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Fernando Pessoa

Teatro - Revista de Critica 3, 25 de Março de 1913, p. 2.

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Tres publicações, afóra a nossa, nasceram ha pouco para a pretensão de serem lidas.

Uma é a «revista de arte» Teatralia, outra a de «literatura e arte» Gente Moça, e ha tambem um periodico O Talassa, semanario, ao que parece, e humoristico, consoante, por analogia de aspecto com outras publicações do parece-que-mesmo genero, feitas aí por 1880, sem grande dificuldade se conclue. A primeira e a terceira destas consequencias de Gutemberg adornam Lisboa; pela segunda é responsavel o Porto.

Unjamo-las do nosso acolhimento.

A primeira é especialmente adoravel.

É proveniente da iniciativa dos alunos da Escola da Arte de Representar. E é ante-simpatica ao mero ainda-não leitor dela porque nos enreda logo com uma vantagem – que os alunos da dita escola emquanto escrevem não representam.

O conhecimento da revista é, porém, um pouco ensombrador desta vantagem antevista. É talvez, e apezar de tudo, melhor que os alunos representem.

Não queremos dizer com isto que a Teatralia se imponha como má. Mas tem claras pretensões a se-lo. Não ha duvida que temos de nos apear para a tolerancia. Revista de pre-actores, não lhe podemos querer encontrar instinto literario ou intuição artistica. Mas – que diabo! – eles não são actores ainda. Sempre se podìa esperar que nos dessem alguma cousa de circumlegivel.

Com tolerancia pre-estabelecida, porém, sempre se ha de conseguir elogiar. Vamos que um ou outro do colaboradores mostra esperanças de envelhecer para inteligente.

O Aluno F. Adolfo Coelho, por exemplo, oferece-nos um estudo que revela um grave conhecimiento pelo menos de algumas passagens dos tragicos gregos e de uns córos da Castro de Antonio Ferreira. Se é ainda muito novo, talvez venha a conseguir, com o deixar de ser muito novo, alguma cousa em materia de exposição erudita. Por emquanto vê-se bem a sua inexperiencia nisto de transmitir erudição. Porque não é assim que se ensina. É preciso mais leveza, mais cingir de perto a alma do assunto, mais poder vibrante de interessar e comunicar. E o modo-de-expor do sr. F. A. Coelho dá-nos a impressão de nos estarem esfregando nas costas um remedio para uso interno... Mas esta nossa critica pouco quer morder. Que apenas dizer que o Sr. F. A. Coelho não tem geito para professor. Para outras cousas póde ser que o tenha.

O aluno Manuel de Sousa Pinto (cujo nome nos não sõa desconhecido) distribue uns raciocinios um pouco palidos mas interessantes por paginas que sofrem duma lamentavel incompatibilidade pessoal entre o gravador e o impressor.

Ha um artigo sobre «marcação», do aluno Antonio Pinheiro. Incompetentes para saber se ele é bom ou mau, limitamo-nos, para dar idéa do seu interesse, a transcrever lhe o paragrafo final:

As diferentes portas ou aposentos são designados por letras, e algumas vezes, E – quer dizer esquerda, D – direita, F fundo, B – baixa e A – alta.

Os alunos Julio Dantas, Luiz Barreto e Bento Mantua tambem navegam nestas aguas. Os dois ultimos teem transbordo para o numero seguinte.

Uns cachos de uvas na capa da revista parecem-nos insuficientemente dionisiacos por desvergonhadamente da fundição da Impresa Nacional.

* * *

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel folheal-a. O caso é não a lêr. Motiva a ausencia de desagrado um artista que nela colabora, inevitavelmente anonimo. É o chefe da Tipografia do Porto Medico.

Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali.

* * *

O semanario O Talassa faz lembrar um pouco Bordalo Pinheiro, pela modernidade.

É uma publicação perfeitamente inoffensiva politicamente. Recomedamol-a sem hesitação aos seus atacados e caricaturados.

A cousa que tem de mais flagrantemente interessante é a blague da dua confecção. É a de os desenhos serem feitos pelo sr. Crispim e a prosa pelo sr. Jorge Colaço, como sem custo se deduz dum exame perspicaz deles e dela.

Tem duas outras novidades interessantes, como seja a de descobrir para assunto de piada que o sr. Brito Camacho é porco, e a de iniciar, com respetio ao sr. Antonio José d’Almeida, um novo genero de caricatura, que consiste em nos fazer crêr que aquele politico não é parecido consigo proprio.

* * *

Desejamos ás três publicações as prosperidades que merecem.

Fernando Pessoa.

  • Names

    • Adolpho Coelho
    • António Ferreira
    • António José d'Almeida
    • António Pinheiro
    • Bento Mantua
    • Bordalo Pinheiro
    • Crispim do Amaral
    • Johannes Gutenberg
    • Jorge Colaço
    • João de Lebre e Lima
    • Júlio Dantas
    • Luiz Barreto
    • Manuel de Brito Camacho
    • Manuel de Sousa Pinto

    Titles

    • Castro

    Periodicals

    • Gente Moça
    • O Talassa
    • Teatralia