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Rubaiyat

Fernando Pessoa

Contemporânea 2,

Julho-Outubro de 1926.

RUBAIYAT

O fim do longo, inutil dia ensombra.
A mesma sp’rança que não deu se escombra,
Prolixa... A vida é um mendigo bebado
Que extende a mão á sua propria sombra.
Dormimos o universo. A extensa massa
Da confusão das cousas nos enlaça,
Sonhos; e a ebria confluencia humana
Vazia echoa-se de raça em raça.
Ao goso segue a dôr, e o goso a esta.
Ora o vinho bebemos porque é festa,
Ora o vinho bebemos porque ha dôr.
Mas de um e de outro vinho nada resta.

FERNANDO PESSOA