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“António Botto e o ideal estético criador”, posfácio de "Cartas que me foram devolvidas", de António Botto

Fernando Pessoa

Cartas que me foram devolvidas, 1932.

  • ANTÓNIO BOTTO
    E O IDEAL
    ESTÉTICO
    CREADOR

    ESTUDO CRÍTICO DE
    FERNANDO PESSOA

    ANTÓNIO BOTTO é o único poeta português, dos que sabemos que existem, a quem a designação de esteta se póde aplicar distintivamente, isto é, como definição bastante, sem acrescimo nem restrição. É êste o teorema; o dim dêste breve estudo é demonstrá-lo.

    Todo poeta, porque todo artista, é forçosamente esteta, pois esteta significa, primáriamente, cultor da beleza, e todo artista, e portanto todo poeta, é, pelo menos, cultor da beleza pela criação dela. Ha, porém, poetas, e artistas, que criam beleza por um movimento íntimo espontâneo, em que a idéa de beleza não figura como elemento determinante: assim um Byron ou um Shelley olha menos à beleza possível do que cria ao aliviar a alma do peso de uma emoção, e a criação da beleza é mais parte do alivio que preocupação directa. Outros ha que, escravos embora da beleza, são todavia, no mesmo tempo, subditos de outras preocupações, como a religiosa em Dante e Milton, e a psicológica em Shakespeare. Os primeiros não são inteiramente estetas; os segundos não o são exclusivamente. Em quási todos os casos, a palavra esteta é larga ou estreita de mais para definir o poeta. Define, bem ou mal, sómente parte do seu espírito: só o inconsciente no primeiro caso exemplificado; só parte do consciente no segundo.

    Designo por esteta, como é de sentir no que vai dito, o homem que faz consistir na contemplação da beleza, distinta da criação dela, tôda aquela sua atitude crítica da vida a que chamamos o ideal; e que, por nessa contemplação concentrar o seu ideal todo, não admite nêste nem elementos intelectuais, nem elementos morais, nem, enfim, elementos de qualquer ordem que não seja a contemplativa. Deduz-se disto que, por natureza e definição, o esteta própriamente tal, não é artista, pois que não é criador. Ora o caso de António Botto é que, sendo evidentemente criador, pois que é artista, é também demonstravelmente o tipo do esteta. Consubstancia-se com o tipo de que se afasta. Nisto, quando em mais não fosse, reside o interesse do caso e o da analise dele.

    Nasce o ideal do nosso convencimento da imperfeição da vida: consiste na idéa de perfeição que derivamos, por contraste, da maneira como concebemos essa imperfeição. Ora é de trez maneiras que podemos ter qualquer coisa, e portanto a vida, por imperfeita. Um exemplo, como sempre, dil-o-ha, primeiro, melhor que uma definição.

    Suponha-se que tenho uma oficina, sem uso possível de energia electrica, e que para ela preciso de um motor de determinada fôrça. Um fabricante oferece-me um motor exactamente do tipo e da fôrça de que preciso, porém de estructura defeituosa: rejeito êsse motor por imperfeito. Outro fabricante oferece-me um motor do tipo de que preciso e de bôa estructura, porém de metade da fôrça; rejeito êsse motor por insuficiente. Um terceiro fabricante oferece-me um motor da fôrça de que preciso e de bôa estructura, porém electrico: rejeito êsse motor por errado. Cada um dos trez motores é imperfeito para o fim a que eu o destinaria; cada um porém o é de sua maneira, e em cada caso a imperfeição se nota por uma comparação. No primeiro caso, a noção de imperfeição resulta de comparar o motor com êle mesmo, pois o mesmo motor serviria se fosse perfeito; no segundo caso, de o comparar com um motor semelhante mas superior, isto é, diferente dentro da semelhança; no terceiro caso, de o comparar com um motor inteiramente diferente.

    Pelo primeiro dos trez critérios, aplicando-o ao conjunto da vida, tel-a-hemos por imperfeita por comparação com ela mesma: falece naquilo mesmo por que se define, não é aquilo mesmo que por natureza deveria ser. Todo corpo é imperfeito porque, sendo corpo, não é perfeito como corpo; tôda vida imperfeita porque, durando por essencia, não dura sempre, e durar-sempre seria a perfeição de durar; tôda a compreensão imperfeita porque, quanto mais se expande, em maiores fronteiras confina com o incompreensivel que a cerca. Desta crítica do real, se a fizermos, tiraremos, por contraste, a nossa noção do ideal. Quizeramos que aquele corpo, sem deixar de ser aquele corpo, fosse aquele corpo com perfeição. Quizeramos que aquela mocidade, sem ser outra espécie de mocidade, durasse assim tal qual é; que aquele prazer, sem parar nem ser outro, tivesse por eterno o momento em que é um prazer que passa. Quizeramos que aquela compreensão, sem precisar de mais vôo para compreender, abarcasse, num só grande abrir de asas, o espaço inteligivel de tudo. Quizeramos, em suma, não uma vida perfeita, mas a perfeição da vida.

    Ora a perfeição de uma coisa em si mesma resulta da sua absoluta identificação com a sua própria substancia — com a sua matéria, se a sua substancia é material; com a sua fórma, se a sua substancia é formal; com o seu fim, se a sua substancia é ter um fim. E como este perfeito ajustamento, que, quando externo, se chama equilibrio, se chama, quando externo, harmonia, convém ao ideal, que nêle se funde, o nome de ideal harmónico. Como, porém, foram os gregos os que não só criaram êste ideal, mas mais intimamente o incarnaram, e como era o deus Febo, ou Apolo, quem para êles o figurava na vida (pois na inteligencia o figurava Atena), chamaremos a êste ideal o ideal apolineo.

    Pelo segundo dos três critérios, aplicando-o de igual modo, teremos a vida por imperfeita por a compararmos com uma vida maior; por, sendo vida, não ser contudo vida bastante. O conceito aqui é duplo: podemos querer mais vida em quantidade, ou mais vida em qualidade — esta vida multiplicada, ou esta vida superada; esta excedida, ou esta transcendida. No primeiro conceito a vida é pouca; no segundo conceito a vida é pouco. Pelo primeiro conceito, ser-nos-á ideal a vida em qualquer expansão, violenta ou desvairada, em que, sem se esquecer de si, se exceda. Pelo segundo conceito, ser-nos-á ideal uma vida que transcenda esta em qualidade, e que, por isso mesmo, em natureza se lhe oponha. Ao primeiro ideal, porque é da embriaguês da vida, chamaremos dionisiaco; ao segundo, porque é da transcendência dela, chamaremos cristão.

    Os dois ideais, que nascem dêstes dois conceitos, são em substância o mesmo ideal: são produtos do mesmo critério, efeito da mesma causa. Um é quantitativo, o outro qualitativo; mas qualidade e quantidade, na mesma matéria, são sòmente dois aspectos dela, como os aspectos concavo e convexo da mesma superfície curva. Quando a água passa, em temperatura, de 99 para 100 gráus centígrados, converte-se em vapor: mudou de quantidade em temperatura, mudou de qualidade em estado, o fenómeno foi só um. Mas estes dois ideais são idênticos, não só pela igual origem, senão também pelo modo igual em que se diferençam do ideal apolineo. Aquele é harmónico e natural; estes desarmónicos e misticos. Aquele assenta na aceitação da vida; estes, de um modo e de outro, na comum negação dela. Baco e Cristo são, aliás, em certo grau do entendimento oculto, duas formas do mesmo deus. «Cristo Baquico» diz a inscrição por baixo da figura crucificada na joia antiga do Museu de Berlim.

