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António Botto e o ideal estético em Portugal

Fernando Pessoa

Contemporânea 3, julho de 1922, pp. 121-126.

  • ANTONIO BOTTO

    E O IDEAL ESTHETICO EM PORTUGAL

    ANTONIO BOTTO é o unico portuguez, dos que conhecidamente escrevem, a quem a designação de estheta se pode applicar sem dissonancia. Com um perfeito instincto elle segue o ideal a que se tem chamado esthetico, e que é uma das formas, se bem que a infima, do ideal hellenico. Segue-o, porém, a par de com o instincto, com uma perfeita intelligencia, porque os ideaes gregos, como são intellectuaes, não podem ser seguidos inconscientemente.

    A obra de Antonio Botto, no que realmente typica, resume-se, por ora, no seu ultimo livro, Canções . Que essa obra se distingue com facilidade da obra de qualquer outro poeta, portuguez ou estrangeiro ― todos, que possam ver, o podem ver. Já não é tão facil explicar em que consiste, distinctivamente, essa differença. Algum interesse haverá em determinal-o.

     

    Nasce o ideal da nossa consciencia da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideaes possiveis, quantos forem os modos por que é possivel ter a vida por imperfeita. A cada modo de a ter por imperfeita corresponderá, por contraste e similhança, um conceito de perfeição. É a esse conceito de perfeição que se dá o nome de ideal.

    Por muitas que pareça que devem ser as maneiras por que se pode ter a vida por imperfeita, ellas são, fundamentalmente, apenas trez. Com effeito, ha só trez conceitos possiveis de imperfeição, e, portanto, da perfeição que se lhe opõe.

    Podemos ter qualquer cousa por imperfeita simplesmente por ella ser imperfeita: é a imperfeição que imputamos a um artefacto mal fabricado. Podemos, por contra, tel-a por imperfeita porque a imperfeicão resida, não na realização, senão na essencia. Será quantitativa ou qualitativa a differença entre a essencia d’essa cousa imperfeita e a essencia do que consideramos perfeição; quantitativa como se dissessemos da noite, comparando-a ao dia, que é imperfeita porque é menos clara; qualitativa como se, no mesmo caso, dissessemos que a noite é imperfeita porque é o contrario do dia.

    Pelo primeiro d’estes criterios, applicando-o ao conjunto da vida, tel-a-hemos por imperfeita por nos parecer que fallece naquillo mesmo por que se define, naquillo mesmo que parece que deveria ser. Assim, todo o corpo é imperfeito porque não é um corpo perfeito; toda a vida imperfeita porque, durando, não dura sempre; todo o prazer imperfeito porque o envelhece o cansaço; toda a comprehensão imperfeita porque, quanto mais se expande, em maiores fronteiras confina com o incomprehensivel que a cerca. Quem sente d’esta maneira a imperfeição da vida, quem assim a compara com ella-propria, tendo-a por infiel á sua propria natureza, força é que sinta como ideal um conceito de perfeição que se appoie na mesma vida. Este ideal de perfeição é o ideal hellenico, ou o que pode assim designar-se, por terem sido os gregos antigos quem mais distinctivamente o teve, quem, em verdade, o formou, de quem, porcerto, elle foi herdado pelas civilizações posteriores.

    Pelo segundo d’estes criterios teremos a vida por imperfeita por uma deficiencia quantitativa da sua essencia, ou, em outras palavras, por a considerarmos inferior ― inferior a qualquer cousa, ou a qualquer principio, em o qual, em relação a ella, resida a superioridade. É esta inferioridade essencial que, neste criterio, dá ás cousas a imperfeição que ellas mostram. Porque é vil e terreno, o corpo morre; não dura o prazer, porque é do corpo, e porisso vil, e a essencia do que é vil é não poder durar; desapparece a juventude porque é um episodio d’esta vida passageira; murcha a belleza que vemos porque cresce na haste temporal. Só Deus, e a alma, que elle creou e se lhe assemelha, são a perfeição e a verdadeira vida. Este é o ideal a que poderemos chamar christão, não só porque é o christismo a religião que mais perfeitamente o definiu, mas tambem porque é aquella que mais perfeitamente o definiu para nós.

    Pelo último dos mesmos criterios teremos a vida por imperfeita por a julgarmos consubstanciada com a imperfeição, isto é, não-existente, porque a não-existência, sendo a negação suprema, é a absoluta imperfeição. Teremos a vida por illusoria; não já imperfeita, como para os gregos, por não ser perfeita; não já imperfeita, como para os christãos, por ser vil e material; senão imperfeita por não existir, por ser mera apparencia, absolutamente apparencia, vil portanto, se vil, não tanto com a vileza do que é vil, quanto com a vileza do que é falso. É d’este conceito de imperfeição que nasce aquella forma do ideal que nos é mais familiarmente conhecida no buddhismo, embora as suas manifestações houvessem surgido na India muito antes d’aquelle systema mystico, filhos ambos, elle como ellas, do mesmo substrato metaphysico. É certo que este ideal apparece, com formas e applicações diversas, nos espiritualistas symbolicos, ou occultistas, de quasi todas as confissões. Como, porém, foi na India que as manifestações formaes d’elle distinctivamente appareceram, poderemos ser imprecisos, porém não seremos inexactos, se dermos a este ideal, por conveniencia, o nome de ideal indio.

     

    Pela propria natureza do seu ideal, é a civilização hellenica essencialmente a civilização artistica. Fazer arte é querer tornar o mundo mais bello, porque a obra de arte, uma vez feita, constitue belleza objectiva, belleza accrescentada á que ha no mundo. Para que esta actividade lembre e preoccupe, é mister haver um criterio objectivo de belleza ou de perfeição. Ora, dos trez criterios de perfeição só o dos gregos tem objectividade. Que impulso natural pode ter para crear obras de arte, formas que pertencem ao mundo e á vida, quem, como o christão, tem o mundo por pó e mal, a vida por vileza e peccado, ou quem, como o mystico da India, tem toda a Apparencia por illusão absoluta, flor que nasceu murcha na haste da Mentira? Se a creação artistica não procedesse de um instincto irreprimivel nas communidades civilizadas, nunca teria havido arte india, nem cristã. E a arte christã, por certo, ter-se-hia approximado mais da imperfeição estrutural e formal da arte india, se não fosse que o hellenismo é um elemento componente do christismo, e que a arte dos povos christãos, tendo a dos gregos por exemplar, se guia, nas suas manifestações superiores, pelos principios assentes como fundamentaes pelo preceito e exemplo dos classicos.

