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A Nova Poesia Portugueza no seu aspecto Psychologico

Fernando Pessoa

A Águia 9, 11 e 12, Setembro, Novembro e Dezembro de 1912, pp. 86-94; 153-157; 188-192.

A Nova Poesia Portugueza no seu aspecto Psychologico

I

Qualquér phenomeno literario – corrente, ou grupo, ou individualidade – é susceptivel de ser considerado sob trez aspectos e sob esses trez aspectos tem de ser considerado para ser completamente comprehendido. Esses trez pontos de vista são o psychologico, o litterario, e o sociologico. Isto é, qualquér phenomeno da literatura tem de ser estudado – 1.º, em si, directamente como produto de alma ou de almas; 2.º, nas suas relações e filiação exclusivamente literarias, como producto literario e 3.º, na sua significação como producto social, como facto que se dá a dentro de, e por, uma sociedade, explicado por ella e explicando-a, lido, pois, como indicador sociologico. No estudo – supponha-se – de uma qualquér corrente literaria, importa pouco sob qual dos trez aspectos primeiro a examinarmos, logo que sob todos os trez aspectos sucessivamente e completamente o assumpto se raciocine. Como phenomeno literario, como phenomeno psychico, como phenomeno social successivamente analysada, os trez aspectos de uma corrente interexplicam-se e completam-se, fornece cada qual elementos especiaes e essenciaes para a interpretação synthetica e integral da corrente. Nem o estudo total, nem qualquér dos estudos parciaes, fica completo sem estarem completos, e coördenadamente completos, todos os trez.

Porisso a nossa analyse da actual corrente literaria portugueza – iniciada e feita sob o ponto de vista sociologico em dois anteriores artigos – só ficará completa, e esses artigos em toda a sua extensão logica comprehensiveis, quando, n’este escripto e em outro, juntarmos á analyse sociologica uma dupla analyse complementar, primeiro psycologica, e literaria depois.

Começámos pela analyse sociologica porquanto, sendo essa a mais involventemente explicativa das trez, de princípio ficava, posta ella inicialmente, abrangido em todo o seu valôr e superficie o movimento literario estudado. Levou-nos essa analyse sociologica a conclusões que não pareceriam extranhas, talvez, aos habituados a seguir raciocinios, mas que, ainda assim, eram de desorientar os de intelligencia menos affeita a lêr nas entrelinhas da concisão dialectica. O nosso anterior estudo, partindo de uma analyse dos periodos maximos das literaturas ingleza e franceza – tomados esses para exemplos – e da sua relação com as maximas, e – provou-se – homóchronas, epocas sociaes, veio, por uma approximação, detalhe a detalhe feita, a constatar a semelhança completa do nosso actual periodo, tomada a literatura como indicador sociologico, com aquellas grandes epocas, chamadas a depôr, do mesmo representativo modo, as literaturas suas. D’ahi as naturaes, referidas, conclusões sobre a vindoura grandeza lusitana. Esses detalhes, esses, por assim dizer, traços physionomicos por onde a parecença entre os trez periodos se colhia flagrante, eram do numero, completo, de nove; trez diziam respeito á relação entre os periodos literarios maximos e as epocas politicas, ou antecedentes, ou contemporaneas, ou subsequentes; e estes trez pontos eram os exclusivamente sociologicos. Os outros seis – summariamente então tratados por não serem para sociologia puramente – referiam-se á originalidade, á elevação, e á grandeza dos representantes individuaes dos periodos, e á nacionalidade, anti-tradicionalidade e caracter não-popular dos mesmos.

Ficou, no artigo citado, esgottada e provada quanto possivel – dada a juvenilidade da nossa actual corrente literaria – a semelhança sociologica. Egualmente, no quarto capitulo, se provou que, constatadas que fôssem a originalidade, a elevação e a grandeza de uma corrente literaria, a sua anti-tradicionalidade ficava provada na sua originalidade – como seria original se se baseasse em tradições? – a sua não-popularidade provada na sua elevação – como ser popular sendo espiritualmente e metaphysicamente complexa? –; e, provado isto, de si ficava tambem provada a nacionalidade, o caracter nacional da corrente, visto que, como alli mais cingentemente provámos, originalidade absoluta só da alma de uma raça pode subir á tona da sua literatura. Poesia absolutamente original e poesia absolutamente nacional são expressões interconvertiveis.

Tudo está agora, portanto, em provar a originalidade, a elevação e a grandeza das figuras individuaes. Compete isto em parte a uma analyse psychologica, e em parte a um estudo literario. Da analyse psychologica sahirá caracterizada a corrente literaria, e, assim sendo, a sua originalidade ou não-originalidade, a sua elevação ou não-elevação quedarão, ipso facto, em relevo – relevo que o estudo propriamente literario accentuará, rebuscando a filiação exclusivamente literaria da corrente e a importancia d’essa filiação – se influencia nitida e constante, como a do estylo francez dos seculos dezessete e dezoito sobre as outras literaturas européas; se mera occasionação, mero ponto de partida, breve abandonado e excedido, como a da Renascença da Italia perante o estylo da epoca isabeliana em Inglaterra. – Esse mesmo estudo literario, analizando o grau da constructividade, de intensidade e de individualidade que se revelem nas obras da corrente, dirá da grandeza dos seus poetas.

II

Sabido que uma corrente literaria é a expressão pela literatura de uma commum noção do mundo, da arte e da vida – posto de parte o que é individual, por individual precisamente – o estudo psychologico de qualquér corrente involve o destrinçar-lhe na alma a sua tripla unidade de attitudes. Que trez aspectos são esses do seu espirito uno? O primeiro é sua metaphysica – isto é, o conceito do universo e das cousas que subjaz as manifestações d’essa corrente. O segundo é a sua esthetica – curando bem que por isto se não quer dizer as suas theorias de arte (essas pertencem, como parte da sua theoria das cousas, á sua metaphysica), mas o seu modo de ser literario, a sua alma literaria. O terceiro é a sua sociologia, e isto significa as theorias sociaes, 1.º, que constituem a aspiração da corrente; 2.º, que, determinando-se, se alteram, na fixação directa em estudos já extra-literarios, propriamente sociólogicos; e 3.º, que, encontrando-se com realidades sociais, se synthetisam, realisando-se n’uma nova formula vivída, perdendo ao realizar-se o que de impraticavel tivessem. Claro está que a parte ultima d’este estudo é puramente sociologica; mas isso inevitavel, dado que uma corrente literaria é basilarmente, e representativamente, uma corrente social; tanto assim que – como o temos indicado theoricamente já aqui, e praticamente na feição realizada do nosso anterior artigo – um estudo literario completo é, em grande parte – e maximo e ultimamente mesmo – um estudo sociologico.

