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Balança de Minerva - Aferição

Fernando Pessoa

Teatro - Jornal D'Arte 1, 22 de Novembro de 1913, p. X.

Balança de Minerva

AFERIÇÃO

Destina-se esta secção á critica dos maus livros e especialmente á critica d’aquelles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro d’aquelle que, tendo creado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palacio das Musas pela janella ou colheu a maçã da sabedoria com o auxilio d’um escadote – tudo isto se pesará na Balança de Minerva.

Claro que a razão do titulo Balança de Minerva é a circunstância de Minerva não ter balança nenhuma. Vagamente absurdo, leva este titulo em si a definição d’um modo-de-ver que escolhe o onde oppor-se a todos para ter razão inutilmente. A consciencia do esforço inutil e do trabalho perdido ainda é uma das grandes emoções estheticas que restam a quem se preocupa com as cousas que ainda restam.

A critica, de resto, é apenas a forma suprema e artistica da maledicencia. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. No fundo isto é tudo bondade. Dizer mal d’um livro é o único modo de dizer bem d’elle. Se é mau, faz-lhe justiça; se é bom põe-o na evidencia que os livros bons merecem. E, no fim de tudo, nada d’isto tem importancia, porque os livros bons leva-os a Historia ao collo para casa. E quanto aos maus – criticar é apenas abrir-lhes a cova e resar-lhes em cima da ultima descida o latim que fallava Juvenal. Ás vezes é com sete pás de elogios que esta justiça mortal melhor se sella.

A justificação ultima da critica assim bem entendida é o satisfazer a função natural de desdenhar, função tão natural como a de comer e que é de boa hygiene de espirito satisfazer cuidadosamente. Quem sente vontade de desdenhar não deve atar-se á cobardia de julgar isso feio, nem vender-se á infamia de ir desdenhar o que os outros desdenham, abdicando assim da sua individualidade, gregario.

As horas passam devagar e pesa em tedio a consciencia d’ellas. Buscar o conforto no desprezo é não só o nosso dever para com o desprezo, mas tambem o nosso dever para com nós-proprios. Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam á nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo – eis um passatempo deliciosamente de critico, e ao qual juramos fidelidade.

Traduzindo isto para a metaphora que dá cor a esta secção, pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-ha, na maioria dos casos, a dar com ella – pesos e tudo – na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguem. Quem tiver de ser immortal pode sel-o mesmo com a cabeça partida. O ser immortal é a unica das preocupações anti-sociaes que não faz mal a ninguem. E visto que o futuro raras vezes dá por ella, não é demais que o presente algumas vezes dê n’ella.

Fernando Pessoa.

A tiragem impressa de Teatro - Jornal D'arte terá sido muito reduzida, pelo que é difícil, na atualidade, achar os números da publicação ainda em acervos especializados. Por ese motivo, aproveitamos uma reproduçáo do livro de João Rui de Sousa Fotobibliografia de Fernando Pessoa (Sousa, 1988, p. 40) .
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    • Juvenal