaram!


    Quantas noivas ficaram por casar

    Para que fosses nosso, ó mar!


    Valeu a pena? Tudo vale a pena

    Se a alma não é pequena!


    Quem quer passar além do Bojador

    Tem que passar além da dor.


    Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

    Mas nele é que espelhou o céu.


    XI

    A ÚLTIMA NAU

    Levando a bordo El-ReiContemporânea, 1922:el-rei Dom Sebastião,
    E erguendo, como um nome, alto, o pendãoContemporânea, 1922:,

    Do Império,


    Foi-se a última nau, ao sol aziago
    Erma, e entre choros de ânsia e de pressago

    Mistério.


    Não voltou mais. A que ilha indescoberta
    Aportou? Volverá da sorte incerta

    Que teve?


    Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
    Mas sua luz projeta-o,Leitura, 1926: sonho escuro

    E breve.


    Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
    Mais a minhʼalma atlântica se exalta

    E entorna,


    E em mim, num mar que não tem tempo ou espaço,
    Vejo,Contemporânea, 1922: entre a cerração,Contemporânea, 1922: teu vulto baço

    Que torna.


    Não sei a hora, mas sei que há a hora,
    Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora

    Mistério.


    Surges ao sol em mim, e a névoa finda,
    A mesma, e trazes o pendão ainda

    Do Império.


    XII

    PRECE

    Senhor, a noite veio e a alma é vil.
    Tanta foi a tormenta e a vontade!
    Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
    O mar universal e a saudade.
    Mas a chama, que a vida em nós criou,
    Se ainda há vida ainda não é finda;
    O frio morto em cinzas a ocultou;
    A mão do vento pode erguê-la ainda.
    Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —
    Com que a chama do esforço se remoça,
    E outra vez conquistemos a Distância —
    Do mar ou outra, mas que seja nossa!

    FERNANDO PESSOA

    A sequência “Mar Portuguez” foi publicada, sob o mesmo título, com algumas diferenças ortográficas, de pontuação e conteúdo, em Contemporânea, n.º 4, Outubro de 1922, Leitura para todos – Revista mensal illustrada, n.º 83, Junho de 1926 e Revolução, 16 de Junho de 1933. Apresentamos as imagens dos dois primeiros jornais e aguardamos a disponibilização das imagens do último. Foi ainda republicada no livro Mensagem (Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934), igualmente com variações ortográficas, de pontuação e conteúdo. O poema “Ironia” não foi incluído no livro, sendo substituído por “Os Colombos”. O texto aqui apresentado privilegia nos casos de variantes substantivas a versão de Contemporânea, seguida igualmente pelo autor no livro publicado.

    O poema “Prece“ foi republicado em O “Notícias” Ilustrado, 20 de Janeiro de 1929, p. 7, com diferenças ortográficas e de pontuação.

    Os poemas I, IV e XII foram republicados sob o título de conjunto “Do livro Mensagem” (Diário de Lisboa, 14 de Dezembro de 1934, p. 5). Para além de diferenças ortográficas e de pontuação, o poema IV é aí publicado sob o título “O Mostrengo”, apresentando variantes em diversos versos.