     

    Ha, porém, uma outra razão, esta mais emotiva e profunda, para que o ideal hellenico seja, de todos, o que mais directamente conduz á creação artistica.

    O christão é metaphysicamente feliz. Tem os olhos da alma postos naquella perfeição divina em que não ha mudança nem cessação. Pesa-lhe pouco a vileza do mundo: viver e ver são para elle um mal-estar transitorio. Ao indio nada doe o haver mundo; volta para o lado o rosto, e contempla em extase o Todo a que nem o Nada falta. É metaphysicamente feliz tambem.

    Outra é a vida espiritual do homem de ideal hellenico. Esse vê que a vida é imperfeita, porque é imperfeita; porém não regeita a vida, porque é na mesma vida que tem postos os olhos. Mesmo que veja no mundo dos deuses aquella belleza suprema, pela qual anseia, anseia tambem por essa belleza nos homens. «A raça dos deuses e dos homens é uma só», disse Pindaro; a uns deve pertencer o que aos outros pertence. Porisso, dos trez idealistas, é o helleno o único que não pode rejeitar aquella vida a que chama imperfeita. O seu ideal é, portanto, humanamente o mais tragico e profundo.

    De aqui o que resulta? A carencia de uma fé religiosa, de uma confiança, moral ou metaphysica, no Além reduz as almas vis ou á materialidade animal, ou á esteril ficção de um millenio do estomago ― o socialismo, o anarquismo, e todos os plutocratismos invertidos que se lhes assemelham; porisso os mais scepticos dos gregos e dos romanos nunca pretenderam que se destruisse a fé religiosa das plebes, por estulta e irrisoria que a julgassem. Se é este, porém, o effeito do ideal puramente objectivo nas almas inferiores, nos espiritos superiores, que são os susceptiveis de crear, o effeito é outro. Não podendo buscar consolação espiritual na religião, força é que a busquem na vida. Como, porém, encontral-a na vida, se a vida é imperfeita, e o imperfeito, por sua natureza, não pode construir ideal, porque o ideal é perfeição? Aperfeiçoando a vida, para que a sua imperfeição lhes doa menos. Aperfeiçoando-a como? Objectivamente não pode ser, porque a acção humana sobre o universo é menos que limitadissima. É portanto só subjectivamente que se pode aperfeiçoal-a, aperfeiçoando o conceito e o sentimento d’ella. A consolação e o repouso, no que podem attingir-se, só a Arte, portanto, os pode dar. A Arte é, com effeito, o aperfeiçoamento subjectivo da vida.

    A calma, o equilibrio, a harmonia, characteristicos distinctivos, com outros, que os não contradizem, da arte grega, provam bem que não é abusiva a attribuição d’esta intima direcção logica ao caminho do instincto hellenico para o ideal esthetico absoluto.

     

    Quando o helleno pretende pôr em arte o seu ideal, isto é, quando o ideal hellenico assume o aspecto creador ou activo, são trez as formas de manifestação por que se revela.

    Na primeira, e mais alta, d’essas formas, o helleno, vendo que a vida é imperfeita, busca crear, elle, a perfeição, substituindo a arte á vida; e busca incluir em cada obra, para que a substituição seja perfeita, ou toda a vida ou um aspecto supremo da vida. É esta a forma intellectual e constructiva do ideal esthetico absoluto; Homero e Virgilio dos antigos, Dante e Milton dos modernos, são os representantes maximos d’ella. As obras d’estes poetas mostram a preoccupação severa da perfeição absoluta, revelada tanto na estructuração harmonica de um conjuncto pleno de significação, quanto na execução escrupulosa de todos os elementos seus componentes.

    Na segunda, e media, d’essas formas, o helleno, sentindo que a vida é imperfeita, busca aperfeiçoal-a em si proprio, vivendo-a com uma comprehensão intensa, vivendo de dentro, com o espirito, a essencia do transitorio e do imperfeito. É esta a forma emotiva e dolorosa do ideal esthetico absoluto; foi este conceito da vida o que creou a tragedia, desconhecida, como especie emotiva e esthetica, antes dos gregos.

    Na terceira, e infima, d’essas formas, o helleno, vendo e sentindo vagamente a imperfeição das cousas, porém sem força espiritual, quer para construir uma perfeição que as substitua, quer para se consubstanciar emotivamente com a sua imperfeição, decide acceital-as como se fossem perfeitas, escolhendo em cada uma aquelle momento, aquelle gesto, aquella passagem que de tal modo encheu a nossa capacidade de sensação que naquelle momento, naquelle gesto, naquella passagem, a sentimos perfeita. É esta a forma sensual do ideal esthetico absoluto; forma debil, porque não a energiza uma reacção da intelligencia, vazia, porque a emoção lhe não dá corpo, mas por isso mesmo, porque é esthetica e mais nada, propriamente classificavel de ideal esthetico, sem qualificação.

     

    De que maneira, por que processo reconheceremos o estheta, propriamente tal, na sua obra? Quaes são os signaes necessarios da applicação do ideal esthetico? Como distinguiremos, se se trata de poetas, o estheta do poeta simples, que canta simplesmente o prazer e a vida, porque lhe não cabe mais na alma? Como distinguiremos o estheta do christão revoltado, que procura o peccado só porque é peccado, e blasphema, embora subtilmente, só para ter a consciencia da blasphemia? Em outras palavras como distinguiremos o estheta do satanico menor?

    A distincção não apresenta difficuldade, desde que nos representemos com clareza em que consiste necessariamente a applicação activa do ideal esthetico.