Posto isto, encaremos a methodologia d’esta analyse. O methodo analytico a empregar varia ligeiramente conforme qual dos trez aspectos do psychismo de uma corrente se investiga. Assim, no determinar a esthetica da corrente, a analyse incide directa sobre as obras dos poetas, porque estes, representando o maximo de emoção e de requinte revelador de expressão, mais do que os prosadores são representativos do momento-alma da raça e dos processos mentaes que da inconsciencia divina do povo sobem, feitos arte e consciencia, para a interpretação estremecida dos seus versos. – Ao inquirir da metaphysica, a analyse divide-se entre as obras de arte – destacando sempre, por sua superior representatividade, os poetas – e as que dão expressão directa-, racionada- e intencionalmente philosophica ao conceito-do-universo, caracteristico do momento racial. Reportarmo-nos, n’essa analyse, só ás obras metaphysicas, ou apenas ás obras literarias, seria – não diremos impossibilisar, mas por certo difficultar a investigação. É que – por estranho que de relance pareça – tanto o poeta como o philosopho ao interpretarem, cada um de seu modo, as intuições metaphysicas de uma epoca, ao mesmo tempo as revelam e as escondem. Revelam-as porque são poeta e philosopho, e, portanto, desdobradores em consciencia e raciocinio do que a raça e a hora accumulam no fundo das suas almas. Escondem-as – o poeta, porque a emoção, ainda que surgindo directamente do fundo intuitivo, é, de sua natureza, atraiçoadora da precisão intellectual; o philosopho, porque a actividade de raciocinio, vantajosa em tornar precisas as intuições fundamentaes que a raça lhe dá, é, de seu caracter, destruidora dos processos emotivos que, elles só, surgindo directamente do fundo occulto da alma, podem conservar a essas intuições fundamentaes a sua côr primitiva, o seu preciso tom intuicional. E, mais, tanto poeta como philosopho, sendo individualidades, acrescentam cada qual ao commum fundo de raça o seu especial temperamento, elemento esse que fatalmente desvirtuará uma interpretação exacta, superpessoal, do metaphysismo da epoca. A alma de uma epoca está em todos os seus poetas e philosophos, e em nenhum; é por isso que é em todos e em nenhum que a nossa analyse se encontra obrigada a procural-a. – Semelhante methodo tem de ser applicado no estudo da sociologia da corrente, mais complexo, porém, aqui, porque a trez fontes, que não a duas, tem o raciocínio de ir beber. Os literatos, os philosophos e sociologos-theoristas, e os acontecimentos finaes e solucionaes do periodo são essas trez fontes. Como na nossa actual corrente não ha, por ser ainda cedo, sociologos-theoristas, e como os acontecimentos de creação social, que caracterizarão a epoca, só virão, como sempre, no fim do periodo, que ora avança apenas para o seu auge literario, releve-se-nos que não entremos em uma analyse inutilmente extensa da fórma como esta investigação deverá ser feita. Só temos um elemento – poetas – para essa deducção: veremos mais adeante o que, só com elle, se pode fazer, firmando-nos desde já na consciencia de que essa deducção fatalmente será incompletissima, uma simples intuição quasi, um mero vislumbre de adivinhar.

Vejamos agora, reportando-nos á nossa já feita divisão dos maximos periodos em estadios, em que hora dos periodos temos de ir procurar esses poetas, esses philosophos que servem á nossa analyse para nos revelar a alma da corrente. Verifica-se, sem dificuldade, que a esthetica de uma corrente fica determinada (é natural) quando, ao entrar no seu segundo estadio, ella atinge a sua capacidade maxima de expressão. É o estadio-Shakespeare no periodo inglez, o estadio-Hugo no da França, logo que fica formado o estylo de Shakespeare e o de Victor Hugo. Attingida e fixada essa maxima capacidade de expressão, succede um alargamento de ideação que pouco depois chega ao auge, coincidentemente, pouco mais ou menos com o meio do segundo estadio e estendendo-se até ao principio do terceiro até que, variando, se prolonga por este dentro. É em coïncidencia com este auge ideativo da poesia que geralmente apparecem os philosophos do periodo. Quanto á sociologia da epoca, só nos poetas desde o auge ideativo do segundo, e pelo terceiro estadio, e nos philosophos e tratadistas do mesmo tempo se poderá trahir, posteriores um pouco, porém, os tratadistas e os philosophos. Os poetas do principio do estadio segundo só a um raciocinio muito pacientemente perscrutador de obscuras intuições inconscientemente propheticas poderão entresuggerir uma idéa do género d’essa futura realização social.

Como em anterior artigo mostrámos, a nova poesia portugueza desde a Oração á Luz que entrou no segundo estadio. Podemos, portanto, arrancar-lhe o segredo da sua esthetica, nitidamente; com menos nitidez, e aproximadamente, entrevêr a sua metaphysica: e, para que o estudo se não trunque, procurar dizer a côr dos longes vagos da sua sociologia ainda indecisos no horizonte da historia.

III

Perscrutemos qual a esthetica da nova poesia portugueza.

A primeira constatação analytica que o raciocinio faz ante a nossa poesia de hoje é que o seu arcaboiço espiritual é composto de trez elementos – vago, subtileza e complexidade. São vagas, subtis e complexas as expressões características do seu verso, e a sua ideação é, portanto, do mesmo triplo caracter. Importa, porém, estabelecer, de modo absolutamente differencial, a significação d’aquelles termos definidores. Ideação vaga é cousa que é escusado definir de exhaustivamente explicante que é de per si o mero adjectivo; urge, ainda assim, que se observe que ideação vaga não implica necessariamente ideação confusa, ou confusamente expressa (o que aliás redunda, feita uma funda analyse psychologica, precisamente no mesmo). Implica simplesmente uma ideação que tem o que é vago ou indefinido por constante objecto e assumpto, ainda que nitidamente o exprima ou definidamente o trate; sendo comtudo evidente que quanto menos nitidamente o trate ou exprima mais classificavel de vaga se tornará. Uma ideação obscura é, pelo contrario, apenas uma ideação fraca ou doentia. Vaga sem ser obscura é a ideação da nossa actual poesia; vaga e frequentemente – quasi caracteristicamente – obscura é a do symbolismo francez, cujo caracter pathologico mais adeante explicaremos. – Por ideação subtil entendemos aquella que traduz uma sensação simples por uma expressão que a torna vívida, minuciosa, detalhada – mas detalhada não em elementos exteriores, de contornos ou outros, mas em elementos interiores, sensações –, sem comtudo lhe acrescentar elemento que se não encontre na directa sensação inicial. Assim Albert Samain, quando diz

Je ne dis rien, et tu m'écoutes
Sous tes immobiles cheveux, (1) Au Jardin de l’infante (Heures d’été, VI).

desdobra a sensação directa de um silencio á deux, oppressivo e nocturno, na tripla sensação de silencio, de almas que se fallam nesse silencio, e da immobilidade dos corpos, mas não dá outra impressão do que a, intensa, d’esse silencio. Do mesmo modo, nos versos de Mario Beirão

Charcos onde um torpor, vitreo torpor, se esquece,
Nuvens roçando a areia, os longes baços...
Paizagem como alguém que, ermo de amor, se desse,
Corpo que estagna frio a beijos ou a abraços, (2) Coimbra, ao ritmo da saudade.

