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Do ʺLivro do Desassossegoʺ (ʺNa perfeição nítida do diaʺ)

Bernardo Soares

Revista da Solução Editora 1, novembro de 1932, p. 8.

  • Do "Livro do Desasocego"

    COMPOSTO POR BERNARDO SOARES, AJUDANTE DE GUARDA LIVROS NA CIDADE DE LISBOA

    Na perfeição nítida do dia estagna contudo o ar cheio de sol. Não é a pressão presente da trovoada futura, malestar dos corpos involuntários, vago baço do céo azul deveras. É o torpor sensivel da insinuação do ócio, pluma roçando leve a face a adormecer. É estío mas verão. Apetece o campo até a quem não gosta dêle.

    Se eu fôra outro, penso, êste seria para mim um dia feliz, pois o sentiria sem pensar nêle. Concluiria com uma alegria de antecipação o meu trabalho normal — aquêle que me é monotonamente anormal todos os dias. Tomaría o carro para Benfica, com amigos combinados. Jantariamos, em pleno fim de sol, entre hortas. A alegria em que estaríamos seria parte da paisagem, e por todos, quantos nos vissem, reconhecida como de ali.

    Como, porém, sou eu, goso um pouco o pouco que é imaginar-me êsse outro. Sim, logo êle-eu, sob parreira ou árvore, comerá o dôbro do que sei comer, beberá o dobro do que ouso beber, rirá o dobro do que posso pensar em rir. Logo êle, eu agora. Sim, um momento fui outro: vi, vivi, em outrem essa alegria humilde e humana de existir como animal em mangas de camisa. Grande dia que me fez sonhar assim! É tudo azul e sublime no alto como o meu sonho efémero de ser caixeiro de praça com saúde em não sei que férias de fim de día.

    FERNANDO PESSOA

  • Do "Livro do Desassossego"

    COMPOSTO POR BERNARDO SOARES, AJUDANTE DE GUARDA LIVROS NA CIDADE DE LISBOA

    Na perfeição nítida do dia estagna contudo o ar cheio de sol. Não é a pressão presente da trovoada futura, mal-estar dos corpos involuntários, vago baço do céu azul deveras. É o torpor sensível da insinuação do ócio, pluma roçando leve a face a adormecer. É estio mas verão. Apetece o campo até a quem não gosta dele.

    Se eu fora outro, penso, este seria para mim um dia feliz, pois o sentiria sem pensar nele. Concluiria com uma alegria de antecipação o meu trabalho normal — aquele que me é monotonamente anormal todos os dias. Tomaria o carro para Benfica, com amigos combinados. Jantaríamos, em pleno fim de sol, entre hortas. A alegria em que estaríamos seria parte da paisagem, e por todos, quantos nos vissem, reconhecida como de ali.

    Como, porém, sou eu, gozo um pouco o pouco que é imaginar-me esse outro. Sim, logo ele-eu, sob parreira ou árvore, comerá o dobro do que sei comer, beberá o dobro do que ouso beber, rirá o dobro do que posso pensar em rir. Logo ele, eu agora. Sim, um momento fui outro: vi, vivi, em outrem essa alegria humilde e humana de existir como animal em mangas de camisa. Grande dia que me fez sonhar assim! É tudo azul e sublime no alto como o meu sonho efémero de ser caixeiro de praça com saúde em não sei que férias de fim de dia.

    FERNANDO PESSOA

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    • Bernardo Soares
    • Fernando Pessoa