    Se o ideal esthetico consiste na consideração vaga de que a vida é imperfeita, e que só é perfeita, num momento feliz, a nossa sensação d’ella, força é que essa consideração não attinja um alto grau de absorpção metaphysica ou moral; porque, se fôr altamente metaphysica haverá consciencia de mais para poder haver illusão, e, se fôr altamente moral, haverá dôr de sobra para que a illusão possa agradar.

    O primeiro characteristico da arte do estheta é pois a ausencia de elementos metaphysicos e moraes na substancia da sua ideação. Como, porém, os ideaes hellenicos procedem todos de uma applicação directamente critica da intelligencia á vida, e da sensibilidade ao conteudo d’ella, essa ausencia de metaphysica não será uma ausencia de idéas metaphysicas, nem essa ausencia de moral uma ausencia de idéas moraes. Ha uma idéa que, sem ser metaphysica nem moral, faz, na obra do estheta, as vezes das idéas moraes e metaphysicas. O estheta substitue a idéa de belleza á idéa de verdade e á idéa de bem, porém dá, por isso mesmo, a essa idéa de belleza um alcance metaphysico e moral. A celebre «Conclusão» da Renascença de Pater, o maior dos esthetas europeus, é o exemplo culminante d’esta attitude.

    Nisto se distingue a obra do estheta da obra do artista simples, em quem os elementos metaphysicos e moraes são ausentes, não por differença de ideal, senão por ausencia d’elle.

    Se, porém, o estheta substitue a idéa de belleza á idéa de verdade e á de bem, o certo é que, por isso mesmo que as substituiu por outra, se não interessa pelas idéas de bem e de verdade. Não é por isso, propriamente, nem sceptico nem immoral; o proposito de ser sceptico revela uma preoccupação metaphysica, o de ser immoral uma preoccupação ethica, e o character negativo de ambas as preoccupações não as torna menos preoccupações. Nisto claramente se distingue o estheta do mau christão decadente, como Baudelaire ou Wilde.

     

    Se tivermos presentes estas considerações na analyse do livro de Antonio Botto, não nos será difficil determinar que esse livro representa uma das revelações mais raras e perfeitas do ideal esthetico, que se podem imaginar.

    Que a substancia do livro é altamente intellectual, revela-o o estudo cuidado da forma e rhythmo, a escolha severa dos momentos representativos, a falta de espontaneidade emotiva que em cada verso se manifesta. Tudo é pensado, tudo é critico e consciente. Não ha, porém, como seria de esperar de uma intelligencia tão constantemente empregada, metaphysica nenhuma, nem explicita nem implicita, interesse nenhum pelas idéas como taes. É uma intelligencia que dirige, porém não pensa; que comprehende, porém não aprofunda; que guia, porém não se preoccupa. Nem positivamente, nem negativamente, suggere o livro Canções qualquer metaphysica. Duas idéas centraes governam a inspiração do poeta, e lhe servem de metaphysica e de moral. São as idéas de belleza physica e de prazer. A analyse do conteúdo d’essas duas idéas, taes quaes se nos apresentam nas Canções , revelará o estheta inequivocamente. No modo como apresenta a primeira d’ellas, o poeta afasta-se de toda a especie de moralidade; no modo como apresenta a segunda, de toda a especie de immoralidade.

     

    Das trez formas, que podemos conceber, da belleza physica ― a graça, a força e a perfeição ―, o corpo feminino tem só a primeira, porque não pode ter a belleza da força sem quebra da sua feminilidade, isto é, sem perda do seu character proprio; o corpo masculino pode, sem quebra da sua masculinidade, reunir a graça e a força; a perfeição só aos corpos dos deuses, se existem, é dado tel-a. Um homem, se se guiar pelo instinto sexual, e não pelo instinto esthetico, cantará, como poeta, só o corpo feminino. Essa attitude representa uma preoccupação exclusivamente moral. O instinto sexual, normalmente tendente para o sexo opposto, é o mais rudimentar dos instinctos moraes. A sexualidade é uma ethica animal, a primeira e a mais instinctiva das ethicas. Como, porém, o esteta canta a belleza sem preoccupação ethica, segue que a cantará onde mais a encontre, e não onde suggestões externas á esthetica, como a suggestão sexual, o façam procural-a. Como se guia, pois, só pela belleza, o esteta canta de preferência o corpo masculino, por ser o corpo humano que mais elementos de belleza, dos poucos que ha, pode acumular.

    Foi assim que pensaram os gregos; foi esse pensamento que Winckelmann, fundador do esthetismo na Europa, descobrindo-o nelles, reproduziu, como no passo célebre que Pater transcreveu, e que parece feito para servir de prefacio a um livro como Canções :

    «Como é confessadamente a belleza do homem que tem que ser concebida sob uma idéa geral, assim tenho notado que aquelles que observam a belleza só nas mulheres, e pouco ou nada se commovem com a belleza dos homens, raras vezes teem instinto imparcial, vital, innato da belleza na arte. A pessoas como essas a belleza da arte grega parecerá sempre falha, porque a sua belleza suprema é antes masculina que feminina».

    Ora é este conceito, puramente esthetico, da belleza physica que é, como todos sabem, porque escandalizadamente se notou, uma das duas idéas inspiradoras das Canções .

    Disse eu que Antonio Botto se afasta de toda a moralidade no modo por que canta a belleza physica, e que se afasta de toda a immoralidade no modo por que canta o prazer. De que modo canta elle o prazer? Que modo há de cantar o prazer que, sem ser moral (porque se o fôsse, estariamos fóra do caso esthetico), se afaste da immoralidade?

    Para com o prazer ha trez attitudes possiveis ― acceital-o, rejeital-o, acceital-o com moderação. A cada uma d’estas attitudes correspondem graus varios de moralidade e de immoralidade, porque pode haver moralidade no modo de acceitar o prazer, e immoralidade na maneira de rejeital-o. Aqui, porém, trata-se de quem acceita o prazer, e só o prazer; não temos portanto que considerar as outras hypotheses.