ha simplesmente um desdobrar, como em leque, de uma sensação crepuscular, que cada termo maravilhosamente intensifica, mas não alarga. – Finalmente, entendemos por ideação complexa a que traduz uma impressão ou sensação simples por uma expressão que a complica acrescentando-lhe um elemento explicativo, que, extrahido d’ella, lhe dá um novo sentido. A expressão subtil intensifica, torna mais nitido (1) Interiormente nitido, não como cousa exterior.; a expressão complexa dilata, torna maior. A ideação subtil involve ou uma directa intellectualização de uma idéa ou uma directa emocionalização de uma emoção: d’ahi o ficarem mais nitidas, a idéa por mais idéa, a emoção por mais emoção. A ideação complexa suppõe sempre ou uma intellectualização de uma emoção, ou uma emocionalização de uma idéa: é d’esta heterogeneidade que a complexidade lhe vem. São da ideação complexa, por exemplo, os versos de Mário Beirão

A boca, em morte e marmore esculpida,
Sonha com as palavras que não diz; (2) O Sonho.

de Teixeira de Pascoaes

A folha que tombava
Era alma que subia; (3) Elegia (Vida Etherea).").

e expressões como choupos d'alma (4) Choupos na luz do luar. de Jayme Cortezão ou o ungido de universo (5) Oração á luz. de Guerra Junqueiro

Feita esta constatação, que nos leva ella a concluir? Subtileza e complexidade ideativas vêm a ser, como da anterior exposição se deprehende, modos analyticos da ideação: desdobrar uma sensação em outras – subtileza – é acto analytico, e acto analytico, ainda mais profundo, o de tomar uma sensação simples complexa por elementos espiritualizantes n’ella propria encontrados. Ora a analyse de sensações e de idéas é o caracteristico principal de uma vida interior. A poesia de que se trata é, portanto, uma poesia de vida interior, uma poesia de alma, uma poesia subjectiva. Será então uma nova espécie de simbolismo? Não é: é muito mais. Tem, de facto, de commum com o symbolismo o ser uma poesia subjectiva; mas, ao passo que o symbolismo é, não só exclusivamente subjectivo, mas incompletamente subjectivo também, a nossa poesia nova é completamente subjectiva e mais do que subjectiva. O symbolismo é vago e subtil; complexo, porém, não é. É-o a nossa actual poesia; é, por signal a poesia mais espiritualmente complexa que tem havido, excedendo, e de muito, a única outra poesia realmente complexa – a da Renascença, e, muito especialmente, do periodo isabeliano inglez. O caracteristico principal da ideação complexa – o encontrar em tudo um além – é justamente a mais notável e original feição da nova poesia portugueza.

Mas a nossa poesia de hoje é, como acima dissémos, mais do que subjectiva. Absolutamente subjectivo é o symbolismo: d’ahi o seu desequilibrio, d’ahi o seu caracter degenerativo, ha muito notado por Nordau. A nova poesia portugueza, porém, apezar de mostrar todos os caracteristicos da poesia de alma, preocupa-se constantemente com a natureza, quasi exclusivamente, mesmo, na natureza se inspira. Por isso dizemos que ella é também uma poesia objectiva. Quaes são os caracteristicos psychicos da poesia objectiva? Facil é apontal-os. São trez, e a sua differença dos caracteristicos da poesia de alma assenta sobre isto – que, ao passo que a observação da alma implica analyse, a da natureza, a do exterior, involve synthese, visto que qualquér impressão do exterior é sempre uma synthese, e uma synthese complexa, de impressões secundarias, memorias, e obscuras e instantaneas associações de idéas. São trez, diziamos, os caracteristicos da poesia objectiva. O primeiro é a nitidez, revelada na forma ideativa do epigramma, chamando assim, convenientemente, á phrase synthetica, vincante, concisa: quando, exemplificando, dissermos que o tipo da poesia objectiva apenas epigrammatica é a dos séculos dezesete e dezoito, em França especial- e originantemente, teremos dado idéa clara do que por nitidez, e epigramma no caso presente entendemos. O epigramma, porém subjaz, como fórma ideativa, toda a poesia do exterior, assim como o seu contrario, o vago, é base de toda a poesia contraria, a de alma. Epigrammatica como nenhuma é a poesia de Victor Hugo, que é muito mais do que epigrammatica. Epigrammatica é – e este ponto é que urge notar – a nossa actual poesia, e por ser, ao mesmo tempo vaga e epigrammatica é que ella é grandemente, magnificamente equilibrada. A phrase choupos de alma, por exemplo, sendo – como apontámos – complexa no que de poesia subjectiva, é epigrammatica no que de poesia objectiva; é mesmo typicamente epigrammatica, com a sua forma synthetica, de contraste. Da sua complexidade intima vem a sua belleza espiritual; do seu epigrammatismo de forma nasce o seu perfeito equilíbrio e completa e perceptivel beleza. Do mesmo modo são epigrammaticas as frases citadas de Mario Beirão, o segundo trecho, e de Teixeira de Pascoaes. A actual poesia portugueza possue, portanto, equilibrando-lhe a inigualada intensidade e profundeza espiritual, o epigrammatismo sanificador da poesia objectiva. – Segundo caracteristico da objectividade poetica é aquillo a que podemos chamar a plasticidade; (1) Importa muito notar que este termo é aqui usado com um sentido bastante diverso do usual, sentido que no texto se explica. Isto se nota para que não cause extranheza o lêr dada como plastica de Cesario Verde. e entendemos por plasticidade a fixação expressiva do visto ou ouvido como exterior, não como sensação, mas como visão ou audição. Plastica, n’este sentido, foi toda a poesia grega e romana, plastica a poesia dos parnasianos, plastica (além de epigrammatica e mais) a de Victor Hugo, plastica, de novo modo, a de Cesario Verde. A perfeição da poesia plastica consiste em dar a impressão exacta e nitida (sem ser exactamente epigrammatica) do exterior como exterior, o que não impede de, ao mesmo tempo, o dar como interior, como emocionado. É o que se dá nos quatro versos, em primeiro lugar citados, de Mario Beirão que a uma objectividade (plasticidade) perfeita unem uma perfeita subjectividade (subtileza). Outros exemplos se poderiam citar. Basta porém aquelle, que, por representativo, serve de prova de que a nossa actual poesia possue egualmente o segundo elemento caracteristico da poesia objectiva; elemento esse que é mais um a equilibrar-lhe a profunda espiritualidade. – Mais um caracteristico possue, e é o maximo, a poesia objectiva – é o a que poderemos chamar imaginação, tomando este termo no proximo sentido de pensar e sentir por imagens; e isto dá á poesia objectiva d’este genero, quando intensamente inspirada, uma rapidez e um deslumbramento que, em alto grau, enthusiasmando, deixam, quando sem elemento de pura espiritualidade, uma inquietante impressão de grandeza ôca. É o caso dos romanticos todos e, maximamente de Victor Hugo – é isto que, dissémos, elle tem além do epigrammatismo e da plasticidade – e d’ahi vem o phenomeno d’esse poeta dar a alguns uma impressão de desmedida grandeza, a outros de uma ôca grandiosidade: cymbale lhe chamou, desdenhando, Renan, possuidor do vago tão desconhecido de Victor Hugo. A este maximo grau de objectividade não subiu ainda a nova poesia portugueza: prova-o ao ouvido o seu movimento geralmente lento, quando a imaginação imprime sempre ao verso uma rapidez inignoravel. A Oração á Luz, porém, obra maxima da nossa actual poesia, tem já vislumbres d’esse final elemento objectivo. A nossa poesia caminha para o seu auge: o grande Poeta proximamente vindouro, que incarnará esse auge, realizará o máximo equilibrio da subjectividade e da objectividade. Diga da sua grandeza esta suggestão para raciocinadores. Super-Camões lhe chamámos, e lhe chamaremos, ainda que a comparação implicita, por muito que pareça favorecer, anteämesquinhe o seu génio, que será, não de grau superior, mas mesmo de ordem superior ao do nosso ainda-primeiro poeta.