    Idênticos na matéria, estes dois ideais são contudo, não só diferentes, mas opostos, na forma: são, repetindo a imagem e o exemplo, como os aspectos opostos, o concavo e o convexo, da mesma superfície curva; como Baco e Cristo na ordem externa. Para o dionisiaco a vida é simplesmente estreita; para o cristão a vida é vil. Para um é uma jaula, de onde há que fugir para os campos, que não são mais seus que a jaula; para o outro uma estalagem, suja e alheia, onde espera ter que estar pouco, voltando à casa que é sua.

    Para o dionisiaco, dissemos, a vida é simplesmente estreita. Todo corpo é imperfeito porque é um só corpo, que não todos; tôda alma imperfeita porque é uma só alma, que não o conjunto das almas ou a alma universal do mundo. Não podermos pensar tudo, sentir tudo, ser tudo! Não haver uma emoção que possa ser todas as emoções, ou que, ao menos, pela sua intensidade, a todas valha, ainda que nos endoideça! E assim pensando, assim sentindo, o dionisiaco forma um de dois ideais, conforme o oriente a sua índole; ou viver, com o máximo de intensidade, o máximo possível da vida; ou, refugiando-se no sonho, vivê-la ali total, ainda que ficticia. Sim, porque o sonhador, se faz a vida consistir no sonho, não é mais que um dionisiaco subjectivo. E esta forma do ideal dionisiaco está já, pela subjectividade, a meio-caminho do ideal mistico, que é o verdadeiro ideal cristão. Que é, aliás, a meditação do mistico ― visto que não é raciocínio ― senão um sonho que esqueceu o nome?

    Para o cristão, dissemos, a vida é vil. O símbolo desta vida é o corpo, visto que é aquilo em que somos desta vida. E que é o corpo? Uma coisa sujável, retalhável, senescível; uma coisa que, quando, pela morte, fica a sós, assume logo o máximo da vileza, que é a podridão. Tudo quanto nêle vale, como a beleza, vale só pela alma que o anima; cessando esta nêle, tudo isso nêle cessa. Só a alma, pois, que, por ser incorporea, podemos considerar um corpo infinito, e, por infinito, eterno e perfeito — só essa, e Deus que a creou, e a quem ela se assemelha, são a verdade e a vida. A essência dêste ideal é o ser espiritualista; devemo-lo, expresso, a Platão, em cuja doutrina todo espiritualismo se filia. Como, porém, é aquele platonismo judaizado a que chamamos cristianismo que com mais clara plenitude incarna, mistica e asceticamente, o espiritualismo, chamámos a êste ideal o ideal cristão.

    Pelo último dos três critérios, aplicando-o como aplicámos os outros, teremos a vida por imperfeita por a compararmos com uma vida, a verdadeira, inteiramente, substâncialmente, diferente dela. Esta vida será um êrro; será vil, se vil, não tanto com a vileza do que é vil, quanto com a vileza do que é falso. Como, porém, o que há de inteiramente, de substâncialmente, diferente da vida é aquilo que chamamos morte, temos que, por êste critério, ou não há senão morte, e a mesma vida é morte, ou o que chamamos morte é a verdadeira vida.

    Se não há senão morte, a vida é vida só por aparência; não é senão morte falsificada, fogo-fatuo pairando filho sôbre a podridão-nata do universo. Tudo é nada, o Nada é tudo: só Caos é Deus e a Vida é o seu profeta. O ideal que de aqui resulta é o não haver ideal possível, pois é o não haver nada possível. E porque o Caos define bem a alma dêste critério, chamaremos ao ideal, ou negação de ideal, que dêle resulta, o ideal caotico.

    Se porém aquilo que chamamos morte, ou seja a negação da vida, é que verdadeiramente é a vida, então teremos por ideal uma vida que é a negação desta ― não, como no ideal cristão, ou no dionisiaco, por ser outra vida ou mais vida, mas por não ser vida nenhuma. O erro, a imperfeição, é, não esta vida, mas a mesma vida. A não-vida será pois o nosso ideal. A morte, o nada ― eis o ideal que teremos. Como, porém, a morte ou o nada, tomados como negações da vida, são inconcebiveis, criaremos uma morte viva, um nada que existe, como ideais. Como esta vida é matéria e consciencia, essa outra — a mortal e verdadeira — será espírito e inconsciencia; como esta é formada de coisas separadas ― corpos, formas, seres ―, aquela será formada de uma unidade sem nada, onde tudo, anulando-se, se funde. E como isto é o que está tipicamente expresso no Nirvana dos budistas, chamaremos a êste ideal o ideal budico.

    Depreende-se de tudo quanto ficou dito que um ideal é simplesmente uma filosofia da vida, tomando a palavra filosofia como abrangendo, pois que naturalmente abrange, uma metafísica, uma ética e uma estética. Nem todos os homens, porém, formam de igual modo a sua filosofia da vida.

    O homem é um animal incoerente, e é incoerente porque é duplo. Tem uma vida de sentidos, que o liga, por processos que vão desde a percepção até à vida social, ao mundo, inhumano e humano, que o cerca; tem uma vida de inteligencia, que o fecha em si mesmo, e assim o separa dêsse mundo. No homem em quem a vida da inteligencia é apagada, a filosogia da vida vem dos sentidos e dos influxos externos: o seu ideal será aquele que uns e outros lhe impuzerem. Êsse homem, que é o homem vulgar, aproxima-se dos animais pela unidade do seu ser, filha legítima da inconsciencia. Desde, porém, que no homem disperta e vive o pensamento abstracto, formou-se nêle uma dualidade. Não póde furtar-se à vida dos sentidos; não póde negar-se a vida da razão.

    Se é dois em sua vida como homem, o homem é contudo um em seu ser como animal. Quando, pois, como verdadeiro homem, sente a dualidade, a sua tendencia, como verdadeiro animal, é anulal-a ou resolvel-a, isto é, estabelecer em si uma nova unidade, que, visto que é homem, deverá ser uma unidade superior.

    Ou a estabelece, aparente ou realmente, ou a não consegue estabelecer. Póde estabelecel-a, ou supôr que a estabelece, fazendo da sua vida intelectual um simples reflexo ou interpretação da sua vida sensual, do seu ideal um reflexo ou interpretação do seu temperamento, com tudo quanto, de sensual ou de social, o forma e nêle se contém. Êste processo é o processo filosofico: uma filosofia não é mais que a transmutação de um temperamento em interpretação do universo, a história intlectual de uma predisposição. Póde estabelecel-a, ou supôr que a estabelece, fazendo do seu temperamento um escravo do seu ideal, isto é, compelindo êsse temperamento a uma regra da inteligencia. Êste processo é o processo religioso: uma religião não é mais que uma subordinação dos sentidos a uma regra super-sensual, quer a simbolise o Cristo Crucificado das Egrejas ou o Compasso e Esquadro da Maçonaria.

    O primeiro dêsses homens superiores, o filósofo, é o que vulgarmente chamam o sábio, não no sentido de saber por saber, mas de saber por pensar. O segundo dêsses homens superiores é o que vulgarmente chamam o santo, de que o chamado heroi é o grau inferior, o estado animal, pois que o heroi é o santo inconsciente e episódico, em que a aureola é do sol externo que ilumina, que não do sol interno que vivifica. Ha, porém, um terceiro tipo de homem superior — o que não resolve a dualidade que o constitui superior; êsse terceiro homem superior é o artista.

    Dissemos bem e mal. O artista não resolve a dualidade em unidade; resolve-a, porém, em equilibrio. Ser artista provém de ter em igual desenvolvimento a atenção que está virada para o mundo e a vida, e a atenção que está virada para a inteligencia; de ser solicitado igualmente pela matéria e pelo espírito; de dar, do fundo da vida e da razão, a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus.

