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Crónica dos livros ("O Varre Canelhas")

Fernando Pessoa

O Jornal, 15 de Abril de 1915, p. 3.

CRÓNICA dos livros

O VARRE CANELHAS
Novelo Transmontano,
por Joaquim
Leitão

A obra, se fôrmos a aquilata-la por um criterio esthetico superior, resultará por certo de pouco relêvo e importancia. Mas, se a considerarmos dentro das fronteiras do trabalho meramente inteligente e honesto, e por uma bitola fornecida, não diremos pela benevolancia, mas pela compreensão do que se pode normalmente esperar, não teremos impulso critico senão de dirigir ao autor o elogio sincero – se bem que, nas circumstancias, relativo – que a realisação da novela nos parece merecer.

Novela, propriamente, não a ha, pois que falte o nexo construtivo, nem haja artificio de sintese que torne unidade e estrutura a dispersão impressionista d’estas paginas. Tampouco a obra se salienta pelo cuidado intuitivo ou cauto na engrenagem entrepenetrada da ação e do dialogo. O certo, porém, é que da leitura fica uma noção forte e dura da paisagem e do homem de Traz-os-Montes, e que em certos trechos – como no terceiro capitulo da primeira parte – ha mais alguma cousa, talvez, do que apenas isto. O facto de nunca termos estado em Traz-os-Montes investe-nos da precisa competencia extra-critica para poder séntir isto. Pode ser que, se houvessemos errado por tal provincia, achassemos falsa a impressão do autor desta novela. E’ mesmo certo que achariamos falsa, Mas, nem n’essa hipotese, nem agora, isso teria, ou tem, importancia. Todas as impressões são falsas. Por isso basta que sejam belas.

No que respeita a estilistica, a novéla do sr. Joaquim Leitão está escrita com aquela facilidade e comunicabilidade simpática que a reportagem superior frequentemente radica nos seus práticos. Não se vá lêr nisto que colocamos a obra o nivel intelectual do alto jornalismo. Corre nas veias da novéla melhor sangue espiritual do que esse.

Fernando Pessoa.

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    • Joaquim Leitão