Ha mais uma observação a fazer para a completa caracterização psychologica da nossa nova poesia. Deduz-se do que se acha concluido ácerca da plena e inigualada subjectividade e da quasi-total objectividade d’essa poesia. Resultam d’este modo de sêr trez cousas. A primeira é o já-citado equilibrio seu. A segunda é que, sendo ao mesmo tempo, e com quasi igual intensidade, poesia subjectiva e objectiva, poesia da alma e da natureza, cada um d’estes elementos penetra o outro; de modo que produz essa extranha e nitida originalidade da nossa actual poesia – a espiritualização da Natureza e, ao mesmo tempo, a materialização do Espirito, a sua comunhão humilde no Todo, comunhão que é, já não puramente pantheista, mas, por essa citada espiritualização da Natureza, super-pantheista, dispersão do ser n’um exterior que não é Natureza, mas Alma. Decorre daqui uma terceira cousa. Esta interpretação das duas almas da sua alma una obriga a nova poesia portugueza a ser puramente e absorvidamente metaphysica: ser outra cousa seria para ella descer. Por isso não tem ella poetas de amôr, ou poetas “sociaes”, ou outros assim, de genero não-metaphysico. Na nova poesia portugueza todo o amor é além-amôr, como toda a Natureza é além-Natureza. Pode o amor, cantado por um dos nossos actuaes poetas, ser amor nas duas quadras de um soneto; nos tercetos é já oração. E assim com todo o outro genero de poesia geralmente sub-metaphysica. Quaesquér poemas da corrente podem servir de exemplo. De um canto á luz tira Junqueiro uma das maiores poesias metaphysicas do mundo, poesia que se pode comparar só a Ode on the Intimations of Immortality de Wordsworth. Em um assumpto aparentemente amoroso Teixeira de Pascoaes, transcende logo o amor, torna-o degrau para a religiosidade; é da Elegia que se trata.

Ora, de ser a nossa nova poesia absorventemente metaphysica ha uma conclusão a tirar. Poesia metaphysica implica emoção metaphysica; emoção metaphysica é simplesmente synonymo de religiosidade. A actual poesia portugueza é pois uma poesia religiosa. Prova-o materialmente o seu uso de expressões tiradas do culto religioso – com outra religiosidade usadas, claro está – como ungir, sagrar, etc. É de todo religioso o tom geral e imediatamente perceptível da nossa actual poesia. – Ha mais: a religiosidade da nossa actual poesia é uma religiosidade nova, que não se parece com a de nenhuma outra poesia, nem com a de qualquer religião, antiga ou moderna. Contrasta-se n’isto com o symbolismo, que não tem religiosidade propria; e não a tem porque a que tem é catholica ou quasi-catholica; vem-lhe do passado, é morte – ponto de capital importancia, porque mostra nitidamente o caracter degenerativo e morbido do symbolismo.

Mas que religião nova é essa que se adivinha na nossa nova poesia? Não de todo, mas approximadamente, vae mostrar-nos a analyse, em que vamos entrar, da metaphysica da nova poesia portugueza.

IV

Seguindo o methodo estabelecido na segunda secção d’este artigo, o nosso raciocinio, incidindo diréctamente sobre a obra dos nossos novos poetas, devia poder deduzir, com qualquér cousa como facilidade, as idéas metaphysicas organicas no seu espirito. Acontece, porém, que a intima complexidade e novidade da nossa actual poesia torna essa analyse dirécta extremamente difficil. A primeira constatação que o raciocinio faz na analyse de que se trata é de que a nossa poesia novissima é completamente e absorventemente metaphysica e religiosa; a segunda constatação é, porém, a da fluïdez, incerteza e caracter indefinido d’essa religiosidade e d’esse metaphysismo. É perto de impossivel encontrar os nossos novos poetas fixos sobre um ponto metaphysico qualquér: nem a ideia que fazem de Deus ou da Natureza se apresenta de principio nitida, nem sequér é deduzivel das suas obras se teem ou não idéas de algum modo definidas sobre, supponha-se, a immortalidade da alma ou a autodeterminação da vontade. A unica immediata constatação que a analyse póde sem custo fazer é que a poesia dos nossos novos poetas é (1) pantheista, (2) não-materialista, (3) diversa de qualquér poesia propriamente espiritualista, m as contendo elementos caracteristicos do espiritualismo. Para além d’esta quasi que visual constatação, o problema toma uma complexidade que desconcerta e perturba.

Sendo isto assim, vemó-nos forçados, para elucidação do assumpto, a orientar de outro modo a nossa analyse. A difficuldade de a fazer de modo directo leva-nos a concluir que, com mais probabilidade de segurança, só a poderemos fazer differencialmente. Mas differencialmente como? Seguindo a linha evolutiva da poesia europêa no que metaphysica, destacando os periodos culminantes d’essa poesia, fixando a direcção metaphysica d’essa evolução e os caracteristicos metaphysicos do ultimo grande periodo, e depois, comparando a nossa nova poesia a essa, perante a qual ella se deve mostrar fatalmente ou uma decadencia, ou uma reacção, ou uma continuação superior, um novo estadio evolutivo. Autoriza-nos a esta analyse d’este modo differencial, em primeiro lugar o facto de, estando Portugal íntegrado na civilização europêa, a sua poesia o estar tambem inevitavelmente, e por isso a significação d’essa poesia só se poder obter, na sua essencia ultima, sociologica ou metaphysica, por uma comparação com o periodo literario importante que europêamente a precedeu – obtida preliminarmente a significação evolutiva d’esse periodo e, d’ahi, deduzindo, os provaveis caracteristicos do periodo literario que se lhe seguirá; para que, da coïncidencia ou incoïncidencia dos patentes caracteristicos metaphysicos da nossa nova poesia com a d’esse deduzido periodo, aptamente se avalie se esta poesia representa o estadio poetico europeu seguinte, ou se tem de ser relegada para o logar secundario e restrito de mera poesia ou de decadencia ou de reacção. – Esta analyse differencial é-nos, em segundo logar, autorizada e imposta pelo facto de, sendo uma corrente literaria, em sua essencia, a expressão de um novo conceito do universo, e um conceito do universo sendo simplesmente uma metaphysica, a analyse dos periodos literarios sob o ponto de vista metaphysico ser a analise do que n’elles é realmente typico e fundamental; donde se conclúe que esta, a analyse metaphysica e differencial da nossa nova poesia, mais do que outra qualquér analyse, que anteriormente fizessemos, porá em nudez e evidencia o que de fundamentalmente grande e novo a nossa nova poesia literariamente contenha e sociologicamente represente.

