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Mar Portuguez

Fernando Pessoa

Contemporânea 4,

Outubro de 1922, pp.9-14.

MAR PORTUGUEZ

I

O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quiz que a terra fôsse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou creou-te portuguez.
Do mar e nós em ti nos deu signal.
Cumpriu-se o Mar, e o Imperio se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

II

HORIZONTE

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos!
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas, e o mysterio,
Abria em flôr o Longe, e o Sul siderio
Splendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longinqua costa —
Quando a nau se approxima, ergue-se a encosta
Em arvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto abre-se a terra em sons e côres;
E no desembarcar ha aves, flôres,
Onde era só, de longe a abstracta linha.
O sonho é ver as fórmas invisiveis
Da distancia imprecisa, e, com sensiveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A arvore, a praia, a flôr, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

III

PADRÃO

O exforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno

E para deante naveguei.


A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão signala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:

O por-fazer é só com Deus.


E ao immenso e possivel oceano
Ensinam estas quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:

O mar sem fim é portuguez.


E a cruz ao alto diz que o que me ha na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma

O porto sempre por achar.


IV

O MORCEGO

O morcego que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar,
Á roda da nau voou trez vezes,
Voou trez vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo,

«El-Rei Dom João Segundo!»


«De quem são as velas onde me róço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o morcego, e rodou trez vezes,
Trez vezes rodou immundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que móro onde nunca ninguem me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei Dom João Segundo!»


Trez vezes do leme as mãos ergueu,
Trez vezes ao leme as reprendeu,
E ao monstro que volta disse trez vezes,
«Aqui ao leme sou mais que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu!
E mais que o morcego, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,

D’El-Rei D. João Segundo!»


V

EPITAPHIO DE BARTHOLOMEU DIAS

Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
O mar é o mesmo: já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu hombro.

VI

IRONIA

Faz um a casa onde outro poz a pedra.
O gallego Colón, de Pontevedra,
Seguiu nos para onde nós não fomos.
Não vimos da nossa arvore esses pomos.
Um imperio ganhou para Castella,
Para si gloria merecida — aquella
De um grande longe aos mares conquistado.
Mas não ganhou o tel-o começado.

VII

OS DESCOBRIDORES DO OCCIDENTE

Com duas mãos, o Acto e o Destino,
Desvendámos. No mesmo gesto, ao ceu
Uma ergue o facho tremulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fôsse a hora propicia ou a força fria
A mão que o Oeste a estes entregou,
Foi alma a Sciencia e corpo a Ousadia
Da mão que consummou.
Fôsse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que a estes o Occidente abriu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.

VIII

DANÇA DOS TITANS

No valle clareia uma fogueira,
Uma dança sacode a terra inteira,
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do valle vão
Subitamente pelas encostas
E vão perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os titans, os filhos da Terra,
Que dançam á morte do marinheiro
Que quiz cingir o materno vulto,
Ser circumnavegador primeiro,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda commanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço;
Que mesmo ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço!
Violou a terra. Mas elles não
O sabem, e dançam na escuridão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do valle pelas encostas
Dos mudos montes.

IX

ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA

Os deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o odio da sua guerra
E pasmam. Pelo valle onde se ascende aos céus
Surge um silencio, e vae, da nevoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-o, ao durar, os medos, hombro a hombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cahe-lhe, e em extase vê, á luz de mil trovões,
O céu abrir o abysmo á alma do Argonauta.

X

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!


Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão resaram!


Quantas noivas ficaram por casar

Para que fôsses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena!


Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.


Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,

Mas nelle é que espelhou o céu.


XI

A ULTIMA NAU

Levando a bordo el-rei Dom Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto, o pendão

Do Imperio,


Foi-se a ultima nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ansia e de presago

Mysterio.


Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Volverá da sorte incerta

Que teve?


Deus guarda o corpo e a fórma do futuro,
Mas sua luz projecta-o, sonho escuro

E breve.


Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minh’alma atlantica se exalta

E entorna,


E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço

Que torna.


Não sei a hora, mas sei que ha a hora,
Demora-a Deus, chame-lhe a alma embora

Mysterio.


Surges ao sol em mim, e a nevoa finda,
A mesma, e trazes o pendão ainda

Do Imperio.


XII

PRECE

Senhor, a noite veiu e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silencio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chamma, que a vida em nós creou,
Se ainda ha vida ainda não é finda;
O frio morto em cinzas a occultou;
A mão do vento pode erguel-a ainda.
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ansia —,
Com que a chamma do exforço se remóça,
E outra vez conquistemos a Distancia —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

FERNANDO PESSOA.

O poema “Prece“, aqui incluído em “Mar Portuguez”, foi republicado em O “Notícias” Ilustrado, 20 de Janeiro de 1929, p. 7, com diferenças ortográficas e de pontuação. Apresentamos aqui as imagens de ambas as publicações.

Os poemas I, IV e XII foram republicados sob o título de conjunto “Do livro Mensagem” (Diário de Lisboa, 14 de Dezembro de 1934, p. 5). Para além de diferenças ortográficas e de pontuação, o poema IV é aí publicado sob o título “O Mostrengo”, apresentando variantes em diversos versos. A sequência “Mar Portuguez” foi republicada, sob o mesmo título, com diferenças ortográficas e de pontuação, em Revolução, 16 de Junho de 1933. Aguardamos a disponibilização das imagens deste jornal. Foi ainda republicada no livro Mensagem (Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934), com variações ortográficas, de pontuação e conteúdo dos poemas. O poema “Ironia” não foi incluído no livro, sendo substituído por “Os Colombos”.