    Acceite o prazer, e só o prazer, de que modo pode elle ser acceite? Pode ser acceite como alegria, ou como forma da alegria, e é esta a maneira moral, porque é natural, de acceitar o prazer. Pode ser acceite como excitação, como, por assim dizer, a unica forma agradavel da dôr, pois que toda a excitação ― tomada a palavra no sentido vulgar, e não no physiologico ― tem um fundo de dor; e é esta a maneira immoral, porque é a anti-natural, de acceitar o prazer. Pode, finalmente, ser acceite simplesmente como prazer, como, em sua essencia, nem alegre nem triste, porém a unica cousa que pode encher o vacuo absurdo da existencia. D’este conceito de prazer não se pode dizer que seja moral nem immoral, logo que se não esqueça que se está considerando o prazer só, isolando-o de qualquer outro elemento da vida.

    Quem leia com attenção normal o livro Canções , não tardará que veja que é este ultimo o conceito que Antonio Botto forma do prazer, que é neste sentido de comprehendel-o que elle o canta. Canções é um hymno ao prazer, porém não ao prazer como alegria, nem como raiva, senão simplesmente como prazer. O prazer, como o poeta o canta, nem serve de dispertar a alegria da vida, nem de ministrar um antidoto a uma dôr substancial constante; serve apenas de encher um vacuo espiritual, a ser conceito de vida a quem não tem nenhum. Ha neste livro, sim, a intuição do fundo tragico do ideal hellenico, do fundo tragico de todo o prazer que sabe que não tem além. Essa intuição, porém, se é do que é tragico, não é tragica em si. Este prazer não tem a cor da alegria, nem a da dor. «A alegria» disse Nietzsche, «quer eternidade, quer profunda eternidade». Não é, nem nunca foi assim: a alegria não quer nada, e é por isso que é alegria. A dôr, essa, é o contrario da alegria, como a concebia Nietzsche: quer acabar, quer não ser. O prazer, porém, quando o concebemos fóra da relação essencial com a alegria ou com a dor, como o concebe o author d’este livro, esse, sim, quer eternidade; porém quer a eternidade num só momento.

    Resulta d’estas considerações, que me exforcei por fazer lucidas e concisas, a determinação exacta de que Antonio Botto, no seu livro Canções , se revela um dos typos mais perfeitos e mais integros do estheta, que se podem imaginar.

     

    Que importancia tem este facto? A de representar uma raridade. O typo perfeito do estheta é rarissimo na civilização christã, ou de origem christã, e mais que raro, porque, até ás Canções , desconhecido, em Portugal. A razão d’essa raridade, quer em toda a Europa, quer em Portugal, e o valor que nella haja, são relativamente faceis de comprehender.

    O ideal esthetico é, como se viu, uma das formas ― a mais tenue e vazia ― do ideal hellenico; mas, porisso mesmo que é a mais tenue e vazia d’ellas, é a mais explicitamente representativa d’aquelle ideal. Para que appareça um typo de estheta é necessario um meio social analogo ao meio social hellenico. Ora o meio social europeu, se é certo que modernamente, e em algumas das suas manifestações, de certo modo se approxima, tanto quanto pode ser, do meio social da Grecia antiga, é, em todo o caso, radicalmente differente d’elle. Segue que o apparecimento na Europa moderna de um typo integro de estheta só pode dar-se por um desvio pathologico, isto é, por uma inadaptação estructural aos principios constitutivos da civilização europeia, em que vivemos.

    Este desvio pathologico é, porém, no caso dos grandes esthetas europeus o elemento predisponente, se bem que, por isso mesmo, radical, do seu esthetismo; a elle se accrescenta uma mergencia prolongada do espirito na atmosphera hellenica, que lhe cria um perpetuo contacto, ainda que só intellectual, com a Grecia antiga e os seus ideaes. Da acção d’este segundo elemento sobre o primeiro o estheta desabrocha. São d’esta origem os esthetismos de Winckelmann e de Pater, quasi, em verdade, os unicos typos exactos do estheta que a civilização europeia pode apresentar. Como, porém, este esthetismo tem uma base cultural, resulta que tem a plenitude e a largueza que distinguem todos os productos culturaes, em contraposição aos naturaes seus similhantes, e porisso de algum modo transcende a estreiteza especifica do ideal esthetico, sem todavia deixar de lhe pertencer.

    Como os elementos culturaes são inteiramente negativos na obra de Antonio Botto, vemo-nos forçados a assentar em que o seu esthetismo nasce de um simples desvio pathologico, sem sollicitação cultural efficiente. Este processo de ser estheta apresenta uma singularidade notavel: é um desvio pathologico sem desequilibrio, porque todos os ideaes gregos (e portanto o esthetico, que é um d’elles) são essencialmente equilibrados e harmonicos. Ora um desvio pathologico equilibrado é uma de duas cousas ― ou o genio ou o talento. Ambos estes phenomenos são desvios pathologicos, porque, biologicamente considerados, são anormaes; porém não são só anormaes, porque teem uma acceitação exterior, tendo, portanto, um equilibrio. A esse desvio equilibrado chamar-se-ha genio quando é synthetico, talento quando é analytico; genio quando resulta da fusão original de varios elementos, talento quando procede do isolamento original de um só elemento.

    A dentro do ideal esthetico, os casos de Winckelmann e de Pater representam o genio, porque a tendencia para a realização cultural immanente no seu esthetismo ingenito é, por sua natureza, synthetica, o caso de Antonio Botto representa o talento, porque o ideal esthetico, dada a sua estreiteza e vacuidade, representa já o senso esthetico isolado de todos os outros elementos psychicos, e, no caso de Antonio Botto, estheta simples, esse isolamento não se modifica, como no esthetismo culto, pelo reflexo nelle da multiplicidade dos objectos de cultura.

    Temos, pois, por demonstração severamente conduzida, que o livro Canções é uma obra de talento, tendo além d’esse, o valor acessorio e especial de ser o unico exemplo, que eu saiba, na litteratura europeia, do isolamento espontaneo e absoluto do ideal esthetico em toda a sua vazia integridade.

    Àparte este valor, que pertence áquella obra em absoluto, isto é, como obra e não como obra em portuguez, o livro Canções tem, para nós em Portugal, um outro aspecto de valor, já de ordem relativa. É que é o único exemplo em Portugal da realização litteraria, de qualquer especie, do ideal esthetico. Facilmente o verificará quem houver lido com attenção o que estabelecemos sobre os characteristicos do estheta. Artistas tem havido muitos em Portugal; esthetas só o autor das Canções .