Para ampla segurança d’esta analyse e natural preparação para a synthese ulterior, temos que (1) estabelecer quais sejam os periodos capitaes e evolutivamente marcantes da literatura europêa, (2) fixar, digressando, para podermos proceder com segura clareza, quantos e quaes sejam os systemas metaphysicos definidamente fundamentaes, (3) determinar, aplicando esta constatação áquela, quaes os sistemas metaphysicos intimamente e caracteristicamente almas de aquellas culminantes épocas de evolução, (4) concluir, comparando as metaphysicas d’essas epocas, de que systema para que systema, ou de que especie de systemas para que especie de systemas, evolue a metaphysica da poesia europêa, e, portanto, a alma da civilização da Europa, (5) deduzir – determinada essa linha de intima evolução espiritual, e fixado qual o ultimo grande periodo literario europeu e qual a sua metaphysica – qual deva ser a metaphysica do grande periodo que se lhe deve seguir, (6) comparar a metaphysica da nossa actual poesia, tornada nitida e classificada por um confrorto definidor com os systemas metaphysicos preliminarmente descobertos, com a metaphysica deduzivel como devendo ser a d’esse novo grande periodo da literatura da Europa. D’essa comparação sahira determínada, não só definitivamente qual a metaphysica da nossa nova poesia (o que immediatamente pretendemos saber), mas tambem qual a significação sociologica que haja em ter essa poesia a metaphysica que se descobrir que tem (o que é o fim imediato e ultimo de todos estes nossos artigos). Isto é, se se constatar que a Alma Portugueza está creando, atravez da sua actual Poesia, um novo conceito emocional – e portanto collectivo e nacional – do Universo e da Vida, e que esse conceito é aquelle que na linha evolutiva da alma europêa representa um novo estadio creador, ter-se-ha estabelecido uma analogia irrefutavel entre o actual periodo literario e os que, nos periodos maximos das nações maximamente creadoras de civilização, precedem um grande periodo de vida nacional socialmente creadora, e, de resto, já são esse grande periodo na sua expressão poetica, isto é, na sua mais alta e permanente expressão. Por outras palavras – se aquillo se verificar, terá já começado a dilatação da alma europêa que representará uma Nova Renascença, ainda que essa dilatação exista, por emquanto, apenas na alma do paiz de onde essa Nova Renascença raiará para o que na Europa estiver acordado para a receber.

V

Precisamos, pois, antes de tudo fixármo-nos sobre quaes sejam os periodos capitaes da literatura da Europa. Não é difficil conhecel-os. N’um periodo literario tudo está ligado, e á grandeza do periodo – entendendo por grandeza o seu valôr creador de novos elementos espirituaes de civilização – corresponde infallivelmente a grandeza individual dos seus representantes. Escusamos, mesmo, de nos detêr no exame do numero d’esses grandes representantes de cada periodo. Basta tomar conta intellectual do representante maximo de cada periodo, e comparal-o aos representantes maximos dos outros periodos. É uma questão de altitude espiritual. A grandeza de um periodo literario mede-se pela grandeza individual do seu maximo representante. Mas porquê? Por uma razão muito simples. Se a grandeza literaria de um periodo consiste no valôr do que elle é capaz de crear de espiritual, é evidente que uma das maneiras – a mais flagrante – de medir esse valôr é vêr o valor do que elle é capaz de crear de espiritual dentro de si proprio>; isto é, a altura espiritual e creadora a que elle é capaz de elevar os seus proprios elementos espirituaes, isto é as individualidades que em si contém. Ora a altura e poder criador a que foi capaz de se elevar nas almas méde-se evidentemente pela altura e poder creador da alma que mais alto se elevar. Não temos, portanto, que medir o valôr creador de um periodo literario com outra cousa que não seja o valor do seu maximo literato – isto é, geralmente, porque a poesia é a mais alta manifestação do espirito, do seu maximo poeta. Homero e Shakespeare, as duas culminancias da literatura, provam dos periodos a que pertencem que são – como todos admittem que são – os dois maiores e mais creadores na vida da humanidade.

Guardemos, pois, d’esta analyse uma tripla constatação: (1) que um periodo literario é sociologicamente importante quando n’elle se notam figuras importantes de literatos, e, especialmente de poetas; (2) que a importancia sociologica de um periodo literario se mede pela sua maxima figura; e (3) que, portanto, a humanidade só mostra em certo periodo, um verdadeiro avanço espiritual – isto é, um augmento de poder creador – quando o maior poeta d’esse periodo é superior aos maximos poetas de todos os periodos anteriores. Esta ultima, corollaria, constatação é iluminadora da historia. Assim na superioridade de Homero a quantos poetas anteriores se divisem lê-se claramente o augmento de poder creador que a humanidade no seu periodo grego trahe sobre anteriores periodos; e assim como Homero é o primeiro maximo poeta de pleno e integral equilibrio, a Grecia Antiga é o primeiro povo plena-, lucida- e integralmente creador que na historia nos apparece. A inferioridade de Vergilio a Homero mostra que da Grecia para Roma a humanidade não avançou, que nenhum novo e lemento espiritual lhe nasceu – o que nos indica nitidamente que Roma constituiu, não uma civilização, mas o prolongamento inferior e decadente da civilização grega. Só na Renascença nos apparece uma figura culminante, Shakespeare, que accusa sobre Homero alguma – não importa quanta superioridade. – Isto indica que a Renascença marca uma evolução real do espirito humano, o attingir de um grau já super-grego de poder creador. Como, desde a Renascença, ninguem ainda appareceu de quem se possa pretender que é superior, ou mesmo egual a Shakespeare, forçoso é que se conclúa que a humanidade, se entrou já em periodo de verdadeiro avanço espiritual sobre a Renascença, não chegou ainda á culminância d’esse periodo.

Posto isto, ponhamos a nossa attenção no desenvolvimento da nossa analyse. Na literatura da Europa ha só dois periodos a que se pode chamar grandes sem escrupulos de adjéctivador. O primeiro é a Renascença, o movimento – para o nosso caso, apenas literario – que começou em Dante, culminou em Shakespeare e acabou com Milton. – O segundo é o Romantismo, entendendo por Romantismo o movimento literario principiado na Allemanha, com a sua culminancia em Goethe, continuado na Inglaterra, com Shelley por figura maxima, e acabado em França, com Victor Hugo por poeta principal. O “romantismo” dos outros paizes é cousa, além de inferior e dependente d’estes, em alguns casos com outra significação. Isso não importa agora. Cinjamó-nos á corrente representativa e central.

