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Chronicas decorativas - I

Fernando Pessoa

O Raio, 12 de Septembro de 1914.

Chronicas decorativas

I

A circumstancia humana de eu ter amigos fez com que hontem me acontecesse vir a conhecer o Dr. Boro, professor da Universidade de Tokio. Surprehendeu-me a realidade quasi evidente da sua presença. Nunca suppuz que um professor da Universidade de Tokio fosse uma creatura, ou sequèr cousa, real.

O Dr. Boro – sinto que me custa doutoral-o – pareceu-me escandalosamente humano e parecido com gente. Vibrou um golpe, que me esfórço por desviar de decisivo, nas minhas idéas sobre o que é o Japão. Trajava á européa, e, como qualquer mero professor existente da Universidade de Lisboa, tinha o casaco por escovar. Ainda assim, por delicadeza, dei-me por sciente, durante duas horas, da sua presença proxima.

Preciso explicar que as minhas idéas do Japão, da sua flora e da fauna, dos seus habitantes humanos e das varias modalidades de vida que lhes são proprias, derivam de um estudo demorado de varios bules e chavenas. Eu por isso sempre julguei que um japonez ou uma japoneza tivesse apenas duas dimensões; e essa delicadeza para com o espaço deu-me uma affeição doentia por aquelle paiz economico de realidade. O professor Boro é solido, tem sombra – varias vezes fiz com que o meu olhar o verificasse – e além de fallar e fallar inglez, colloca idéas e noções comprehensiveis dentro das suas palavras. A circumstancia de que as suas idéas não comportam nem novidade nem relevo apenas o aproxima dos professores europeus, pavorosamente europeus, que conheço.

Além d’isto o professor Boro tem movimento, desloca-se, não sei como, de um lado para o outro, o que, feito perante quem sempre teve o Japão por uma nação de quadro, parada e apenas real sobre transparencia de louça, é requintadamente ordinario e desilludidor.

Fallámos de politica internacional, da guerra européa, e fizemos varias incursões pelos varios phenomenos literarios caracteristicos da nossa epoca. A ignorancia que o professor Boro tinha de futurismo foi a unica benzina para a nodoa da sua realidade moderna. Mas ha algum professor de alguma Universidade da Europa que siga de perto os movimentos da arte contemporanea?

Dados os factos que venho explicando, comprehende-se que eu fosse avaro de o interrogar sobre o Japão. Para que? Elle era capaz de atirar para dentro da minha ignorancia uma quantidade de cousas falsas. Quem sabe se elle se atreveria a insinuar pela conversa fóra, como cousa normalmente acreditavel, que no Japão ha problemas economicos, difficuldades de vida para varias pessoas, cidades com lojas reaes, campos com colheitas como as nossas, exercitos realmente parecidos com os da Europa e com execraveis aperfeiçoamentos scientificos para guerras em verdade contemporaneas? D’aqui elle não hesitaria talvez em me afirmar – com que cynismo nem eu meço – que no Japão os homens teem relações sexuaes com as mulheres, que nascem creanças, que a gente de lá, em vez de estar sempre vestida como as figuras da louça japoneza, despe-se e veste-se como se fosse européa. Porisso não tratámos do Japão. Perguntei ao professor se elle tinha tido uma boa viagem, e elle cahiu em dizer-me que não – como se um estudioso como eu da porcelana nipponica pudesse admittir que ha más viagens para os japonezes, que — delicioso povo! — nem sequer se dá ao trabalho de existir. As chavenas partem-se, não comportam tormentas. A phrase «uma tempestade n’um copo de agua» ou «n’uma chavena», como dizem outros, é puramente européa.

Uma phrase houve (casual, quero crêr, no professor Boro) que me maguou mais do que outra.