    A igual atenção à matéria e ao espírito faz que, instintivamente, cada coisa material seja pensada como espiritual, cada coisa espiritual como material: sendo as duas atenções iguais em fôrça e existentes na mesma alma, os seus objectos entrepenetram-se, confundem-se, e cada um assume a natureza do outro. Ora uma coisa material pensada como espiritual é uma coisa material considerada na sua beleza, pois a beleza é o que a matéria tem de imaterial em si mesma. E uma coisa espiritual pensada como material é essa mesma coisa às avessas ― um produto do espírito entregue ao mundo externo como beleza. A essa coisa chamamos obra de arte, e artista àquele que cria.

    O artista é a forma mais alta do homem superior. O santo é do tipo dos Anjos, cujo mister é crer; o sábio é do tipo dos Arcanjos, cujo mister é compreender; o artista, porém, é do tipo dos Deuses, cujo mister é crear.

    Por sua mesma natureza é o ideal apolineo o ideal artístico, isto é, o único ideal cuja natural manifestação é a obra de arte.

    Vimos que o artista é por natureza um espírito superior em quem a solução da dualidade se faz pelo equilibrio, isto é, pela harmonia. O ideal apolineo é o único ideal harmónico. Harmónico, aliás, lhe chamámos, antes que o alcunhassemos de apolineo. Mas não é só por esta coincidência íntima que o ideal apolineo é o ideal artístico; há outra e mais notável razão.

    Fazer arte é tornar o mundo mais belo, porque a obra de arte, uma vez feita, constitue beleza objectiva, beleza acrescentada à que há no mundo. Fazer arte é aumentar a vida, porque é aumentar a compreensão, ou a consciência, dela. Para que esta actividade lembre e preocupe, é mister que quem a pratíca tenha, consciente ou inconscientemente, um ideal baseado no mundo e na vida. O ideal apolineo é como vimos, o único que se baseia no mundo e na vida, surgindo da comparação dêles com êles mesmos, como se nada mais houvesse com que os comparar.

    Um dionisiaco, se o fôr deveras, quer viver ou sonhar, que não fazer arte: tudo, quanto se der à arte, rouba-se à vida ou ao sonho. Um cristão, se o fôr devéras, também não pensa em fazer arte: para que desviar da contemplação de Deus e da salvação da alma um minuto que seja do tempo, para com o emprêgo dele ir aumentar as hostes que o são da vileza e do pecado? O caotico, se o fôr devéras, fará uma só coisa — suïcidar-se-á no momento em que conceba, em plenitude e sinceridade, o seu ideal noturno. E ao budista, se o fôr devéras, nada importa senão o que seja repudio, mistico e ascético, da vida, imersão do ser no abismo dívino, morte viva, que é a única realidade. Que tem o caotico que acrescentar ao mundo, se o mundo é nada? Que quer o budista acrescentar-lhe, se o mundo é ilusão?

    Todo artista é pois, como tal, um expositor involuntário do ideal apolineo. É-o com aquela vida de sentidos de que se forma o seu temperamento; pode ser outra coisa, seguir outro ideal, com a vida da sua inteligência. Pode servir-se da poesia, como Dante, para expor um ideal cristão; como Whitman, para expor um ideal dionisiaco; como Omar Khayyam ou Swinburne para expor um ideal caotico, exprimindo-o no vinho, como o primeiro, no sono, como o segundo. A oferenda, qualquer que seja o deus a que se destine, leva-a êle sempre, sonâmbulo, ao templo de Apolo. Os passos com que queria ir, consciente, a Jerusalem ou ao Nada, conduzem-o, inconsciente, a Thymbra ou a Delphos.

    Quer dizer, a dualidade, que aparentemente se resolvera pelo equilibrio, nunca afinal, se resolveu. Resolver é inclinar-se, e o equilibrio é não haver inclinação. O artista ficou entre o filósofo e o santo, fusão dos dois e negação de ambos: como o filósofo, pena, mas não tem opiniões; como o santo, dedica-se, mas não sabe a quê. Provam-o de dois modos opostos os dois maiores poetas do mundo: em Homero não há filosofia nem crença; em Shakespeare há todas.

    Há, porém, um tipo de artista em quem a dualidade automàticamente se resolve: existe em tal forma que a si mesma se nega. É o caso do artista que tenha, como homem, o ideal apolineo, que é o mesmo que tem como artista. Como homem, faz tudo consistir na objectividade; como artista, faz tudo consistir na creação de formas objectivas. A harmonia nêle é pois perfeita; não é já, porém, a harmonia do equilibrio, mas a da identificação.

    O ideal, dissemos, provém do nosso convencimento da imperfeição da vida, consiste no critério de perfeição que opomos a essa imperfeição. Para o dionisiaco, que acha a vida pouca, o ideal está em mais-vida ou em tôda a vida; a perfeição para êle consistirá na intensidade, na fôrça, se fôr objectivista; no sonho, se fôr subjectivista. Para o cristão, que acha a vida pouco, o ideal está em vida mas outra vida; a perfeição para êle consistirá na espiritualidade. Para o caotico, que acha a vida nada, o ideal está em não existir; a perfeição para êle consistirá na inconsciência. Para o budista, que acha a vida ilusão, o ideal está no abandono da vida; a perfeição para ele consistirá na renúncia.

    Para o apolineo, porém, que acha a vida simplesmente imperfeita, o ideal está na mesma vida, mas perfeita. Mas, como a vida é por natureza imperfeita, êsse ideal reduz-se a uma vida o menos imperfeita possível.

    A vida compõe-se de contemplação e acção. Em todos os homens há um elemento contemplativo e um elemento activo: em uns, porém, predomina o elemento activo, e são estes o maior número; em outros, o elemento contemplativo, e são estes o menor; em outros ainda, os dois elementos equilibram-se, e estes, que em número estão entre os outros dois, estão entre êles também em índole.

    Para o homem de tipo activo, uma vida o menos imperfeita possível reduz-se a uma vída o menos imperfeita possível naquilo que é acção, visto que para êsse homem a vida é essencialmente acção. A acção, humanamente entendida, consiste principalmente nas relações entre os homens e na atitude de cada homem para com a vida. A qualquer destas atitudes se chama «o dever». O ideal que nasce de aqui é pois o ideal moral, entendendo-se por ideal moral um ideal de dever, ou de virtude, em que se não inclue elemento algum que não seja desta vida, como seria, por exemplo, o de recompensa ou castigo em uma vida subsequente. Se assim fôsse, estariamos fora do ideal apolineo. O ideal moral preocupou extensamente os gregos antigos, que formaram dêle vários tipos, incluindo alguns, como o hedonistico, a que nós hoje, dando à palavra moral um sentido restrito e cristão, hesitariamos em aplicar essa palavra. Ao ideal moral poderiamos, até, chamar o ideal socrático, em homenagem àquele grego sublime que com êle mais, e mais profundamente, se preocupou.

    Para o homem de tipo mixto, a vida o menos imperfeita possível será aquela que funda o que há de menos imperfeito na acção com o que há de menos imperfeito na contemplação, servindo-se de cada um dêsses elementos para corrigir o outro. Do primeiro elemento emerge como ideal, como vimos, o dever; do segundo emerge como ideal, como veremos, a beleza. Qualquer coisa onde se fundam o dever e a beleza será pois o ideal para êste tipo de apolineo. Essa coisa é a glória, conforme os gregos a entendiam ― o cumprimento esplendoroso do dever. A êste ideal podemos bem chamar o ideal heróico. Era o ideal de quási todos os gregos, pois era o ideal harmónico dentro do ideal harmónico. Uma glória imoral seria, para um grego antigo, uma coisa contraditória e incompreensível.