Estabeleçamos agora o valôr relativo da Renascença e do Romantismo. Pela nossa constatação de ha pouco, quanto ao modo de avaliar a grandeza dos periodos literarios, notamos sem hesitação que a Renascença é superior ao Romantismo. N’esse caso que valôr tem, ante a Renascença e como vindo após ella, o movimento romantico? Visto que o seu valôr é inferior, elle só pode ser uma de trez cousas: ou uma decadancia da Renascença, ou uma reacção contra a Renascença, ou o principio de uma Nova Renascença, que em sua culminancia será superior, mas que pode não o ser em seu inicio, como Dante, o maior poeta do inicio da Renascença, é inferior a Homero. – Vejamos. Partindo da constatação, que adeante se fará – e que é, de resto, tão evidente que quasi se pode dar como feita – de que o espiritualismo é a metaphysica da Renascença, torna-se evidente que, se o Romantismo é uma decadencia da Renascença, não pode a sua metaphysica ser senão uma decadencia do espiritualismo, e não poderá conter, portanto, elementos outros do que espiritualistas. Ora o Romantismo contém caracteristicamente um elemento pantheista – pouco importa por emquanto se puro ou não. Se tem um elemento a mais, não pode ser uma decadencia da Renascença. Tampouco pode ser uma reacção contra a Renascença. Se o fosse, a sua metaphysica seria inteiramente opposta á da Renascença, isto é, seria de todo anti-espiritualista. Ora, como veremos, o elemento espiritualista encontra-se presente – com mais ou menos, e por vezes com grande, nitidez – na poesia representativa dos romanticos. Não é pois o Romantismo uma reacção contra a Renascença; involve, sim, uma reacção, mas é contra outra poesia claramente anti-espiritualista essa – a poesia do século dezoito. – Por exclusão de partes temos, portanto, infallivelmente que concluir que o Romantismo é, não já uma epoca, mas o principio de uma epoca; não é a Nova Renascença, mas o movimento precursor d’essa Renascença Nova. Constatada a inferioridade do Romantismo á Renascença, não ha outra hypothese a admittir.

VI

Na classificação dos systemas philosophicos temos a considerar duas cousas: a constituição do espirito e os fins a que tende na sua actividade metaphysica.

O espirito humano, por sua propria natureza de duplamente – interiormente e exteriormente – percipiente, nunca pode pensar senão em termos de um dualismo qualquér; mesmo que se esforce por chegar, e até certo ponto chegue, a uma concepção altamente monistica, dentro d’essa concepção monistica ha um dualismo. Mesmo que dos dois elementos constitutivos da Experiencia – materia e espirito – se negue a realidade a um, não se lhe nega a existencia como irrealidade,como apparencia – o que transforma o dualismo espirito-materia em dualismo realidade-apparencia; mas realidade-apparencia é, para o espirito, um dualismo.

O genero de dualismo, porém, depende de, é condicionado por, o que se considera a Realidade Absoluta, a realidade realmente real; e é a procura d’essa realidade que é o fim da especulação metaphysica. O espirito não pode admittir duas realidades: a idéa de realidade absoluta involve a idéa de unidade. Mesmo, portanto, que o espirito admitta, como em alguns systemas – e flagrantemente no espiritualismo classico – acontece, dois principios com egual objectividade reaes, é forçado a admittir que o género de realidade de um d’esses principios é superior ao da do outro.

Temos, pois, que todo o systema philosophico involve um dualismo e um monismo. A constituição do espirito impõe-lhe, por mais que elle lhe queira fugir, que pense dualisticamente; a noção de realidade obriga-o a pensar monisticamente. O espirito não pode construir um systema pura- e integralmente monistico; e um systema puramente dualistico não seria um systema philosophico.

Todo o systema philosophico sendo, portanto, a tentativa para reduzir a um monismo o dualismo essencial do nosso espirito, é de subentender que represente uma systematização de elementos da Experiencia em torno áquella parte da Experiencia – materia ou espirito – que o philosopho, por causas que, em sua essencia, são de temperamento, considera a Realidade. Temos, pois, que, consoante para o philosopho o espirito ou a materia se apresenta como a realidade essencial, um de dois systemas pode directamente surgir – o espiritualismo ou o materialismo. –Para o materialista a fórma essencial de realidade, seja ella especializadamente qual fôr no seu especial systema, é sempre uma realidade de que forma parte inalienavelmente um elemento ou espacial, ou, pelo menos, de inconsciencia. – Para o espiritualista, atravez das varias formas que pode tomar o espiritualismo, ha sempre de central e essencial um elemento, o elemento consciencia, que é o que o espirito immediatamente concebe como sua base propria. D’aqui partem todas as theorias caracteristicas do espiritualismo – a immortalidade da alma (concebida impossibilidade de anular a consciencia), o livre-arbitrio (concebida superioridade do consciente sobre o inconsciente) e a existencia de um Deus clara- ou obscuramente tido como pessoal, isto é, como consciente.

A ideação metaphysica pode, porém, tentar monismo de outro modo mais queridamente absoluto. Não ha, é certo, outros elementos da Experiencia que não a materia e o espirito; o pensamento, porém, de certo modo tenta supprimir este dualismo. E de trez modos o pode fazer: 1.º Negando toda a realidade objectiva a um dos elementos da Experiencia, isto é (consoante já passim vimos), reduzindo o dualismo ao minimamente dualistico (ainda que impossivelmente de todo monistico) dualismo de realidade-apparencia. Conforme é o espirito ou a materia o elemento eliminado, temos o materialismo absoluto ou o espiritualismo absoluto. – 2.º Admittindo a realidade egual de ambos os elementos da Experiencia; ora como isto resulta n’um absurdo de systema – dado que a existencia de duas, eguaes, realidades é impensavel –, fatalmente essa dupla realidade tira o seu carácter de realidade de ser, basilarmente, a dupla manifestação de qualquér cousa em sua essencia tida por nem matéria nem espirito, ainda que sómente existente e real n’aquellas suas manifestações. Se essa substancia as transcendesse, isto é, fosse outra cousa, existisse substancialmente àparte da sua manifestação atravez de materia e espirito, estariamos então peorados para trez realidades. – 3.º Negando a realidade a ambos elementos da Experiencia, considerando-os apenas como a manifestação, não real mas illusoria, de uma transcendente e verdadeira e só realidade. – Temos assim, além dos citados materialismo e espiritualismo absolutos, no segundo systema citado o pantheismo, e no terceiro o transcendentalismo.

O leitor reparou que no primeiro genero de systemas acima expostos ha duas fórmas – uma materialista, outra espiritualista. O mesmo acontece ao pantheismo e ao transcendentalismo. É que, por mais que abstractamente ideêmos, realmente não temos outros modelos por onde idear senão espirito e materia. Mesmo portanto que concebâmos um Transcendente, inconscientemente e involuntariamente o teremos de conceber como feito á imagem da matéria ou á semelhança do espirito. Assim temos um pantheismo materialista e um pantheismo espiritualista. O primeiro – o de Spinoza – é o que encerra o que Spinoza, não se sabe porquê, chama Deus, nos seus attributos. Estes são como que o corpo de Deus; mas para alêm d’esse corpo Deus não é nada. É só o corpo de si proprio. Vê-se que o modelo é materialista; tanto quanto um pantheismo pode ser materialista, é-o o systema de Spinoza. – O pantheismo espiritualista admitte Deus substancia de tudo, mas permanecendo Deus e diverso atravez da sua manifestação por seus attributos. Faça-se uma distinção subtil, que tem de ser subtilmente comprehendida: para o pantheista materialista tudo é Deus; para o pantheista espiritualista Deus é tudo. Se houvesse sido pensado coherentemente, e despidamente de influencias de estreita theologia, teria sido este o systema de Malebranche.