    FERNANDO PESSOA

  • ANTÓNIO BOTTO

    E O IDEAL ESTÉTICO EM PORTUGAL

    ANTÓNIO BOTTO é o único português, dos que conhecidamente escrevem, a quem a designação de esteta se pode aplicar sem dissonância. Com um perfeito instinto ele segue o ideal a que se tem chamado estético, e que é uma das formas, se bem que a ínfima, do ideal helénico. Segue-o, porém, a par de com o instinto, com uma perfeita inteligência, porque os ideais gregos, como são intelectuais, não podem ser seguidos inconscientemente.

    A obra de António Botto, no que realmente típica, resume-se, por ora, no seu último livro, Canções. Que essa obra se distingue com facilidade da obra de qualquer outro poeta, português ou estrangeiro ― todos, que possam ver, o podem ver. Já não é tão fácil explicar em que consiste, distintivamente, essa diferença. Algum interesse haverá em determiná-lo.

     

    Nasce o ideal da nossa consciência da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideais possíveis, quantos forem os modos por que é possível ter a vida por imperfeita. A cada modo de a ter por imperfeita corresponderá, por contraste e semelhança, um conceito de perfeição. É a esse conceito de perfeição que se dá o nome de ideal.

    Por muitas que pareça que devem ser as maneiras por que se pode ter a vida por imperfeita, elas são, fundamentalmente, apenas três. Com efeito, há só três conceitos possíveis de imperfeição, e, portanto, da perfeição que se lhe opõe.

    Podemos ter qualquer coisa por imperfeita simplesmente por ela ser imperfeita: é a imperfeição que imputamos a um artefacto mal fabricado. Podemos, por contra, tê-la por imperfeita porque a imperfeicão resida, não na realização, senão na essência. Será quantitativa ou qualitativa a diferença entre a essência dessa coisa imperfeita e a essência do que consideramos perfeição; quantitativa como se disséssemos da noite, comparando-a ao dia, que é imperfeita porque é menos clara; qualitativa como se, no mesmo caso, disséssemos que a noite é imperfeita porque é o contrário do dia.

    Pelo primeiro destes critérios, aplicando-o ao conjunto da vida, tê-la-emos por imperfeita por nos parecer que falece naquilo mesmo por que se define, naquilo mesmo que parece que deveria ser. Assim, todo o corpo é imperfeito porque não é um corpo perfeito; toda a vida imperfeita porque, durando, não dura sempre; todo o prazer imperfeito porque o envelhece o cansaço; toda a compreensão imperfeita porque, quanto mais se expande, em maiores fronteiras confina com o incompreensível que a cerca. Quem sente desta maneira a imperfeição da vida, quem assim a compara com ela própria, tendo-a por infiel à sua própria natureza, força é que sinta como ideal um conceito de perfeição que se apoie na mesma vida. Este ideal de perfeição é o ideal helénico, ou o que pode assim designar-se, por terem sido os gregos antigos quem mais distintivamente o teve, quem, em verdade, o formou, de quem, por certo, ele foi herdado pelas civilizações posteriores.

    Pelo segundo destes critérios teremos a vida por imperfeita por uma deficiência quantitativa da sua essência, ou, em outras palavras, por a considerarmos inferior ― inferior a qualquer coisa, ou a qualquer princípio, em o qual, em relação a ela, resida a superioridade. É esta inferioridade essencial que, neste critério, dá às coisas a imperfeição que elas mostram. Porque é vil e terreno, o corpo morre; não dura o prazer, porque é do corpo, e por isso vil, e a essência do que é vil é não poder durar; desaparece a juventude porque é um episódio desta vida passageira; murcha a beleza que vemos porque cresce na haste temporal. Só Deus, e a alma, que ele criou e se lhe assemelha, são a perfeição e a verdadeira vida. Este é o ideal a que poderemos chamar cristão, não só porque é o cristismo a religião que mais perfeitamente o definiu, mas também porque é aquela que mais perfeitamente o definiu para nós.

    Pelo último dos mesmos critérios teremos a vida por imperfeita por a julgarmos consubstanciada com a imperfeição, isto é, não-existente, porque a não-existência, sendo a negação suprema, é a absoluta imperfeição. Teremos a vida por ilusória; não já imperfeita, como para os gregos, por não ser perfeita; não já imperfeita, como para os cristãos, por ser vil e material; senão imperfeita por não existir, por ser mera aparência, absolutamente aparência, vil portanto, se vil, não tanto com a vileza do que é vil, quanto com a vileza do que é falso. É deste conceito de imperfeição que nasce aquela forma do ideal que nos é mais familiarmente conhecida no budismo, embora as suas manifestações houvessem surgido na Índia muito antes daquele sistema místico, filhos ambos, ele como elas, do mesmo substrato metafísico. É certo que este ideal aparece, com formas e aplicações diversas, nos espiritualistas simbólicos, ou ocultistas, de quase todas as confissões. Como, porém, foi na Índia que as manifestações formais dele distintivamente apareceram, poderemos ser imprecisos, porém não seremos inexatos, se dermos a este ideal, por conveniência, o nome de ideal índio.

     

    Pela própria natureza do seu ideal, é a civilização helénica essencialmente a civilização artística. Fazer arte é querer tornar o mundo mais belo, porque a obra de arte, uma vez feita, constitui beleza objetiva, beleza acrescentada à que há no mundo. Para que esta atividade lembre e preocupe, é míster haver um critério objetivo de beleza ou de perfeição. Ora, dos três critérios de perfeição só o dos gregos tem objetividade. Que impulso natural pode ter para criar obras de arte, formas que pertencem ao mundo e à vida, quem, como o cristão, tem o mundo por pó e mal, a vida por vileza e pecado, ou quem, como o místico da Índia, tem toda a Aparência por ilusão absoluta, flor que nasceu murcha na haste da Mentira? Se a criação artística não procedesse de um instinto irreprimível nas comunidades civilizadas, nunca teria havido arte índia, nem cristã. E a arte cristã, por certo, ter-se-ia aproximado mais da imperfeição estrutural e formal da arte índia, se não fosse que o helenismo é um elemento componente do cristismo, e que a arte dos povos cristãos, tendo a dos gregos por exemplar, se guia, nas suas manifestações superiores, pelos princípios assentes como fundamentais pelo preceito e exemplo dos clássicos.