    Para o homem de tipo contemplativo, a vida o menos imperfeita possível será aquela, simplesmente, que mais perfeita se nos apresente, que mais perfeita vejamos; pois, excluido todo elemento de acção, tudo, desde a pedra ao homem, passa a ser tão sómente «mundo externo». Mas a única coisa que, no mundo externo, lembra a perfeição, ou se aproxima dela, é aquilo que chamamos beleza. Para o apolíneo contemplativo o ideal consistirá, pois, não na contemplação em geral, mas na contemplação particular da beleza. Nada importa a moral ou o dever, pois são acção; pouco importa a glória, pois contém acção; a beleza basta. A êste ideal compete, pois, naturalmente, o nome de ideal estético.

    Os antigos gregos foram, pois que se revelaram, os naturais políneos; nêles incarnaram os três ideais apolíneos em simplicidade e perfeição. Nunca, como entre êles, houve o amor ao dever humano, sem outra preocupação que não a humana. Nunca, como entre êles, houve o amor à gloria e ao heroismo, porém, ao heroismo por glória, que não ao heroismo por martírio. Nunca, como entre êles, houve o amor à beleza, sem moral nem uso, só por ser beleza.

    Um socrático, um heróico ou um esteta, tinha, nascido que fôsse na Grécia antiga, o ambiente propício à realização do seu ideal — tanto, é claro, quanto um ideal se pode realizar. O ideal íntimo ajustava-se ao ideal social. E assim o homem era um indivíduo verdadeiro, que não, como a maioria de nós de hoje, um indivíduo amador. Daí a extraordinária perfeição cívica e moral da vida grega, que só consideraremos imoral, em certos aspectos, se a avaliarmos por critérios morais diferentes, isto é, se a não soubermos avaliar. Daí a extraordinária plenitude heróica e gloriosa da Grécia ― na guerra como nos ludos, na arte como na vida. Daí a extraordinária atenção dos gregos à beleza, que exigiam, e porisso punham, não, como nós, aqui e alí e de vez em quando, e como superfluïdade ou sobremesa, mas em tudo e sempre, e como necessidade ou alimento.

    Assim um esteta, própriamente dito, nascido na Grécia antiga, abria os olhos e via em tudo a beleza que desejava. Ficava quem era, quedava-se, contemplava e assim vivia. Suponhamos, porém, um temperamento de esteta, nascido, por não sabemos que mistérios da hereditaríedade ou da reincarnação, em um tempo como o nosso. Passaram sôbre os tempos da Heldade dois mil anos de civilizações diferentes: o ideal apolíneo deixou de existir, excepto nos artistas, em quem é nato; séculos e séculos de barbaríe, de cristianismo e de universalidade fruste turvaram a clareza da vista, soterraram o mundo externo, esconderam a beleza, como a Palavra do Mestre, sob o nono arco da ilusão. Perante um mundo externo assim confuso e obscuro, o esteta, amante da luz que é de Apolo, terá um sentimento — o da revolta. Reagirá, e a reacção é uma acção. Passará de contemplativo a activo, de esteta a artista. Gritará o que calaria, cantará o que preferiria ouvir.

    É êste o caso especial de António Botto.

    Para a demonstração completa do que nos propuzemos demonstrar falta sòmente que provemos que António Botto é o tipo exacto do esteta, no sentido, cada vez mais preciso, que viemos dar a esta palavra através dos raciocínios que nos levaram à alma dela. Não temos que provar que António Botto nasceu em nosso tempo, pois êle aqui está; nem que é artista, pois êle o é sem que o provemos. E há que notar que, para o caso da nossa demonstração, nada importa o que êle valha como artista. Por nós, julgamos que é um artista admirável, o que dizemos, porém, só para que se saiba que o pensamos. Poderia não ser um artista admirável, que a linha da demonstração não sofreria desvio. É um artista; nasceu em nosso tempo; falta provar que é o tipo exacto do esteta, tal qual o definimos. É o que vamos provar.

    Vimos que o esteta é o homem que ama a beleza contemplativamente, isto é, sem nela admitir elemento algum de acção; e isto quere dizer, como também vimos, que o ideal estetico exclue o ideal moral, pois que o ideal moral é o que nasce da acção. Ora o ideal moral compreende três graus, ou níveis: a moral instintiva ou animal; a moral social; a moral intelectual. A moral animal fecha-se dentro de dois instintos ― o instinto de conservação e o instinto de reprodução; o amor à vida, e o amor ao sexo oposto. A moral social resume-se na noção do dever. A moral intelectual concentra-se na ideia do Bem. Será esteta, pois, aquele cujo ideal de beleza se revele livre da atracção da vida ou do sexo oposto, de qualquer noção do dever, de qualquer ideia do Bem. Livre, porém, não quere dizer oposto, pois que o ideal estético, que é um ideal apolineo, não é um ideal de negação, mas de harmonia. O esteta ama a beleza onde quer que a veja, sem restricção moral: na vida como na não-vida, no sexo oposto como no próprio; no dever como na falta a êle, se na falta a êle houver beleza; no Bem como no Mal, se o Mal fôr, como Lucifer, a Estrêla da Manhã.

    A obra de António Botto ajusta-se geométricamente a tudo quanto seria, por o que dissemos, de esperar da obra de um estéta. Canta a vida, mas tão débilmente que, nas mesmas palavras em que a canta, a renega; o que sente nela de belo é o que dela se perde, a sua fluïda e fútil inutilidade. Canta, indiferentemente, o corpo feminino e o masculino; se qualquer dêles é belo, o que é que, para o estéta, os distingue? Animam-no, como poeta e artista, os herois e os criminosos, desde que o mesmo sol os doire belos. Para êle — como aliás, para o Evangelho — cai igual a beleza da chuva sôbre o campo do justo e do injusto. Não citaremos um verso, nem faremos um extrato, em apoio do que dizemos: citamos a obra inteira do artista, pois nem uma linha dela nos desmente.

    Esta demonstração está completa. Antes, porém, que a fechemos, há um ponto que desejamos, não demonstrar, mas esclarecer. A estupidêz psicológica elegeu, de ha muito, para o escândalo postiço o modo como António Botto acentua o seu afecto à beleza masculina. Quem tiver lido com atenção êste estudo não precisa de esclarecimento, pois que a demonstração já o contém. Muitos, porém, precisam de que o explicado se lhes explique. São para êsses estas ultimas linhas.

    O estéta que é artista é-o, conforme demonstrámos, em virtude de uma reacção contra o ambiente hóstil que lhe não permite ser só estéta. Nessa reacção sobresaem, como é natural, aquêles elementos do ideal estético que mais possam ferir êsse ambiente. Tôda boa defeza é uma contra-ofensiva. A noção da beleza masculina é, de todos os elementos do ideal estético, aquêle que mais pode servir de arma contra a opressão do nosso ambiente; daí servir-se António Botto dela com uma constância e uma persistência que há não só que compreender, mas que louvar.

    António Botto é um estéta grego nascido num exilio longinquo. Ama a Pátria perdida com a devoção violenta de quem não poderá voltar a ela. Daí o que na sua obra há de estrangeiro, de saüdoso e de triste. É como, nas noites sem lua, aquele brilho ténue, vindo do céu, não se sabe de onde, que toca de prata negra a solidão inquieta do mar.