Com o transcendentalismo acontece o mesmo. Importa fixar bem a differença entre o pantheismo e o transcendentalismo, tanto mais que estabelecemos nós estes termos independentemente de como tenham sido usados antes, assim como, de resto, fazemos esta classificação de modo absolutamente original. – Para o pantheismo de qualquér das duas especies, materia e espirito são manifestações reaes de Deus, exista elle (pantheismo espiritualista) ou não (pantheismo materialista) como Deus além das suas duas manifestações. Para o transcendentalista, materia e espirito são manifestações irreaes de Deus, ou, antes, para não errarmos, do Transcendente, o Transcendente manifestando-se como a illusão, o sonho de si proprio. – Dos transcendentalistas, para o transcendentalista materialista (Schopenhauer), a essencia real, de que as cousas são a illusão, é qualquér cousa vaga cujo caracter essencial é ser inconsciente; ora, como a consciencia é a base dos systemas espiritualistas, temos aqui um systema que, apesar de transcendentalista, o é anti-espiritualista-, isto é, materialisticamente. – É excusado definir o tanscendentalismo espiritualista, que representa a hypothese contraria.

Um outro systema pode, porém, surgir, limite e cúpula da metaphysica. Supponha-se que a um transcendentalista qualquer esta objecção se faz: O Apparente (materia e espirito) é para vós irreal, é uma manifestação irreal do Real. Como, porém, pode o Real manifestar-se irrealmente? Para que o irreal seja irreal é preciso que seja real: portanto o Apparente é uma realidade irreal, ou uma irrealidade real – uma contradicção realisada. O Transcendente pois é e não é ao mesmo tempo, existe àparte e não-àparte da sua manifestação, é real e não-real n’essa manifestação. – Vê-se que este systema é, não o materialismo nem o espiritualismo, mas sim o pantheismo, transcendentalisado; chamemos-lhe pois o transcendentalismo pantheista. Ha d’elle um exemplo unico e eterno. É essa cathedral do pensamento – a philosophia de Hegel.

O transcendentalismo pantheista involve e transcende todos os systemas: materia e espirito são para elle reaes e irreaes ao mesmo tempo, Deus e não-Deus essencialmente. Tão verdade é dizer que a materia e o espirito existem como que não existem, porque existem e não existem ao mesmo tempo. A suprema verdade que se pode dizer de uma cousa é que ela é e não é ao mesmo tempo. Por isso, pois, que a essencia do universo é a contradicção – a irrealisação do Real, que é a mesma cousa que a realisação do Irreal –, uma affirmação é tanto mais verdadeira quanto maior contradicção involve. Dizer que a materia é material e o espirito espiritual não é falso; mas é mais verdade dizer que a materia é espiritual e o espirito material. E assim, complexa- e indefinidamente...

Se um pouco nos alongámos na exposição do transcendentalismo pantheista, breve se verá que tinhamos razões para isso. De resto, o leitor que tenha bem em mente a orientação do nosso raciocinio e os caracteristicos, ainda que superficialmente lembrados, da nossa nova poesia, deve já suspeitar a que vem esta menos breve exposição no meio de umas breves considerações.

VII

Ao passar á analyse da philosophia dos dois grandes periodos literarios da Europa e perscrutação de qual a linha evolutiva d’essa philosophia, importa, antes de tudo, distinguir entre a “philosophia” pensamento individual e a “philosophia” sentimento poetico. – Tanto a philosophia do philosopho como a do poeta são questões de temperamento, mas ao passo que o temperamento do philosopho é intellectual, o do poeta é emocional; ora, o que é intellectual é essencialmente individual, e o que é emocional é essencialmente collectivo e, portanto, quando se dá n’um individuo, representativo da collectividade a que elle pertence. É portanto a philosophia do poeta, e não a do philosopho, que representa a alma da raça a que elle pertence. Encarada a questão sob outro ponto de vista, isto ainda mais nitidamente se percebe. Na obra de philosophia a forma nada vale: a idéa é tudo. Na obra de poesia a idéa e a fórma estão ligadas n’uma dupla unidade, unidade imaginativa, isto é, unidade que vém da fusão da emoção e da idéa que em sua essencia é o acto de imaginar. Ora a imaginação depende da organisação dos sentidos do individuo; um visual imagina de modo inteiramente diverso que um auditivo, um individuo de intensa vida interior e pouca attenção ao mundo externo, de modo differente de ambos. De que depende a organisação dos sentidos? Sem duvida alguma, da hereditariedade. E a hereditariedade que é que mais transmite e grava? Os caracteristicos de raça. O acto de imaginar é o que, pois, em linha directa descende da alma da raça. E como o mais alto grau de imaginar é o do poeta, é na poesia que vamos buscar a alma da raça, e na philosophia d’essa poesia aquillo a que se pode chamar a philosophia da raça. — O espaço não permitte que nitidamente, ou mais argumentadamente, se exponha este problema. Para o nosso limitado caso, o pouco que aqui se expoz deve bastar.

Consideremos pois qual a philosophia do primeiro grande periodo poetico da Europa – a Renascença. Constata-se sem difficuldade qual ella seja. É o espiritualismo puro e simples, em uma ou outra das suas duas fórmas. Occorrerá perguntar: mas não foi a Renascença inimiga do espiritualismo? Do da edade-media foi, mas esse era um espiritualismo inferior. Da fórma catholica e aristotelica foi inimiga a Renascença; mas foi para ser mais e mais puramente espiritualista, foi para se lançar no maior espiritualismo da Reforma e de Platão. Platonista foi, de resto, toda a poesia lyrica de algum valor da Renascença. É uma das provas, a mais flagrante.

Como vimos, o espiritualismo é o systema que tem seu centro de realidade na consciencia: logicamente, em seu temperamento, um espiritualista é um homem que dá attenção superiormente á vida interior e inferiormente á vida exterior. Toda a poesia da Renascença é de suppôr portanto que gire sobre assumptos humanos e não da Natureza. Assim é: o que de supremo tem a poesia da Renascença é a poesia épica – isto é, de acção humana –, e a poesia dramatica (Renascença ingleza, culminando em Shakespeare), de acção humana mais essencialmente ainda. Com isto, fica tirada a prova real.

No Romantismo surge-nos immediatamente o contrario. Cessa, a não ser em arremêdo debil de influencias da Renascença, a poesia épica e dramatica; nasce a verdadeira poesia da Natureza, e apparece um novo genero de poesia amorosa. É commum a ambas um caracteristico basilar: perante a Natureza ou perante o amor, o individuo commove-se até perder a individualidade, entrega-se. Mas não se entrega como (no caso da poesia religiosa e amorosa, não da Natureza) por vezes o poeta na Renascença fazia, por humildade; aqui, no Romantismo, entrega-se para viver uma vida mais ampla. Ora, o individuo não se entrega – e menos então se entrega para viver – a qualquer coisa exterior que não considere como real. Temos, pois, em ultima analyse, que o romantico representativo se sente parte de uma Natureza real, ainda que espiritualmente real. Estamos em pleno sentimento pantheista. Com effeito, desde o pantheismo materialista de Goethe ao pantheismo espiritualista de Shelley, o romantismo nada é senão pantheismo.