     

    Há, porém, uma outra razão, esta mais emotiva e profunda, para que o ideal helénico seja, de todos, o que mais diretamente conduz à criação artística.

    O cristão é metafisicamente feliz. Tem os olhos da alma postos naquela perfeição divina em que não há mudança nem cessação. Pesa-lhe pouco a vileza do mundo: viver e ver são para ele um mal-estar transitório. Ao índio nada dói o haver mundo; volta para o lado o rosto, e contempla em êxtase o Todo a que nem o Nada falta. É metafisicamente feliz tambem.

    Outra é a vida espiritual do homem de ideal helénico. Esse vê que a vida é imperfeita, porque é imperfeita; porém não rejeita a vida, porque é na mesma vida que tem postos os olhos. Mesmo que veja no mundo dos deuses aquela beleza suprema, pela qual anseia, anseia também por essa beleza nos homens. «A raça dos deuses e dos homens é uma só», disse Píndaro; a uns deve pertencer o que aos outros pertence. Por isso, dos três idealistas, é o heleno o único que não pode rejeitar aquela vida a que chama imperfeita. O seu ideal é, portanto, humanamente o mais trágico e profundo.

    De aqui o que resulta? A carência de uma fé religiosa, de uma confiança, moral ou metafísica, no Além reduz as almas vis ou à materialidade animal, ou à estéril ficção de um milénio do estômago ― o socialismo, o anarquismo, e todos os plutocratismos invertidos que se lhes assemelham; por isso os mais céticos dos gregos e dos romanos nunca pretenderam que se destruísse a fé religiosa das plebes, por estulta e irrisória que a julgassem. Se é este, porém, o efeito do ideal puramente objetivo nas almas inferiores, nos espíritos superiores, que são os suscetíveis de criar, o efeito é outro. Não podendo buscar consolação espiritual na religião, força é que a busquem na vida. Como, porém, encontrá-la na vida, se a vida é imperfeita, e o imperfeito, por sua natureza, não pode construir ideal, porque o ideal é perfeição? Aperfeiçoando a vida, para que a sua imperfeição lhes doa menos. Aperfeiçoando-a como? Objetivamente não pode ser, porque a ação humana sobre o universo é menos que limitadíssima. É portanto só subjetivamente que se pode aperfeiçoá-la, aperfeiçoando o conceito e o sentimento dela. A consolação e o repouso, no que podem atingir-se, só a Arte, portanto, os pode dar. A Arte é, com efeito, o aperfeiçoamento subjetivo da vida.

    A calma, o equilíbrio, a harmonia, característicos distintivos, com outros, que os não contradizem, da arte grega, provam bem que não é abusiva a atribuição desta íntima direção lógica ao caminho do instinto helénico para o ideal estético absoluto.

     

    Quando o heleno pretende pôr em arte o seu ideal, isto é, quando o ideal helénico assume o aspeto criador ou ativo, são três as formas de manifestação por que se revela.

    Na primeira, e mais alta, dessas formas, o heleno, vendo que a vida é imperfeita, busca criar, ele, a perfeição, substituindo a arte à vida; e busca incluir em cada obra, para que a substituição seja perfeita, ou toda a vida ou um aspeto supremo da vida. É esta a forma intelectual e construtiva do ideal estético absoluto; Homero e Virgílio dos antigos, Dante e Milton dos modernos, são os representantes máximos dela. As obras destes poetas mostram a preocupação severa da perfeição absoluta, revelada tanto na estruturação harmónica de um conjunto pleno de significação, quanto na execução escrupulosa de todos os elementos seus componentes.

    Na segunda, e média, dessas formas, o heleno, sentindo que a vida é imperfeita, busca aperfeiçoá-la em si próprio, vivendo-a com uma compreensão intensa, vivendo de dentro, com o espírito, a essência do transitório e do imperfeito. É esta a forma emotiva e dolorosa do ideal estético absoluto; foi este conceito da vida o que criou a tragédia, desconhecida, como espécie emotiva e estética, antes dos gregos.

    Na terceira, e ínfima, dessas formas, o heleno, vendo e sentindo vagamente a imperfeição das coisas, porém sem força espiritual, quer para construir uma perfeição que as substitua, quer para se consubstanciar emotivamente com a sua imperfeição, decide aceitá-las como se fossem perfeitas, escolhendo em cada uma aquele momento, aquele gesto, aquela passagem que de tal modo encheu a nossa capacidade de sensação que naquele momento, naquele gesto, naquela passagem, a sentimos perfeita. É esta a forma sensual do ideal estético absoluto; forma débil, porque não a energiza uma reação da inteligência, vazia, porque a emoção lhe não dá corpo, mas por isso mesmo, porque é estética e mais nada, propriamente classificável de ideal estético, sem qualificação.

     

    De que maneira, por que processo reconheceremos o esteta, propriamente tal, na sua obra? Quaes são os sinais necessários da aplicação do ideal estético? Como distinguiremos, se se trata de poetas, o esteta do poeta simples, que canta simplesmente o prazer e a vida, porque lhe não cabe mais na alma? Como distinguiremos o esteta do cristão revoltado, que procura o pecado só porque é pecado, e blasfema, embora subtilmente, só para ter a consciência da blasfémia? Em outras palavras como distinguiremos o esteta do satânico menor?

    A distinção não apresenta dificuldade, desde que nos representemos com clareza em que consiste necessariamente a aplicação ativa do ideal estético.

    Se o ideal estético consiste na consideração vaga de que a vida é imperfeita, e que só é perfeita, num momento feliz, a nossa sensação dela, força é que essa consideração não atinja um alto grau de absorção metafísica ou moral; porque, se for altamente metafísica haverá consciência de mais para poder haver ilusão, e, se for altamente moral, haverá dor de sobra para que a ilusão possa agradar.

