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Fábula

Fernando Pessoa

O Jornal, 4 de abril de 1915, p. 3.

Fabula

Num fabulario ainda por encontrar será um dia lida esta fabula:

A uma bordadora d’um paiz longiquo foi encomendado pela sua rainha que bordasse, sobre seda ou setim, entre folhas uma rosa branca. A bordadora, como era muito joven, foi procurar por toda a parte aquela rosa branca perfeitissima, em cuja semelhança bordasse a sua. Mas sucedia que umas rosas eram menos belas do que lhe convinha, e que outras não eram brancas como deviam ser. Gastou dias sobre dias, chorosas horas, buscando a rosa que imitasse com seda, e, como nos paizes longinquos nunca deixa de haver pena de morte, ela sabia bem que, pelas leis dos contos como este, não podiam deixar de a matar, se ela não bordasse a rosa branca.

Por fim, não tendo melhor remedio, bordou, da memoria a rosa branca que lhe haviam exigido. Depois de a bordar foi compara-la com as rosas brancas que existem realmente nas roseiras. Sucedeu que todas as rosas brancas se pareciam exatamente com a rosa que ela bordara, que cada uma delas era exatamente aquela.

Ela levou o trabalho ao palacio e é de supor que casasse com o principe.

No fabulario, onde vem, esta fabula não traz moralidade. Mesmo porque, na edade de ouro, as fabulas não tinham moralidade nenhuma.

F. P.F[ernando] P[essôa]