Posto isto, ficamos sabendo quaes as “philosophias” da Renascença e do Romantismo, e vendo qual a linha evolutiva da philosophia da poesia europêa, qual, portanto, a evolução da alma da civilisação da Europa. Evolue – o que de resto se podia ter concluido à priori, mas foi melhor que d’outro modo se concluisse – do mais simples para o mais complexo; parte do espiritualismo e avança até ao pantheismo, e d’ahi, inevitavelmente, subirá para a complexidade maxima do transcendentalismo, até chegar ao limite, o transcendentalismo pantheista.

Por que caracteristicos, por assim dizer, exteriores se pode conhecer o sentimento transcendentalista? Nas duas fórmas menos complexas do transcendentalismo, o materialista e o espiritualista, o individuo sente-se, como o pantheista, parte de um Todo, mas com a diferença que, para elle, esse Todo é sentido como irreal, como illusorio. Decorre d’aqui que o poeta transcendentalista (materialista ou espiritualista) fatalmente será um poeta pessimista. Mesmo que, transcendentalista espiritualista, conceba como vagamente espiritual o Transcendente, esse Transcendente, por sua propria, concebida, natureza, é sentido como Mysterio, e mesmo onde levanta abate. — Percorrendo todo o Romantismo não encontramos este sentimento; apenas, em Alfred de Vigny, e nos seus descendentes, já post-romanticos, ha um vago arremêdo d’elle. Mas, ao attentar bem nos caracteristicos que deduzimos como devendo ser os da poesia transcendentalista, revela-se-nos imediatamente que estamos em Portugal e em plena descripção da poesia de Anthero. Concluimos, pois, que especiaes condições de raça fazem do sentimento transcendentalista apanagio de Portugal. Se o transcendentalismo, sob fórma de emoção começou entre nós, entre nós deve continuar. Vejamos pois se a sua forma mais alta e complexa, o transcendentalismo pantheista, foi, acaso, attingida já.

Não é preciso mais do que attentar na mera expressão da nossa nova poesia para nos encontrarmos em pleno transcendentalismo pantheista. Logo no vestibulo da investigação nos apparece a caracteristica contradiccão d’este systema. “Materialisação do espirito”, e “espiritualisação da matéria”, “choupos d'alma”, quedas que são ascensões, folhas que tombam que são almas que sobem – não é preciso mais, repetimos. Eis, em seu pleno estado emotivo, o transcendentalismo pantheista. Quanto mais se analysa, mais claramente isto se revela. Para os nossos novos poetas, uma pedra é, ao mesmo tempo, realmente uma pedra, e realmente um espirito, isto é, irrealmente uma pedra... Mas para que continuar? A evidencia de certas provas, quando o que fica provado traz comsigo tudo em que pusemos a nossa esperança e a nossa fé, embriaga de alegria para além de se poder ficar com a lucidez intacta e o poder-de-exprimir em equilibrio.

E quaes são, enfim, as conclusões ultimas de quanto n’este artigo expuzémos? São aquellas em que atravez de todos os nossos artigos temos insistido. Se a alma portugueza, representada pelos seus poetas, encarna n’este momento a alma recemnada da futura civilização europêa, é que essa futura civilização europêa será uma civilização lusitana. Primeiro, porém, consoante todas as analogias nol-o impõem, a alma portugueza attingirá em poesia o grau correspondente á altura a que em philosophia já está erguida. Deve estar para muito breve portanto o apparecimento do poeta supremo da nossa raça, e, ousando tirar a verdadeira conclusão que se nos impõe, pelos argumentos que já o leitor viu, o poeta supremo da Europa, de todos os tempos. É um arrojo dizer isto? Mas o raciocínio assim o quér.

VIII

Feito assim o esboço psychologico da nossa actual poesia no que respeita á sua esthetica e á sua metaphysica, resta concluir approximadamente qual deva ser a resultante social das forças da Raça cujo primeiro assomo á tona da realidade ora e apenas se está fazendo, n’essa citada, poesia. Melhor dizendo, qual será a creação social a que vae chegar a alma da Raça, por emquanto no seu inicio de despertar e revelada apenas, por isso, na fórma directamente espiritual, a literatura?

Só muito informemente, por razões que já expusémos, essa creação social, em seu genero e especialidade, é antevisivel. Mas se é antevisivel de algum modo e até certo ponto, de que modo e até que ponto o é? — Determinada a metaphysica da nova corrente, queda revelado definitivamente, em sua essencia ultima e central, o que essa corrente espiritualmente é e representa. Vimos que essa corrente se traduz por um metaphysismo claramente definivel como transcendentalismo pantheista: resta saber o que dá o transcendentalismo pantheista posto em tendencia social. D’aqui não resultará claramente definida qual essa creação social – como ficar definida ao raciocinio se ainda se não definiu nas almas? – mas resultará ficar attingida na sua physionomia longinqua.

Sendo o transcendentalismo pantheista um systema essencialmente envolvedor de uma fusão de elementos absolutamente oppostos, segue-se que a creação resultante da nova alma lusitana deverá envolver, em seu resultado definitivo e ultimo, o estabelecimento de qualquér nova formula social onde uma fusão d’essas se dê. Uma rapida analyse, aqui eliminada, determina facilmente que o raciocínio permitte prophetisar que a futura creação social da Raça portugueza será qualquér cousa que seja ao mesmo tempo religiosa e politica, ao mesmo tempo democratica e aristocratica, ao mesmo tempo ligada á actual formula da civilização e a outra cousa nova. Inútil será apontar quão flagrantemente esta deducção vaga e precisa decorre da constatação já feita sobre o caracter fundamental, metaphysicamente patente, de alma lusitana. Egualmente inutil deve ser notar quanto essa futura formula deve distar do christianismo e, especialmente do catholicismo, em materia religiosa; da democracia moderna, em todas as suas formas, em materia politica; do commercialismo e materialismo radicaes na vida moderna, em materia civilizacional geral. E, finalmente, é da mesma inutilidade acrescentar, accentuando e especialisando a sua divergencia da democracia, que as formas extremas ou perturbadas desta – anarchismo, socialismo, etc. – serão varridas para fóra da realidade, mesmo do sonho nacional; os humanitarismos morrerão ante essa nova formula social, de portugueza origem, mais alta, provavelmente, em sentimento religioso do que outra qualquér que tenha havido, mais rude e cruel talvez em pratica social do que o mais rude militarismo commercialista. Console-nos isto desde já, no meio de vêr, de leste a oeste de Portugal, a nossa subhumanidade politica e a nossa proletariagem humanitariante. Tudo isso, que afinal é estrangeiro, morrerá de por si, ou á bocca dos canhões do nosso Cromwell futuro.

E a nossa grande Raca partirá em busca de uma India nova, que não existe no espaço, em naus que são construidas “d’aquillo de que os sonhos são feitos”. E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante-arremêdo, realisar-se-ha divinamente (1). Por inutil para as conclusões sociologicas que unicamente buscamos n’esta serie de artigos, abandonamos a intenção de fazer o estudo exclusicamente literario da nova corrente poetica portugueza, estudo esse promettido no principio d’este artigo. Ninguem perde com isso.

Fernando Pessôa.

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    Titles

    • Au Jardin de l’infante
    • Choupos na luz do luar
    • Coimbra, ao ritmo da saudade
    • Elegia
    • Elegia (Vida Etherea)
    • O Sonho
    • Ode on the Intimations of Immortality
    • Oração á Luz