    O primeiro característico da arte do esteta é pois a ausência de elementos metafísicos e morais na substância da sua ideação. Como, porém, os ideais helénicos procedem todos de uma aplicação diretamente crítica da inteligência à vida, e da sensibilidade ao conteúdo dela, essa ausência de metafísica não será uma ausência de ideias metafísicas, nem essa ausência de moral uma ausência de ideias morais. Há uma ideia que, sem ser metafísica nem moral, faz, na obra do esteta, as vezes das ideias morais e metafísicas. O esteta substitui a ideia de beleza à ideia de verdade e à ideia de bem, porém dá, por isso mesmo, a essa ideia de beleza um alcance metafísico e moral. A célebre «Conclusão» da Renascença de Pater, o maior dos estetas europeus, é o exemplo culminante desta atitude.

    Nisto se distingue a obra do esteta da obra do artista simples, em quem os elementos metafísicos e morais são ausentes, não por diferença de ideal, senão por ausência dele.

    Se, porém, o esteta substitui a ideia de beleza à ideia de verdade e à de bem, o certo é que, por isso mesmo que as substituiu por outra, se não interessa pelas ideias de bem e de verdade. Não é por isso, propriamente, nem cético nem imoral; o propósito de ser cético revela uma preocupação metafísica, o de ser imoral uma preocupação ética, e o caráter negativo de ambas as preocupações não as torna menos preocupações. Nisto claramente se distingue o esteta do mau cristão decadente, como Baudelaire ou Wilde.

     

    Se tivermos presentes estas considerações na análise do livro de António Botto, não nos será difícil determinar que esse livro representa uma das revelações mais raras e perfeitas do ideal estético, que se podem imaginar.

    Que a substância do livro é altamente intelectual, revela-o o estudo cuidado da forma e ritmo, a escolha severa dos momentos representativos, a falta de espontaneidade emotiva que em cada verso se manifesta. Tudo é pensado, tudo é crítico e consciente. Não há, porém, como seria de esperar de uma inteligência tão constantemente empregada, metafísica nenhuma, nem explícita nem implícita, interesse nenhum pelas ideias como tais. É uma inteligência que dirige, porém não pensa; que compreende, porém não aprofunda; que guia, porém não se preocupa. Nem positivamente, nem negativamente, sugere o livro Canções qualquer metafísica. Duas ideias centrais governam a inspiração do poeta, e lhe servem de metafísica e de moral. São as ideias de beleza física e de prazer. A análise do conteúdo dessas duas ideias, tais quais se nos apresentam nas Canções, revelará o esteta inequivocamente. No modo como apresenta a primeira delas, o poeta afasta-se de toda a espécie de moralidade; no modo como apresenta a segunda, de toda a espécie de imoralidade.

     

    Das três formas, que podemos conceber, da beleza física ― a graça, a força e a perfeição ―, o corpo feminino tem só a primeira, porque não pode ter a beleza da força sem quebra da sua feminilidade, isto é, sem perda do seu carácter próprio; o corpo masculino pode, sem quebra da sua masculinidade, reunir a graça e a força; a perfeição só aos corpos dos deuses, se existem, é dado tê-la. Um homem, se se guiar pelo instinto sexual, e não pelo instinto estético, cantará, como poeta, só o corpo feminino. Essa atitude representa uma preocupação exclusivamente moral. O instinto sexual, normalmente tendente para o sexo oposto, é o mais rudimentar dos instintos morais. A sexualidade é uma ética animal, a primeira e a mais instintiva das éticas. Como, porém, o esteta canta a beleza sem preocupação ética, segue que a cantará onde mais a encontre, e não onde sugestões externas à estética, como a sugestão sexual, o façam procurá-la. Como se guia, pois, só pela beleza, o esteta canta de preferência o corpo masculino, por ser o corpo humano que mais elementos de beleza, dos poucos que há, pode acumular.

    Foi assim que pensaram os gregos; foi esse pensamento que Winckelmann, fundador do estetismo na Europa, descobrindo-o neles, reproduziu, como no passo célebre que Pater transcreveu, e que parece feito para servir de prefácio a um livro como Canções:

    «Como é confessadamente a beleza do homem que tem que ser concebida sob uma ideia geral, assim tenho notado que aqueles que observam a beleza só nas mulheres, e pouco ou nada se comovem com a beleza dos homens, raras vezes têm instinto imparcial, vital, inato da beleza na arte. A pessoas como essas a beleza da arte grega parecerá sempre falha, porque a sua beleza suprema é antes masculina que feminina».

    Ora é este conceito, puramente estético, da beleza física que é, como todos sabem, porque escandalizadamente se notou, uma das duas ideias inspiradoras das Canções.

    Disse eu que António Botto se afasta de toda a moralidade no modo por que canta a beleza física, e que se afasta de toda a imoralidade no modo por que canta o prazer. De que modo canta ele o prazer? Que modo há de cantar o prazer que, sem ser moral (porque se o fosse, estaríamos fora do caso estético), se afaste da imoralidade?

    Para com o prazer há três atitudes possíveis ― aceitá-lo, rejeitá-lo, aceitá-lo com moderação. A cada uma destas atitudes correspondem graus vários de moralidade e de imoralidade, porque pode haver moralidade no modo de aceitar o prazer, e imoralidade na maneira de rejeitá-lo. Aqui, porém, trata-se de quem aceita o prazer, e só o prazer; não temos portanto que considerar as outras hipóteses.

    Aceite o prazer, e só o prazer, de que modo pode ele ser aceite? Pode ser aceite como alegria, ou como forma da alegria, e é esta a maneira moral, porque é natural, de aceitar o prazer. Pode ser aceite como excitação, como, por assim dizer, a única forma agradável da dor, pois que toda a excitação ― tomada a palavra no sentido vulgar, e não no fisiológico ― tem um fundo de dor; e é esta a maneira imoral, porque é a antinatural, de aceitar o prazer. Pode, finalmente, ser aceite simplesmente como prazer, como, em sua essência, nem alegre nem triste, porém a única coisa que pode encher o vácuo absurdo da existência. Deste conceito de prazer não se pode dizer que seja moral nem imoral, logo que se não esqueça que se está considerando o prazer só, isolando-o de qualquer outro elemento da vida.

