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Como os outros nos veem

Fernando Pessoa

Revista de Comércio e Contabilidade 1, 25 de janeiro de 1926, pp. 21-23.

  • COMO OS OUTROS NOS VÊEM

    A OPINIÃO dos estrangeiros ― quando não sejam daquêles que não nasceram para poder ter opiniões ― é sempre interessante, ainda que seja erronea, porque representa um ponto de vista que a nós, nacionais, não é possivel conseguir, por isso mesmo que somos nacionais. Ah, se nos fôsse dado vermo-nos a nós como os outros nos vêem! diz o poeta escocês. Não que os outros vejam necessariamente mais certo que nós; mas vêem diferentemente. E é conjugando as impressões de quem vê de perto e de quem vê de longe que se pode conseguir qualquer coisa que se aproxime de uma opinião justa sôbre um conjunto e as suas partes componentes.

    Com êste fim, e a devida vénia, traduzimos da British Export Gazette o seguinte artigo sobre A Situação Comercial em Portugal. Com êste título, e o subtítulo A Expansão Tolhida e o Crédito Prejudicado por Constantes Mudanças Administrativas, diz aquêle mensário inglês:

    «Se em verdade se não póde dizer que a situação comercial em Portugal dê quaisquer indícios claros de melhoria, ha porêm, que notar, como elemento compensador, o esfôrço que por fim o Govêrno está fazendo para remediar a situação. Áquêles dos nossos leitores, que tratam com este mercado ou por êle exportam, interessará saber que se elaborou recentemente um plano de largo auxílio ao comercio e á industria pela expansão do ambito de operações do Banco de Desconto de Portugal. Esta, e outras propostas de melhoria, resultaram de uma discussão franca, abrangendo toda a situação, entre o Primeiro Ministro e os homens de negocio, representados no lance pela Camara de Comercio de Lisboa. O que, porêm, é urgentemente preciso, e mais que tudo preciso, é uma garantia de estabilidade administrativa, pois as mudanças frequentes de govêrno, motivadas em geral por questões minimas, se teem revelado extremamente desequilibradoras e altamente prejudiciais para o comercio. Continuam tambêm as transacções a ressentir-se gravemente da desvalorisação da moeda, e o crédito comercial do mercado tem sido sèriamente comprometido pela inabilidade, em muitos casos, de pagar-nos devidos prasos.

    «O vulto do comercio português importa, em números redondos, em entre 27 e 28 milhões esterlinos. No âno passado atingiu ₤ 28.039.124. Porêm mais de três-quartos désta soma representam importações, e menos de um-quarto significa exportações. A balança adversa é, pois, realmente de mais do dobro do dinheiro recebido pela República em paga dos produtos exportados. É duvidoso se há qualquer outro país do mundo que apresente uma balança comercial tão pouco satisfatoria. Este deploravel estado de coisas é devido, na maior parte, á mudança constante de critérios administrativos. Se não fôssem estas influencias estranhas e inibitivas, que em rápida sucessão intervêem, com proibições de importação e de exportação, mudanças pautais constantes, modificação de taxas marítimas, impostos sôbre transacções, etc., o comercio de Portugal estaria incontestavelmente em melhor pé e em condições de maior desenvolvimento. Apesar de desvantagens desta ordem, é realmente de pasmar que em um país nêste apêrto comercial e em constante desassocego não tenha quasi nenhums desempregados.

    «Portugal devia estar em situação de exportar infinitamente mais do que exporta. Mesmo a sua indústria básica, a agricultura, é conduzida pelos processos mais primitivos e com maquinismos e implementos não menos imperfeitos. Calculou-se já que, com a devida irrigação, o emprego de sistemas modernos, e um regime melhor de transportes, os resultados agrícolas subiriam, pelo menos, a mais 100 por cento do que são. Quanto á industria mineira, o facto é que a exploração dos valiosos jazigos de carvão, de ferro, de pirites de cobre, etc., nunca recebeu coisa que se pareça com uma atenção sistemática, dada a falta de energia barata e de facilidades de transporte. O capital inglês figura predominantemente em varias das emprêsas mineiras, e, se êsse capital tivesse qualquer incentivo para as desenvolver, resultariam vantagens incalculaveis para o país e para o seu comercio. Presentemente apenas estão aproveitados 15.900 cavalos dos provaveis 500.000 que se calcula que as quedas de agua possam fornecer; e dos jazigos de ferro, cujo vulto se calcula em 75 milhões de toneladas, só 30.000 se tiram anualmente.

