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Coisas estiliticas que aconteceram a um gomil cinzelado, que se dizia ter sido batido no ceu, em tempos da velha fabula, por um deus amoroso

Fernando Pessoa

Teatro - Revista de Critica 2, 8 de Março de 1913, p. 4.

Coisas estilisticas que aconteceram a um gomil cinzelado, que se dizia ter sido batido no ceu, em tempos da velha fabula, por um deus amoroso

Pegue-se num côrno, chame-se-lhe prosa, e ter-se-ha o estilo do sr. Manuel de Sousa Pinto.

E, comtudo, é um homem inteligente este critico de alguma arte. Não é, é certo, um homem de talento, por mais que no caso o sr. João de Barros tenha um sim de ida-e-volta. Mas não nos leve esta critica de anzol a reagir excessivamente. É um homem inteligente o sr. Sousa Pinto. A especie de inteligentes a que pertence é a dos criticos, e o genero de criticos em que entra é o dos criticos de segunda ordem.

É um genero entre vulgar e raro. Conhece-se facilmente. O critico de segunda ordem alia á capacidade de apreciação a incapacidade de compreensão e de analise. É mais ou menos razoavelmente seguro na critica a cousas que não involvam reforma ou novidade. E, em materia de pôr opiniões por escrito, dispõe dum estilo que, quando normal, é simples, vivo e interessante; mas idéas e forma, só as tem adaptadas a uma especie quasi subliteraria – a cronica.

Daqui se conclue que o critico de segunda ordem é um bom critico que é um mau critico. Ha três ordens de maus criticos: estes, os de segunda ordem, porque não são de primeira; os sectarios (como Brunetière) porque são sectarios; e os que não são criticos porque não são criticos (como grande numero de poetas e artistas, e mesmo de pensadores por outros caminhos). Destas três especies de herejes da apreciação, os ultimos nunca devem cair em dar parecer, e os primeiros e segundos devem escrever o velho “conhece-te” em letras muito grandes, num papel muito branco que terão sempre colado na parêde, defronte da sua meza de trabalho.

Ha três cousas que o critico de segunda ordem nunca deve cair em fazer: [em ter opinião propria, em criticar obras que tenham novidade ou complexidade, e em produzir arte. Não deve querer ter opinião propria porque opinião propria, na critica, involve o pre-estabelecimento raciocinado ou meditado de principios ou teorias proprias; e um critico de segunda ordem tem, por natureza, tanto poder de theorisar como uma tainha ou um caracol. Não deve criticar novidades e complexidades porque não tem individualidade bastante para se despegar naturalmente do usual e do simples, nem inteligencia que baste para se arrancar a elle á força. No primeiro deste erros tem o sr. Sousa Pinto caido um pouco, no segundo mais alguma coisa de que um pouco. Mas o que nos importa é que, levado pelo que deve ser vaidade, pelo seu imperfeito senso critico, e, sem duvida, tambem por elogios que varia gente inferior lhe tem videiramente e até sinceramente feito, o sr. Sousa Pinto se metteu, intelectualmente, no leito de Procrustes de romancear, donde saíu sem pés nem cabeça. Porque, francamente, esta leria do Gomil é impossível de gramar. Uma pieguiçe corn ea, um amorudismo em espiral, uma artificialidade vêsga (porque o sr. Soura Pinto não é um artificial; quér sel-o), um cubismo de modos-de-querer-dizer, no manejo de um assumpto que pedia o mais simples e diréto dos estilos – O Gomil dos Noivados e tudo isto – tudo isto itersticiado, como nestes casos é fatal, de quedas esticantes na banalidade de expressão, na banalidade de noticiario e de carnet mondain, no nivel do «gentilissima» e do «elegantissima». Recorra-se á citação.

Por mais que diligenciasse afugenta-la, mais se fortalecia no animo sobresaltado do principe a convicção terrivel d’aquella glacial indiferencia indespertavel, como mais apavorante se antolhava á princeza, de si mesmo desgostada, a incompatibilidade d’aquella desegualissima intimidade. (Pag. 71)

Este estilo é a caricatura de si-propio. Aquele “animo sobresaltado,” que é de costureira aquela “convicção terrivel d’aquella glacial indiferença indespertavel,” que é de reportes doido, aquilo da “desegualissima intimidade,” que é de discurso de conselheiro – dá nisto um homem inteligente, e que é, creio e lamento, estudioso e trabalhador.

Deixe-se disso, Sousa Pinto. Torne á cronica, homem; escreva como deve e pode e deixe os romances aos romancistas. Mande ao diabo os Joões de Barros e Joaquins Mansos e todo o resto da coterie d’entre-porta-e-porta da Livraria Ferreira.

Isto é amavel e sincero. Não é o Torna-te ás terra que batatas criam de Castilho, nem o So back to the Shop, Mr. John! da! Quarterly Review a Keats. É a traducção para explicado e extenso do comentario arre! que puz a lapis na ultima pagina do seu livro entre a palavra FIM e o bemdito desaparecer para sempre do seu estuporadissimo gomil. Quem lhe mandou tocar rabeção? O sr. não sabe musica...

Fernando Pessôa.

  • Names

    • Antonio Feliciano de Castilho
    • Ferdinand Brunetière
    • Joaquim Manso
    • John Keats
    • João de Barros
    • Manuel de Sousa Pinto

    Titles

    • Gomil
    • O Gomil dos Noivados

    Periodicals

    • Quarterly Review