    Quem leia com atenção normal o livro Canções, não tardará que veja que é este último o conceito que António Botto forma do prazer, que é neste sentido de compreendê-lo que ele o canta. Canções é um hino ao prazer, porém não ao prazer como alegria, nem como raiva, senão simplesmente como prazer. O prazer, como o poeta o canta, nem serve de despertar a alegria da vida, nem de ministrar um antídoto a uma dor substancial constante; serve apenas de encher um vácuo espiritual, a ser conceito de vida a quem não tem nenhum. Há neste livro, sim, a intuição do fundo trágico do ideal helénico, do fundo trágico de todo o prazer que sabe que não tem além. Essa intuição, porém, se é do que é trágico, não é trágica em si. Este prazer não tem a cor da alegria, nem a da dor. «A alegria» disse Nietzsche, «quer eternidade, quer profunda eternidade». Não é, nem nunca foi assim: a alegria não quer nada, e é por isso que é alegria. A dor, essa, é o contrário da alegria, como a concebia Nietzsche: quer acabar, quer não ser. O prazer, porém, quando o concebemos fora da relação essencial com a alegria ou com a dor, como o concebe o autor deste livro, esse, sim, quer eternidade; porém quer a eternidade num só momento.

    Resulta destas considerações, que me esforcei por fazer lúcidas e concisas, a determinação exata de que António Botto, no seu livro Canções, se revela um dos tipos mais perfeitos e mais íntegros do esteta, que se podem imaginar.

     

    Que importância tem este facto? A de representar uma raridade. O tipo perfeito do esteta é raríssimo na civilização cristã, ou de origem cristã, e mais que raro, porque, até às Canções, desconhecido, em Portugal. A razão dessa raridade, quer em toda a Europa, quer em Portugal, e o valor que nela haja, são relativamente fáceis de compreender.

    O ideal estético é, como se viu, uma das formas ― a mais ténue e vazia ― do ideal helénico; mas, por isso mesmo que é a mais ténue e vazia delas, é a mais explicitamente representativa daquele ideal. Para que apareça um tipo de esteta é necessário um meio social análogo ao meio social helénico. Ora o meio social europeu, se é certo que modernamente, e em algumas das suas manifestações, de certo modo se aproxima, tanto quanto pode ser, do meio social da Grécia antiga, é, em todo o caso, radicalmente diferente dele. Segue que o aparecimento na Europa moderna de um tipo íntegro de esteta só pode dar-se por um desvio patológico, isto é, por uma inadaptação estrutural aos princípios constitutivos da civilização europeia, em que vivemos.

    Este desvio patológico é, porém, no caso dos grandes estetas europeus o elemento predisponente, se bem que, por isso mesmo, radical, do seu estetismo; a ele se acrescenta uma mergência prolongada do espírito na atmosfera helénica, que lhe cria um perpétuo contacto, ainda que só intelectual, com a Grécia antiga e os seus ideais. Da ação deste segundo elemento sobre o primeiro o esteta desabrocha. São desta origem os estetismos de Winckelmann e de Pater, quase, em verdade, os únicos tipos exatos do esteta que a civilização europeia pode apresentar. Como, porém, este estetismo tem uma base cultural, resulta que tem a plenitude e a largueza que distinguem todos os produtos culturais, em contraposição aos naturais seus semelhantes, e por isso de algum modo transcende a estreiteza específica do ideal estético, sem todavia deixar de lhe pertencer.

    Como os elementos culturais são inteiramente negativos na obra de António Botto, vemo-nos forçados a assentar em que o seu estetismo nasce de um simples desvio patológico, sem solicitação cultural eficiente. Este processo de ser esteta apresenta uma singularidade notável: é um desvio patológico sem desequilíbrio, porque todos os ideais gregos (e portanto o estético, que é um deles) são essencialmente equilibrados e harmónicos. Ora um desvio patológico equilibrado é uma de duas coisas ― ou o génio ou o talento. Ambos estes fenómenos são desvios patológicos, porque, biologicamente considerados, são anormais; porém não são só anormais, porque têm uma aceitação exterior, tendo, portanto, um equilíbrio. A esse desvio equilibrado chamar-se-á génio quando é sintético, talento quando é analítico; génio quando resulta da fusão original de vários elementos, talento quando procede do isolamento original de um só elemento.

    A dentro do ideal estético, os casos de Winckelmann e de Pater representam o génio, porque a tendência para a realização cultural imanente no seu estetismo ingénito é, por sua natureza, sintética, o caso de António Botto representa o talento, porque o ideal estético, dada a sua estreiteza e vacuidade, representa já o senso estético isolado de todos os outros elementos psíquicos, e, no caso de António Botto, esteta simples, esse isolamento não se modifica, como no estetismo culto, pelo reflexo nele da multiplicidade dos objetos de cultura.

    Temos, pois, por demonstração severamente conduzida, que o livro Canções é uma obra de talento, tendo além desse, o valor acessório e especial de ser o único exemplo, que eu saiba, na literatura europeia, do isolamento espontâneo e absoluto do ideal estético em toda a sua vazia integridade.

    À parte este valor, que pertence àquela obra em absoluto, isto é, como obra e não como obra em português, o livro Canções tem, para nós em Portugal, um outro aspeto de valor, já de ordem relativa. É que é o único exemplo em Portugal da realização literária, de qualquer espécie, do ideal estético. Facilmente o verificará quem houver lido com atenção o que estabelecemos sobre os característicos do esteta. Artistas tem havido muitos em Portugal; estetas só o autor das Canções.

    FERNANDO PESSOA

  • Names

    • António Botto
    • Charles Baudelaire
    • Dante Alighieri
    • Deus
    • Fernando Pessoa
    • Friedrich Nietzsche
    • Homero
    • Johann Joachin Winckelmann
    • John Milton
    • Oscar Wilde
    • Píndaro
    • Vergílio
    • Walter Pater

    Titles

    • Canções
    • Renascença