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Passos da Cruz

Fernando Pessoa

Centauro número único,

Dezembro de 1916, pp.62-76.

Passos da Cruz

QUATORZE SONETOS
DE
FERNANDO PESSOA

I

Esqueço-me das horas transviadas...
O outomno móra maguas nos outeiros
E põe um rôxo vago nos ribeiros...
Hostia de assombro a alma, e toda estradas...
Aconteceu-me esta paysagem, fadas
De sepulcros a orgiaco... Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...
No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em odio á ansia
Põe dias de ilhas vistas do convez
No meu cansaço perdido entre os gêlos,
E a côr do outomno é um funeral de appelos
Pela estrada da minha dissonância. ..

II

Ha um poeta em mim que Deus me disse...
A primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua ephémera e espectral ledice...
Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse...
Florir do dia a capiteis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tedio onde o só ter tedio nos seduz...
Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E scismo o seu perfil de inércia e vôo. . .

III

Adagas cujas joias velhas galas...
Opalesci amar-me entre mãos raras,
E, fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convez sem ninguem cheio de malas...
O intimo silencio das opalas
Conduz orientes até joias caras,
E o meu anseio vae nas rotas claras
De um grande sonho cheio de ocio e salas...
Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tyranno, e estruge
Sua ovação, e erguem as creanças...
Mas no teclado as tuas mãos pararam
E indefinidamente repousaram...

IV

Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse plos desvãos
Do sonho, até que emfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra — reis christãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncaes...
Caverna em stalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...

V

Tenue, roçando sedas pelas horas,
Teu vulto ciciante passa e esquece,
E dia a dia addias para prece
O rito cujo rythmo só decoras...
Um mar longinquo e proximo humedece
Teus labios onde, mais que em ti, descoras...
E, alada, leve, sobre a dôr que choras,
Sem qu’rer saber de ti a tarde desce...
Erra no ante-luar a voz dos tanques...
Na quinta immensa gorgolejam aguas,
Na treva vaga ao meu ter dôr estanques...
Meu imperio é das horas desiguaes,
E dei meu gesto lasso ás algas máguas
Que há para além de sermos outomnaes...

VI

Venho de longe e trago no perfil,
Em fórma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outr’ora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero ultimo olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distancia de mim vi...
Eu proprio sou aquillo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia gloria marginal
Os girasóes do imperio que morri...

VII

Fôsse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma cousa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as syrtes do meu dourado assomo...
Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloriola com ter
A arvore do meu uso o unico pômo...
Fosse eu uma metaphora sómente
Escripta nalgum livro insubsistente
D’um poeta antigo, de alma em outras gammas,
Mas doente, e, num crepusculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na ultima tarde de um imperio em chammas...

VIII

Ignorado ficasse o meu destino
Entre pallios (e a ponte sempre á vista),
E annel concluso a chispas de amethysta
A phrase falha do meu posthumo hymno...
Florescesse em meu glabro desatino
O hymeneu das escadas da conquista
Cuja preguiça, arrecadada, dista
Almas do meu impulso cristallino...
Meus ocios ricos assim fôssem, villas
Pelo campo romano, e a toga traça
No meu soslaio anónymas (desgraça
A vida) curvas sob mãos intranquillas...
E tudo sem Cleopatra teria
Findado perto de onde raia o dia...

IX

Meu coração é um portico partido
Dando excessivamente sobre o mar.
Vejo em minha alma as velas vãs passar
E cada vela passa num sentido.
Um soslaio de sombras e ruido
Na transparente solidão do ar
Evoca estrellas sobre a noite estar
Em affastados ceus o pórtico ido...
E em palmares de Antilhas entrevistas
Atravez de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de amethystas,
Imperfeito o sabor de compensando
O grande espaço entre os tropheus alçados
Ao centro do triumpho em ruido e bando...

X

Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Atravez de nevoeiros,
Do meu proprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e atravez estranhos ritos
De sombra e luz occasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incognita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscripto...
Cahiu chuva em passados que fui eu.
Houve planicies de céu baixo e neve
Nalguma cousa de alma do que é meu.
Narrei-me á sombra e não me achei sentido.
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outr’ora a sua capital de olvido...

XI

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E occulta mão colora alguem em mim.
Puz a alma no nexo de perdê-la
E o meu principio floresceu em Fim.
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve outomno, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pallios de setim?
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágua? A vida? O sonho? Deixa-se…
E, abrindo as azas sobre Renovar,
A erma sombra do vôo começado
Pestaneja no campo abandonado...

XII

Ella ia, tranquilla pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Seguia-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...
«Em longes terras hás de ser rainha»
Um dia lhe disseram, mas em vão. . .
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...
Deus te dê lyrios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora —
Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistincto
Abysmo entre o meu sonho e o meu porvir...

XIII

Emissário de um rei desconhecido,
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas phrases que aos meus labios vêm
Sôam-me a um outro e anómalo sentido...
Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a gloria do meu Rei dá-me o desdem
Por este humano povo entre quem lido...
Não sei se existe o Rei que me mandou.
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...
Mas há! eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...

XIV

Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), pra além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Appareceu já sem disfarce
De musica longiqua, azas nos ares,
O mysterio silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paysagem longiqua só existe
Para haver nella um silencio em descida
Pra o mysterio, silencio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...

FERNANDO PESSOA.

O XII. Soneto desta sequência foi republicado em O “Notícias” Ilustrado, 28 Abril de 1929, p. 11, com diferenças ortográficas e ao nível da maiúscula inicial de alguns versos. Apresentamos aqui as imagens de ambas as publicações.