    «Com estímulo proveniente de condições administrativas de maior estabilidade, não só aumentaria muito o interêsse do capital inglês por êste mercado, mas com êle aumentaria o interêsse dos importadores e comerciantes portuguêses pelos produtos do Reino Unido. A Inglaterra é, com grande avanço sôbre os outros países, o melhor cliente de Portugal, pois lhe compra quasi dois-terços do vinho que ele exporta, três-quartos do figo, amendoa e alfarroba, e uma parte consideravel da produção de cortiça, sardinhas, e minério. Portugal présa muito as suas longas, quasi vetustas, relações comerciais com a Grã-Bretanha, e, mesmo na situação presente, a maioria dos tecidos importados, toda a folha-de-Flandres para as latas de sardinhas, e uma grande percentagem das outras manufacturas compradas são de origem inglêsa. Mas as casas comerciais portuguêsas encontram grande dificuldade em fazer compenetrar os fabricantes e exportadores inglêses da exigentissima legislação que regula a importação de mercadorias nêste mercado, e, em especial, dos regulamentos asfixiantes que dizem respeito ás declarações de carga e aos certificados de origem... Que o intercambio anglo-português tenderá a desenvolver-se em condições de maior estabilidade e de melhoria financeira, é o que ha toda rasão para prevêr, considerando, sobretudo, os planos governamentais a que nos referimos. É porêm muito de desejar que os meios comerciais portuguêses continuem a exercer pressão sobre as instancias oficiais para que se efectuem mais reformas e se restabeleça a confiança dos carregadores britânicos na estabilidade de muitos dos negociantes que não fazem agora face aos seus compromissos com aquéla costumada prontidão que dêles era de esperar».

  • COMO OS OUTROS NOS VEEM

    A OPINIÃO dos estrangeiros ― quando não sejam daqueles que não nasceram para poder ter opiniões ― é sempre interessante, ainda que seja errónea, porque representa um ponto de vista que a nós, nacionais, não é possível conseguir, por isso mesmo que somos nacionais. Ah, se nos fosse dado vermo-nos a nós como os outros nos veem! diz o poeta escocês. Não que os outros vejam necessariamente mais certo que nós; mas veem diferentemente. E é conjugando as impressões de quem vê de perto e de quem vê de longe que se pode conseguir qualquer coisa que se aproxime de uma opinião justa sobre um conjunto e as suas partes componentes.

    Com este fim, e a devida vénia, traduzimos da British Export Gazette o seguinte artigo sobre A Situação Comercial em Portugal. Com este título, e o subtítulo A Expansão Tolhida e o Crédito Prejudicado por Constantes Mudanças Administrativas, diz aquele mensário inglês:

    «Se em verdade se não pode dizer que a situação comercial em Portugal dê quaisquer indícios claros de melhoria, há porém, que notar, como elemento compensador, o esforço que por fim o Governo está fazendo para remediar a situação. Àqueles dos nossos leitores, que tratam com este mercado ou por ele exportam, interessará saber que se elaborou recentemente um plano de largo auxílio ao comércio e à indústria pela expansão do âmbito de operações do Banco de Desconto de Portugal. Esta, e outras propostas de melhoria, resultaram de uma discussão franca, abrangendo toda a situação, entre o Primeiro-Ministro e os homens de negócio, representados no lance pela Câmara de Comércio de Lisboa. O que, porém, é urgentemente preciso, e mais que tudo preciso, é uma garantia de estabilidade administrativa, pois as mudanças frequentes de governo, motivadas em geral por questões mínimas, se têm revelado extremamente desequilibradoras e altamente prejudiciais para o comércio. Continuam também as transações a ressentir-se gravemente da desvalorização da moeda, e o crédito comercial do mercado tem sido seriamente comprometido pela inabilidade, em muitos casos, de pagar-nos devidos prasos.