  • ANTÓNIO BOTTO
    E O IDEAL
    ESTÉTICO
    CREADOR

    ESTUDO CRÍTICO DE
    FERNANDO PESSOA

    ANTÓNIO BOTTO é o único poeta português, dos que sabemos que existem, a quem a designação de esteta se póde aplicar distintivamente, isto é, como definição bastante, sem acrescimo nem restrição. É êste o teorema; o dim dêste breve estudo é demonstrá-lo.

    Todo poeta, porque todo artista, é forçosamente esteta, pois esteta significa, primáriamente, cultor da beleza, e todo artista, e portanto todo poeta, é, pelo menos, cultor da beleza pela criação dela. Ha, porém, poetas, e artistas, que criam beleza por um movimento íntimo espontâneo, em que a idéa de beleza não figura como elemento determinante: assim um Byron ou um Shelley olha menos à beleza possível do que cria ao aliviar a alma do peso de uma emoção, e a criação da beleza é mais parte do alivio que preocupação directa. Outros ha que, escravos embora da beleza, são todavia, no mesmo tempo, subditos de outras preocupações, como a religiosa em Dante e Milton, e a psicológica em Shakespeare. Os primeiros não são inteiramente estetas; os segundos não o são exclusivamente. Em quási todos os casos, a palavra esteta é larga ou estreita de mais para definir o poeta. Define, bem ou mal, sómente parte do seu espírito: só o inconsciente no primeiro caso exemplificado; só parte do consciente no segundo.

    Designo por esteta, como é de sentir no que vai dito, o homem que faz consistir na contemplação da beleza, distinta da criação dela, tôda aquela sua atitude crítica da vida a que chamamos o ideal; e que, por nessa contemplação concentrar o seu ideal todo, não admite nêste nem elementos intelectuais, nem elementos morais, nem, enfim, elementos de qualquer ordem que não seja a contemplativa. Deduz-se disto que, por natureza e definição, o esteta própriamente tal, não é artista, pois que não é criador. Ora o caso de António Botto é que, sendo evidentemente criador, pois que é artista, é também demonstravelmente o tipo do esteta. Consubstancia-se com o tipo de que se afasta. Nisto, quando em mais não fosse, reside o interesse do caso e o da analise dele.

    Nasce o ideal do nosso convencimento da imperfeição da vida: consiste na idéa de perfeição que derivamos, por contraste, da maneira como concebemos essa imperfeição. Ora é de trez maneiras que podemos ter qualquer coisa, e portanto a vida, por imperfeita. Um exemplo, como sempre, dil-o-ha, primeiro, melhor que uma definição.

    Suponha-se que tenho uma oficina, sem uso possível de energia electrica, e que para ela preciso de um motor de determinada fôrça. Um fabricante oferece-me um motor exactamente do tipo e da fôrça de que preciso, porém de estructura defeituosa: rejeito êsse motor por imperfeito. Outro fabricante oferece-me um motor do tipo de que preciso e de bôa estructura, porém de metade da fôrça; rejeito êsse motor por insuficiente. Um terceiro fabricante oferece-me um motor da fôrça de que preciso e de bôa estructura, porém electrico: rejeito êsse motor por errado. Cada um dos trez motores é imperfeito para o fim a que eu o destinaria; cada um porém o é de sua maneira, e em cada caso a imperfeição se nota por uma comparação. No primeiro caso, a noção de imperfeição resulta de comparar o motor com êle mesmo, pois o mesmo motor serviria se fosse perfeito; no segundo caso, de o comparar com um motor semelhante mas superior, isto é, diferente dentro da semelhança; no terceiro caso, de o comparar com um motor inteiramente diferente.

    Pelo primeiro dos trez critérios, aplicando-o ao conjunto da vida, tel-a-hemos por imperfeita por comparação com ela mesma: falece naquilo mesmo por que se define, não é aquilo mesmo que por natureza deveria ser. Todo corpo é imperfeito porque, sendo corpo, não é perfeito como corpo; tôda vida imperfeita porque, durando por essencia, não dura sempre, e durar-sempre seria a perfeição de durar; tôda a compreensão imperfeita porque, quanto mais se expande, em maiores fronteiras confina com o incompreensivel que a cerca. Desta crítica do real, se a fizermos, tiraremos, por contraste, a nossa noção do ideal. Quizeramos que aquele corpo, sem deixar de ser aquele corpo, fosse aquele corpo com perfeição. Quizeramos que aquela mocidade, sem ser outra espécie de mocidade, durasse assim tal qual é; que aquele prazer, sem parar nem ser outro, tivesse por eterno o momento em que é um prazer que passa. Quizeramos que aquela compreensão, sem precisar de mais vôo para compreender, abarcasse, num só grande abrir de asas, o espaço inteligivel de tudo. Quizeramos, em suma, não uma vida perfeita, mas a perfeição da vida.

    Ora a perfeição de uma coisa em si mesma resulta da sua absoluta identificação com a sua própria substancia — com a sua matéria, se a sua substancia é material; com a sua fórma, se a sua substancia é formal; com o seu fim, se a sua substancia é ter um fim. E como este perfeito ajustamento, que, quando externo, se chama equilibrio, se chama, quando externo, harmonia, convém ao ideal, que nêle se funde, o nome de ideal harmónico. Como, porém, foram os gregos os que não só criaram êste ideal, mas mais intimamente o incarnaram, e como era o deus Febo, ou Apolo, quem para êles o figurava na vida (pois na inteligencia o figurava Atena), chamaremos a êste ideal o ideal apolineo.

    Pelo segundo dos três critérios, aplicando-o de igual modo, teremos a vida por imperfeita por a compararmos com uma vida maior; por, sendo vida, não ser contudo vida bastante. O conceito aqui é duplo: podemos querer mais vida em quantidade, ou mais vida em qualidade — esta vida multiplicada, ou esta vida superada; esta excedida, ou esta transcendida. No primeiro conceito a vida é pouca; no segundo conceito a vida é pouco. Pelo primeiro conceito, ser-nos-á ideal a vida em qualquer expansão, violenta ou desvairada, em que, sem se esquecer de si, se exceda. Pelo segundo conceito, ser-nos-á ideal uma vida que transcenda esta em qualidade, e que, por isso mesmo, em natureza se lhe oponha. Ao primeiro ideal, porque é da embriaguês da vida, chamaremos dionisiaco; ao segundo, porque é da transcendência dela, chamaremos cristão.

    Os dois ideais, que nascem dêstes dois conceitos, são em substância o mesmo ideal: são produtos do mesmo critério, efeito da mesma causa. Um é quantitativo, o outro qualitativo; mas qualidade e quantidade, na mesma matéria, são sòmente dois aspectos dela, como os aspectos concavo e convexo da mesma superfície curva. Quando a água passa, em temperatura, de 99 para 100 gráus centígrados, converte-se em vapor: mudou de quantidade em temperatura, mudou de qualidade em estado, o fenómeno foi só um. Mas estes dois ideais são idênticos, não só pela igual origem, senão também pelo modo igual em que se diferençam do ideal apolineo. Aquele é harmónico e natural; estes desarmónicos e misticos. Aquele assenta na aceitação da vida; estes, de um modo e de outro, na comum negação dela. Baco e Cristo são, aliás, em certo grau do entendimento oculto, duas formas do mesmo deus. «Cristo Baquico» diz a inscrição por baixo da figura crucificada na joia antiga do Museu de Berlim.

    Idênticos na matéria, estes dois ideais são contudo, não só diferentes, mas opostos, na forma: são, repetindo a imagem e o exemplo, como os aspectos opostos, o concavo e o convexo, da mesma superfície curva; como Baco e Cristo na ordem externa. Para o dionisiaco a vida é simplesmente estreita; para o cristão a vida é vil. Para um é uma jaula, de onde há que fugir para os campos, que não são mais seus que a jaula; para o outro uma estalagem, suja e alheia, onde espera ter que estar pouco, voltando à casa que é sua.