Fallavamos — eu, é claro, com o desprendimento com que se tratam estes assunptos feericos — da influencia dos mecanismos sobre a psychologia do operario, quando se sabe — claro está — que o operario não tem psychologia. E o professor referiu-se aos progressos industriaes do Japão e accrescentou umas palavras, que me esforcei com metade de exito para não ouvir, sobre (creio) movimentos operarios no Japão e um fusilamento (supponho) de não sei que chefe socialista. Eu ha tempos – n’uma columna sem duvida humoristica de um diario – vira em um telegramma de Tokio constando qualquer cousa n’esse tom; mas, além de não crer que de Tokio se mandasse telegrammas – visto Tokio não ter mais do que duas dimensões –, ninguem que como eu tenha estudado a psychologia japoneza atravez das chavenas e dos pires admitte progressos de qualquer especie no Japão, industrias japonezas, movimentos socialistas e chefes socialistas, ainda por cima fusilados, como quaesquer europeus que vivem. Quem como eu conhece bem o Japão – o verdadeiro Japão, de porcelana e erros de desenho –comprehende bem a incompatibilidade entre o progresso, industria e socialismo, e a absoluta não-existencia d’aquelle paiz. Socialistas japonezes! uma contradicção flagrante! uma phrase sem sentido, como «circulo quadrado»! Se nem o inexistente estivesse livre do socialismo! Aquellas figuras deliciosas, eternamente sentadas ao pé de casas do tamanho d’ellas, á beira de lagos absurdos, de um azul impossivel, áquem de montanhas totalmente irreaes – essas maravilhosas figuras, com uma perfeita e patriotica individualidade japoneza, não pertencem de certo ao horroroso mundo onde se progride, e onde sobre o artista desabam a morbidez do productivo e a barbarie do humanitario.

E vem querer tirar-me estas convicções o professor Boro, da Universidade de Tokio! Não m’as tira. Não é para ser enganado pela primeira realidade que se me atira aos olhos que eu tenho gasto minutos distensos na contemplação scientifica e esteril de bules e chavenas japonezas. O mais provavel, a respeito d’este Boro, é que nascesse em Lisboa e se chame José. Do Japão, elle? Nunca.

Se ao menos achei japoneza a sua cara? Absolutamente nada. Basta dizer que era real e existiu alli deante de mim, duas dolorosas horas, em plena occupação inesthetica de todas as dimensões aproveitaveis (felizmente só trez) do espaço authentico. A sua cara parecia se, é certo, com certas photographias de «japonezes» que as illustrações trouxeram ha annos, e de vez em quando reincidindo trazem; mas toda a gente que sabe o que é o Japão por nunca lá ter ido, sabe de cór que aquillo não são japonezes. E, de mais a mais, essas ilustrações eram principalmente de generaes, almirantes, e operações guerreiras. Ora é absolutamente impossivel que no Japão haja generaes, almirantes e guerra. Como, de resto, photographar o Japão e os japonezes? A primeira cousa real que ha no Japão é o facto de elle estar sempre longe de nós, estejamos nós onde estivermos. Não se póde lá ir, nem elles podem vir até nós. Concedo, se me forçarem a isso, que existam um Tokio e um Yocohama. Mas isso não é no Japão, é apenas no Extremo Oriente.

O resto da minha vida, doravante, será escrupulosamente dedicado a esquecer o professor Boro e que elle – impronunciavel absurdo! – se sentou na cadeira que está agora, na realidade de madeira, defronte de mim. Considero doentio esse facto, hallucinatorio talvez, e entrego-me com assiduidade a não me lembrar d’elle mais. Um japonez verdadeiro aqui, a fallar commigo, a dizer-me cousas que nem mesmo eram falsas ou contradictorias! Não. Elle chama-se José e é de Lisboa. Fallo symbolicamente, é claro. Porque elle pode chamar-se Macwhisky e ser de Inverness. O que elle não era decerto era japonez, real, e possivel visitante de Lisboa. Isso nunca. D’esse modo não havia sciencia, se o primeiro occasional nos viesse negar o que os nossos estudos assiduos nos fizerem ver.

Professor Boro, da Universidade de Tokio? De Tokio? Universidade de Tokio? Nada d’isso existe. Isso é uma ilusão. Os inferiores e cabulas de nós construiram, para se não desorientarem, um Japão á imagem e semelhança da Europa, d’esta triste Europa tão excessivamente real. Sonhadores! Hallucinados!

Basta-me olhar para aquella bandeja, pegar cariciosamente com o olhar n’aquele serviço de chá. Depois venham fallar-me em Japão existente, em Japão comercial, em Japão guerreiro! Não é para nada que, atravez de esforços consecutivos, a nossa epoca ganhou o duro nome de scientifica. Japonezes com vida real, com trez dimensões, com uma patria com paysagens de cores authenticas! Lerias para entretimento do povo, mas que a quem estudou não enganam...

Fernando Pessoa