    «O vulto do comércio português importa, em números redondos, em entre 27 e 28 milhões esterlinos. No ano passado atingiu ₤ 28.039.124. Porém mais de três quartos desta soma representam importações, e menos de um quarto significa exportações. A balança adversa é, pois, realmente de mais do dobro do dinheiro recebido pela República em paga dos produtos exportados. É duvidoso se há qualquer outro país do mundo que apresente uma balança comercial tão pouco satisfatória. Este deplorável estado de coisas é devido, na maior parte, à mudança constante de critérios administrativos. Se não fossem estas influências estranhas e inibitivas, que em rápida sucessão intervêm, com proibições de importação e de exportação, mudanças pautais constantes, modificação de taxas marítimas, impostos sobre transações, etc., o comércio de Portugal estaria incontestavelmente em melhor pé e em condições de maior desenvolvimento. Apesar de desvantagens desta ordem, é realmente de pasmar que em um país neste aperto comercial e em constante desassossego não tenha quase nenhuns desempregados.

    «Portugal devia estar em situação de exportar infinitamente mais do que exporta. Mesmo a sua indústria básica, a agricultura, é conduzida pelos processos mais primitivos e com maquinismos e implementos não menos imperfeitos. Calculou-se já que, com a devida irrigação, o emprego de sistemas modernos, e um regime melhor de transportes, os resultados agrícolas subiriam, pelo menos, a mais 100 por cento do que são. Quanto à indústria mineira, o facto é que a exploração dos valiosos jazigos de carvão, de ferro, de pirites de cobre, etc., nunca recebeu coisa que se pareça com uma atenção sistemática, dada a falta de energia barata e de facilidades de transporte. O capital inglês figura predominantemente em várias das empresas mineiras, e, se esse capital tivesse qualquer incentivo para as desenvolver, resultariam vantagens incalculáveis para o país e para o seu comércio. Presentemente apenas estão aproveitados 15.900 cavalos dos prováveis 500.000 que se calcula que as quedas de água possam fornecer; e dos jazigos de ferro, cujo vulto se calcula em 75 milhões de toneladas, só 30.000 se tiram anualmente.

    «Com estímulo proveniente de condições administrativas de maior estabilidade, não só aumentaria muito o interesse do capital inglês por este mercado, mas com ele aumentaria o interesse dos importadores e comerciantes portugueses pelos produtos do Reino Unido. A Inglaterra é, com grande avanço sobre os outros países, o melhor cliente de Portugal, pois lhe compra quase dois terços do vinho que ele exporta, três quartos do figo, amêndoa e alfarroba, e uma parte considerável da produção de cortiça, sardinhas, e minério. Portugal preza muito as suas longas, quase vetustas, relações comerciais com a Grã-Bretanha, e, mesmo na situação presente, a maioria dos tecidos importados, toda a folha-de-Flandres para as latas de sardinhas, e uma grande percentagem das outras manufaturas compradas são de origem inglesa. Mas as casas comerciais portuguesas encontram grande dificuldade em fazer compenetrar os fabricantes e exportadores ingleses da exigentíssima legislação que regula a importação de mercadorias neste mercado, e, em especial, dos regulamentos asfixiantes que dizem respeito às declarações de carga e aos certificados de origem... Que o intercâmbio anglo-português tenderá a desenvolver-se em condições de maior estabilidade e de melhoria financeira, é o que há toda razão para prever, considerando, sobretudo, os planos governamentais a que nos referimos. É porém muito de desejar que os meios comerciais portugueses continuem a exercer pressão sobre as instâncias oficiais para que se efetuem mais reformas e se restabeleça a confiança dos carregadores britânicos na estabilidade de muitos dos negociantes que não fazem agora face aos seus compromissos com aquela costumada prontidão que deles era de esperar».

  • Periodicals

    • British Export Gazette