    Para o dionisiaco, dissemos, a vida é simplesmente estreita. Todo corpo é imperfeito porque é um só corpo, que não todos; tôda alma imperfeita porque é uma só alma, que não o conjunto das almas ou a alma universal do mundo. Não podermos pensar tudo, sentir tudo, ser tudo! Não haver uma emoção que possa ser todas as emoções, ou que, ao menos, pela sua intensidade, a todas valha, ainda que nos endoideça! E assim pensando, assim sentindo, o dionisiaco forma um de dois ideais, conforme o oriente a sua índole; ou viver, com o máximo de intensidade, o máximo possível da vida; ou, refugiando-se no sonho, vivê-la ali total, ainda que ficticia. Sim, porque o sonhador, se faz a vida consistir no sonho, não é mais que um dionisiaco subjectivo. E esta forma do ideal dionisiaco está já, pela subjectividade, a meio-caminho do ideal mistico, que é o verdadeiro ideal cristão. Que é, aliás, a meditação do mistico ― visto que não é raciocínio ― senão um sonho que esqueceu o nome?

    Para o cristão, dissemos, a vida é vil. O símbolo desta vida é o corpo, visto que é aquilo em que somos desta vida. E que é o corpo? Uma coisa sujável, retalhável, senescível; uma coisa que, quando, pela morte, fica a sós, assume logo o máximo da vileza, que é a podridão. Tudo quanto nêle vale, como a beleza, vale só pela alma que o anima; cessando esta nêle, tudo isso nêle cessa. Só a alma, pois, que, por ser incorporea, podemos considerar um corpo infinito, e, por infinito, eterno e perfeito — só essa, e Deus que a creou, e a quem ela se assemelha, são a verdade e a vida. A essência dêste ideal é o ser espiritualista; devemo-lo, expresso, a Platão, em cuja doutrina todo espiritualismo se filia. Como, porém, é aquele platonismo judaizado a que chamamos cristianismo que com mais clara plenitude incarna, mistica e asceticamente, o espiritualismo, chamámos a êste ideal o ideal cristão.

    Pelo último dos três critérios, aplicando-o como aplicámos os outros, teremos a vida por imperfeita por a compararmos com uma vida, a verdadeira, inteiramente, substâncialmente, diferente dela. Esta vida será um êrro; será vil, se vil, não tanto com a vileza do que é vil, quanto com a vileza do que é falso. Como, porém, o que há de inteiramente, de substâncialmente, diferente da vida é aquilo que chamamos morte, temos que, por êste critério, ou não há senão morte, e a mesma vida é morte, ou o que chamamos morte é a verdadeira vida.

    Se não há senão morte, a vida é vida só por aparência; não é senão morte falsificada, fogo-fatuo pairando filho sôbre a podridão-nata do universo. Tudo é nada, o Nada é tudo: só Caos é Deus e a Vida é o seu profeta. O ideal que de aqui resulta é o não haver ideal possível, pois é o não haver nada possível. E porque o Caos define bem a alma dêste critério, chamaremos ao ideal, ou negação de ideal, que dêle resulta, o ideal caotico.

    Se porém aquilo que chamamos morte, ou seja a negação da vida, é que verdadeiramente é a vida, então teremos por ideal uma vida que é a negação desta ― não, como no ideal cristão, ou no dionisiaco, por ser outra vida ou mais vida, mas por não ser vida nenhuma. O erro, a imperfeição, é, não esta vida, mas a mesma vida. A não-vida será pois o nosso ideal. A morte, o nada ― eis o ideal que teremos. Como, porém, a morte ou o nada, tomados como negações da vida, são inconcebiveis, criaremos uma morte viva, um nada que existe, como ideais. Como esta vida é matéria e consciencia, essa outra — a mortal e verdadeira — será espírito e inconsciencia; como esta é formada de coisas separadas ― corpos, formas, seres ―, aquela será formada de uma unidade sem nada, onde tudo, anulando-se, se funde. E como isto é o que está tipicamente expresso no Nirvana dos budistas, chamaremos a êste ideal o ideal budico.

    Depreende-se de tudo quanto ficou dito que um ideal é simplesmente uma filosofia da vida, tomando a palavra filosofia como abrangendo, pois que naturalmente abrange, uma metafísica, uma ética e uma estética. Nem todos os homens, porém, formam de igual modo a sua filosofia da vida.

    O homem é um animal incoerente, e é incoerente porque é duplo. Tem uma vida de sentidos, que o liga, por processos que vão desde a percepção até à vida social, ao mundo, inhumano e humano, que o cerca; tem uma vida de inteligencia, que o fecha em si mesmo, e assim o separa dêsse mundo. No homem em quem a vida da inteligencia é apagada, a filosogia da vida vem dos sentidos e dos influxos externos: o seu ideal será aquele que uns e outros lhe impuzerem. Êsse homem, que é o homem vulgar, aproxima-se dos animais pela unidade do seu ser, filha legítima da inconsciencia. Desde, porém, que no homem disperta e vive o pensamento abstracto, formou-se nêle uma dualidade. Não póde furtar-se à vida dos sentidos; não póde negar-se a vida da razão.

    Se é dois em sua vida como homem, o homem é contudo um em seu ser como animal. Quando, pois, como verdadeiro homem, sente a dualidade, a sua tendencia, como verdadeiro animal, é anulal-a ou resolvel-a, isto é, estabelecer em si uma nova unidade, que, visto que é homem, deverá ser uma unidade superior.

    Ou a estabelece, aparente ou realmente, ou a não consegue estabelecer. Póde estabelecel-a, ou supôr que a estabelece, fazendo da sua vida intelectual um simples reflexo ou interpretação da sua vida sensual, do seu ideal um reflexo ou interpretação do seu temperamento, com tudo quanto, de sensual ou de social, o forma e nêle se contém. Êste processo é o processo filosofico: uma filosofia não é mais que a transmutação de um temperamento em interpretação do universo, a história intlectual de uma predisposição. Póde estabelecel-a, ou supôr que a estabelece, fazendo do seu temperamento um escravo do seu ideal, isto é, compelindo êsse temperamento a uma regra da inteligencia. Êste processo é o processo religioso: uma religião não é mais que uma subordinação dos sentidos a uma regra super-sensual, quer a simbolise o Cristo Crucificado das Egrejas ou o Compasso e Esquadro da Maçonaria.

    O primeiro dêsses homens superiores, o filósofo, é o que vulgarmente chamam o sábio, não no sentido de saber por saber, mas de saber por pensar. O segundo dêsses homens superiores é o que vulgarmente chamam o santo, de que o chamado heroi é o grau inferior, o estado animal, pois que o heroi é o santo inconsciente e episódico, em que a aureola é do sol externo que ilumina, que não do sol interno que vivifica. Ha, porém, um terceiro tipo de homem superior — o que não resolve a dualidade que o constitui superior; êsse terceiro homem superior é o artista.

    Dissemos bem e mal. O artista não resolve a dualidade em unidade; resolve-a, porém, em equilibrio. Ser artista provém de ter em igual desenvolvimento a atenção que está virada para o mundo e a vida, e a atenção que está virada para a inteligencia; de ser solicitado igualmente pela matéria e pelo espírito; de dar, do fundo da vida e da razão, a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus.

    A igual atenção à matéria e ao espírito faz que, instintivamente, cada coisa material seja pensada como espiritual, cada coisa espiritual como material: sendo as duas atenções iguais em fôrça e existentes na mesma alma, os seus objectos entrepenetram-se, confundem-se, e cada um assume a natureza do outro. Ora uma coisa material pensada como espiritual é uma coisa material considerada na sua beleza, pois a beleza é o que a matéria tem de imaterial em si mesma. E uma coisa espiritual pensada como material é essa mesma coisa às avessas ― um produto do espírito entregue ao mundo externo como beleza. A essa coisa chamamos obra de arte, e artista àquele que cria.

    O artista é a forma mais alta do homem superior. O santo é do tipo dos Anjos, cujo mister é crer; o sábio é do tipo dos Arcanjos, cujo mister é compreender; o artista, porém, é do tipo dos Deuses, cujo mister é crear.

    Por sua mesma natureza é o ideal apolineo o ideal artístico, isto é, o único ideal cuja natural manifestação é a obra de arte.

    Vimos que o artista é por natureza um espírito superior em quem a solução da dualidade se faz pelo equilibrio, isto é, pela harmonia. O ideal apolineo é o único ideal harmónico. Harmónico, aliás, lhe chamámos, antes que o alcunhassemos de apolineo. Mas não é só por esta coincidência íntima que o ideal apolineo é o ideal artístico; há outra e mais notável razão.

    Fazer arte é tornar o mundo mais belo, porque a obra de arte, uma vez feita, constitue beleza objectiva, beleza acrescentada à que há no mundo. Fazer arte é aumentar a vida, porque é aumentar a compreensão, ou a consciência, dela. Para que esta actividade lembre e preocupe, é mister que quem a pratíca tenha, consciente ou inconscientemente, um ideal baseado no mundo e na vida. O ideal apolineo é como vimos, o único que se baseia no mundo e na vida, surgindo da comparação dêles com êles mesmos, como se nada mais houvesse com que os comparar.

    Um dionisiaco, se o fôr deveras, quer viver ou sonhar, que não fazer arte: tudo, quanto se der à arte, rouba-se à vida ou ao sonho. Um cristão, se o fôr devéras, também não pensa em fazer arte: para que desviar da contemplação de Deus e da salvação da alma um minuto que seja do tempo, para com o emprêgo dele ir aumentar as hostes que o são da vileza e do pecado? O caotico, se o fôr devéras, fará uma só coisa — suïcidar-se-á no momento em que conceba, em plenitude e sinceridade, o seu ideal noturno. E ao budista, se o fôr devéras, nada importa senão o que seja repudio, mistico e ascético, da vida, imersão do ser no abismo dívino, morte viva, que é a única realidade. Que tem o caotico que acrescentar ao mundo, se o mundo é nada? Que quer o budista acrescentar-lhe, se o mundo é ilusão?

    Todo artista é pois, como tal, um expositor involuntário do ideal apolineo. É-o com aquela vida de sentidos de que se forma o seu temperamento; pode ser outra coisa, seguir outro ideal, com a vida da sua inteligência. Pode servir-se da poesia, como Dante, para expor um ideal cristão; como Whitman, para expor um ideal dionisiaco; como Omar Khayyam ou Swinburne para expor um ideal caotico, exprimindo-o no vinho, como o primeiro, no sono, como o segundo. A oferenda, qualquer que seja o deus a que se destine, leva-a êle sempre, sonâmbulo, ao templo de Apolo. Os passos com que queria ir, consciente, a Jerusalem ou ao Nada, conduzem-o, inconsciente, a Thymbra ou a Delphos.

    Quer dizer, a dualidade, que aparentemente se resolvera pelo equilibrio, nunca afinal, se resolveu. Resolver é inclinar-se, e o equilibrio é não haver inclinação. O artista ficou entre o filósofo e o santo, fusão dos dois e negação de ambos: como o filósofo, pena, mas não tem opiniões; como o santo, dedica-se, mas não sabe a quê. Provam-o de dois modos opostos os dois maiores poetas do mundo: em Homero não há filosofia nem crença; em Shakespeare há todas.

    Há, porém, um tipo de artista em quem a dualidade automàticamente se resolve: existe em tal forma que a si mesma se nega. É o caso do artista que tenha, como homem, o ideal apolineo, que é o mesmo que tem como artista. Como homem, faz tudo consistir na objectividade; como artista, faz tudo consistir na creação de formas objectivas. A harmonia nêle é pois perfeita; não é já, porém, a harmonia do equilibrio, mas a da identificação.

    O ideal, dissemos, provém do nosso convencimento da imperfeição da vida, consiste no critério de perfeição que opomos a essa imperfeição. Para o dionisiaco, que acha a vida pouca, o ideal está em mais-vida ou em tôda a vida; a perfeição para êle consistirá na intensidade, na fôrça, se fôr objectivista; no sonho, se fôr subjectivista. Para o cristão, que acha a vida pouco, o ideal está em vida mas outra vida; a perfeição para êle consistirá na espiritualidade. Para o caotico, que acha a vida nada, o ideal está em não existir; a perfeição para êle consistirá na inconsciência. Para o budista, que acha a vida ilusão, o ideal está no abandono da vida; a perfeição para ele consistirá na renúncia.

    Para o apolineo, porém, que acha a vida simplesmente imperfeita, o ideal está na mesma vida, mas perfeita. Mas, como a vida é por natureza imperfeita, êsse ideal reduz-se a uma vida o menos imperfeita possível.

    A vida compõe-se de contemplação e acção. Em todos os homens há um elemento contemplativo e um elemento activo: em uns, porém, predomina o elemento activo, e são estes o maior número; em outros, o elemento contemplativo, e são estes o menor; em outros ainda, os dois elementos equilibram-se, e estes, que em número estão entre os outros dois, estão entre êles também em índole.

    Para o homem de tipo activo, uma vida o menos imperfeita possível reduz-se a uma vída o menos imperfeita possível naquilo que é acção, visto que para êsse homem a vida é essencialmente acção. A acção, humanamente entendida, consiste principalmente nas relações entre os homens e na atitude de cada homem para com a vida. A qualquer destas atitudes se chama «o dever». O ideal que nasce de aqui é pois o ideal moral, entendendo-se por ideal moral um ideal de dever, ou de virtude, em que se não inclue elemento algum que não seja desta vida, como seria, por exemplo, o de recompensa ou castigo em uma vida subsequente. Se assim fôsse, estariamos fora do ideal apolineo. O ideal moral preocupou extensamente os gregos antigos, que formaram dêle vários tipos, incluindo alguns, como o hedonistico, a que nós hoje, dando à palavra moral um sentido restrito e cristão, hesitariamos em aplicar essa palavra. Ao ideal moral poderiamos, até, chamar o ideal socrático, em homenagem àquele grego sublime que com êle mais, e mais profundamente, se preocupou.

    Para o homem de tipo mixto, a vida o menos imperfeita possível será aquela que funda o que há de menos imperfeito na acção com o que há de menos imperfeito na contemplação, servindo-se de cada um dêsses elementos para corrigir o outro. Do primeiro elemento emerge como ideal, como vimos, o dever; do segundo emerge como ideal, como veremos, a beleza. Qualquer coisa onde se fundam o dever e a beleza será pois o ideal para êste tipo de apolineo. Essa coisa é a glória, conforme os gregos a entendiam ― o cumprimento esplendoroso do dever. A êste ideal podemos bem chamar o ideal heróico. Era o ideal de quási todos os gregos, pois era o ideal harmónico dentro do ideal harmónico. Uma glória imoral seria, para um grego antigo, uma coisa contraditória e incompreensível.

    Para o homem de tipo contemplativo, a vida o menos imperfeita possível será aquela, simplesmente, que mais perfeita se nos apresente, que mais perfeita vejamos; pois, excluido todo elemento de acção, tudo, desde a pedra ao homem, passa a ser tão sómente «mundo externo». Mas a única coisa que, no mundo externo, lembra a perfeição, ou se aproxima dela, é aquilo que chamamos beleza. Para o apolíneo contemplativo o ideal consistirá, pois, não na contemplação em geral, mas na contemplação particular da beleza. Nada importa a moral ou o dever, pois são acção; pouco importa a glória, pois contém acção; a beleza basta. A êste ideal compete, pois, naturalmente, o nome de ideal estético.

    Os antigos gregos foram, pois que se revelaram, os naturais políneos; nêles incarnaram os três ideais apolíneos em simplicidade e perfeição. Nunca, como entre êles, houve o amor ao dever humano, sem outra preocupação que não a humana. Nunca, como entre êles, houve o amor à gloria e ao heroismo, porém, ao heroismo por glória, que não ao heroismo por martírio. Nunca, como entre êles, houve o amor à beleza, sem moral nem uso, só por ser beleza.

    Um socrático, um heróico ou um esteta, tinha, nascido que fôsse na Grécia antiga, o ambiente propício à realização do seu ideal — tanto, é claro, quanto um ideal se pode realizar. O ideal íntimo ajustava-se ao ideal social. E assim o homem era um indivíduo verdadeiro, que não, como a maioria de nós de hoje, um indivíduo amador. Daí a extraordinária perfeição cívica e moral da vida grega, que só consideraremos imoral, em certos aspectos, se a avaliarmos por critérios morais diferentes, isto é, se a não soubermos avaliar. Daí a extraordinária plenitude heróica e gloriosa da Grécia ― na guerra como nos ludos, na arte como na vida. Daí a extraordinária atenção dos gregos à beleza, que exigiam, e porisso punham, não, como nós, aqui e alí e de vez em quando, e como superfluïdade ou sobremesa, mas em tudo e sempre, e como necessidade ou alimento.

    Assim um esteta, própriamente dito, nascido na Grécia antiga, abria os olhos e via em tudo a beleza que desejava. Ficava quem era, quedava-se, contemplava e assim vivia. Suponhamos, porém, um temperamento de esteta, nascido, por não sabemos que mistérios da hereditaríedade ou da reincarnação, em um tempo como o nosso. Passaram sôbre os tempos da Heldade dois mil anos de civilizações diferentes: o ideal apolíneo deixou de existir, excepto nos artistas, em quem é nato; séculos e séculos de barbaríe, de cristianismo e de universalidade fruste turvaram a clareza da vista, soterraram o mundo externo, esconderam a beleza, como a Palavra do Mestre, sob o nono arco da ilusão. Perante um mundo externo assim confuso e obscuro, o esteta, amante da luz que é de Apolo, terá um sentimento — o da revolta. Reagirá, e a reacção é uma acção. Passará de contemplativo a activo, de esteta a artista. Gritará o que calaria, cantará o que preferiria ouvir.

    É êste o caso especial de António Botto.

    Para a demonstração completa do que nos propuzemos demonstrar falta sòmente que provemos que António Botto é o tipo exacto do esteta, no sentido, cada vez mais preciso, que viemos dar a esta palavra através dos raciocínios que nos levaram à alma dela. Não temos que provar que António Botto nasceu em nosso tempo, pois êle aqui está; nem que é artista, pois êle o é sem que o provemos. E há que notar que, para o caso da nossa demonstração, nada importa o que êle valha como artista. Por nós, julgamos que é um artista admirável, o que dizemos, porém, só para que se saiba que o pensamos. Poderia não ser um artista admirável, que a linha da demonstração não sofreria desvio. É um artista; nasceu em nosso tempo; falta provar que é o tipo exacto do esteta, tal qual o definimos. É o que vamos provar.

    Vimos que o esteta é o homem que ama a beleza contemplativamente, isto é, sem nela admitir elemento algum de acção; e isto quere dizer, como também vimos, que o ideal estetico exclue o ideal moral, pois que o ideal moral é o que nasce da acção. Ora o ideal moral compreende três graus, ou níveis: a moral instintiva ou animal; a moral social; a moral intelectual. A moral animal fecha-se dentro de dois instintos ― o instinto de conservação e o instinto de reprodução; o amor à vida, e o amor ao sexo oposto. A moral social resume-se na noção do dever. A moral intelectual concentra-se na ideia do Bem. Será esteta, pois, aquele cujo ideal de beleza se revele livre da atracção da vida ou do sexo oposto, de qualquer noção do dever, de qualquer ideia do Bem. Livre, porém, não quere dizer oposto, pois que o ideal estético, que é um ideal apolineo, não é um ideal de negação, mas de harmonia. O esteta ama a beleza onde quer que a veja, sem restricção moral: na vida como na não-vida, no sexo oposto como no próprio; no dever como na falta a êle, se na falta a êle houver beleza; no Bem como no Mal, se o Mal fôr, como Lucifer, a Estrêla da Manhã.

    A obra de António Botto ajusta-se geométricamente a tudo quanto seria, por o que dissemos, de esperar da obra de um estéta. Canta a vida, mas tão débilmente que, nas mesmas palavras em que a canta, a renega; o que sente nela de belo é o que dela se perde, a sua fluïda e fútil inutilidade. Canta, indiferentemente, o corpo feminino e o masculino; se qualquer dêles é belo, o que é que, para o estéta, os distingue? Animam-no, como poeta e artista, os herois e os criminosos, desde que o mesmo sol os doire belos. Para êle — como aliás, para o Evangelho — cai igual a beleza da chuva sôbre o campo do justo e do injusto. Não citaremos um verso, nem faremos um extrato, em apoio do que dizemos: citamos a obra inteira do artista, pois nem uma linha dela nos desmente.

    Esta demonstração está completa. Antes, porém, que a fechemos, há um ponto que desejamos, não demonstrar, mas esclarecer. A estupidêz psicológica elegeu, de ha muito, para o escândalo postiço o modo como António Botto acentua o seu afecto à beleza masculina. Quem tiver lido com atenção êste estudo não precisa de esclarecimento, pois que a demonstração já o contém. Muitos, porém, precisam de que o explicado se lhes explique. São para êsses estas ultimas linhas.

    O estéta que é artista é-o, conforme demonstrámos, em virtude de uma reacção contra o ambiente hóstil que lhe não permite ser só estéta. Nessa reacção sobresaem, como é natural, aquêles elementos do ideal estético que mais possam ferir êsse ambiente. Tôda boa defeza é uma contra-ofensiva. A noção da beleza masculina é, de todos os elementos do ideal estético, aquêle que mais pode servir de arma contra a opressão do nosso ambiente; daí servir-se António Botto dela com uma constância e uma persistência que há não só que compreender, mas que louvar.

    António Botto é um estéta grego nascido num exilio longinquo. Ama a Pátria perdida com a devoção violenta de quem não poderá voltar a ela. Daí o que na sua obra há de estrangeiro, de saüdoso e de triste. É como, nas noites sem lua, aquele brilho ténue, vindo do céu, não se sabe de onde, que toca de prata negra a solidão inquieta do mar.

  • Nomes

    • Algernon Charles Swinburne
    • António Botto
    • Apolo
    • Atena
    • Baco
    • Crispim do Amaral
    • Dante Alighieri
    • Deus
    • Febo
    • Fernando Pessoa
    • Jesus Cristo
    • John Milton
    • Júlio César
    • Lord Byron
    • Lucifer
    • Omar Khayyam
    • Percy Bysshe Shelley
    • Walt Whitman