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Um ʺCamisa Brancaʺ

Fernando Pessoa

Sol, 20 de novembro de 1926, pp. 1-2.

Um "Camisa Branca"

O “Duce" Mussolini é um louco...
afirma-o ao “SOL" um italiano culto que ama sinceramente a Italia

A vinda do coronel Gray, delegado fascista, a Portugal, e os reparos, de varia ordem, que essa vinda levantou, levaram-nos a investigar se haveria em Lisboa, entre a parte extra-oficial (chamemos-lhe assim) da colonia italiana, algum representante dos principios contrarios com autoridade moral, e, sobretudo, relevo intelectual, para nos dizer sobre o fascismo duas palavras dignas de imprimir.

Aquele caso propicio que está sempre, devemos crê-lo, á espreita das pessoas bem intencionadas, trouxe inesperadamente ao nosso conhecimento a existencia insuspeita, nesta capital atlantica, de uma das maiores figuras da Italia, e um dos inimigos de mais estatura das teorias e da pratica (as teorias são varias e a pratica uma) do regime do Fascio, o sr.Giovanni B. Angioletti, o bem conhecido colaborador do «Mercure de France» e ha anos habita entre nós.

Conseguimos que nos levassem á sua presença, e pudemos trocar com ele as palavras precisas para reconhecer, primeiro, que estavamos diante de uma das inteligencias mais lucidas e mais precisas que nos tem sido dado encontrar; segundo, que era esse, em verdade, o homem que procuravamos.

Mal fizemos a pergunta. Não poderemos dizer ao certo se chegámos a pronunciar o nome do coronel Gray. A resposta surgiu, mais em relação com o muito que pensavamos que com o pouco que chegámos a dizer.

Os italianos não são ridiculos...

Nós, os italianos, temos – permita-me que o diga – grandes qualidades, mas o sentimento do ridiculo não se inclue entre elas, nem nenhum dos numerosos amigos, que a Italia tem sempre tido no estrangeiro, alguma vez nos atribuiu um humorismo de inglez ou uma graça de francez. Isto lhe explica, sem mais nada, missões como esta, que o paranoico genial que hoje impera, atravez de escravos audaciosos, na minha pobre Patria, arremessa, para uso de caricaturistas sem assunto, sobre um mundo que, devo dizer-lhe, o admira por o que conhece dele, e porque não o conhece a ele, nem á Italia.

–V. Ex.ᵃ disse «o paranoico genial»?

–Sim – genial como paranoico. Isso não exclue que se lhe possa chamar um grande homem. A toda a gente que destaca do rebanho humano se pode chamar grande, porisso mesmo que se destacou... Mussolini é um louco – desafio qualquer psiquiatra a negá-lo – mas a loucura, como muita gente não sabe, é contagiosa em muitas das suas formas, e é-o precisamente naquelas formas de mais perigo pode haver em se contagiar. O fascismo é um caso como o da loucura dansante da Idade Media, que atacou colectividades. No meu livro... – aqui o nosso entrevistado equilibrou, rápida, uma hesitação, e, ocultando o titulo da sua obra, reatou: – no meu proximo livro, eu explicarei...

E aqui pairou outra vez um pequeno silencio...

O peior mal do fascismo

O anti-fascista continuou, respondendo, com uma intuição quasi de bruxedo, a qualquer coisa que não havíamos perguntado:

–Tem-se dito muito contra o fascismo. Mas o que se tem dito contra o fascismo é o que de menos importante se pode dizer contra ele. Violencias? E’ o que ha de menos importancia real no fascismo. Todos os partidos esforçadamente politicos as exercem desde que as circunstancias sociais lhes garantam a facilidade de as exercer e a impunidade depois de as ter exercido. Não: as violencias do fascismo não teem importancia verdadeira. Iguais violencias, se não maiores, praticariam amanhã, se o Destino os bafejasse com a ilusão chamada poder. O que ha de verdadeiramente grave no fascismo não está nas suas violencias...

–Compreendo. Está nas suas doutrinas?...

–Não, não está nas suas doutrinas. Está, essencialmente, na sua exaltação da Italia.

–?

–Não me compreendeu? Eu não esperava que me compreendesse... Eu lhe explico, sem lhe tomar muito tempo; e, se quere saber o pior contra o regime fascista, vai agora ouvir o pior.

«Da Renascença para cá o conceito das funções externas do Estado evoluiu, e essa evolução é o fenomeno mais caracteristicamente determinante da evolução geral da humanidade. A Renascença, ao mesmo tempo que fechou a Idade Media, sintetisou a sua experiencia: e o nosso sublime Dante é o exemplo disso em carne, osso e alma... Ora na Renascença, como na Idade Media, o conceito do Estado, barbaro e primitivo, era de que o Estado, ou a Nação, existia simplesmente para criar e manter a sua propria grandeza. O progresso humano – pensa-se o que se quizer dele – destruiu este preconceito provinciano. Chegámos hoje a um novo conceito do Estado. Nenhuma nação tem direito a existir se não contribui qualquer coisa para o progresso geral da humanidade, se não é um Imperio no sentido mais alto do termo – um foco de expansão de ideias e de melhorias que beneficiem todo o mundo. E’ este o destino que a Renascença talhou para a Italia – a Italia martir, dividida, mas grande. A Italia unificada tem falhado a esta missão. Podemos até pensar que a unificação foi um erro... Que tem a Italia unificada dado ao mundo? Nada. O que deu ao mundo a Italia dividida? Tudo. Ora o mal do fascismo é que é a ultima consequencia da Italia unificada. Mussolini é, como todos os loucos, um primitivo cerebral. Reverte, por instinto nervoso, aos conceitos já extintos na humanidade civilisada. Não consegue elevar-se acima do ideal morto da «grandeza nacional». A Italia para ele é tudo, mas como Italia só, e não como mestra e aperfeiçoadora do mundo. Mussolini traiu a Italia, e com isso traiu a civilisação, porque a Italia e a civilisação são sinónimos...

… O mundo é dirigido por forças especiaes...

Qualquer coisa no tom do nosso entrevistado – uma hesitação subtil, uma vaga indecisão – prende-nos de repente. E de repente perguntámos:

–Mas Mussolini será tão louco como isso? Mussolini fará isso tudo por engano, inconscientemente?

Pela face do anti-fascista passa qualquer coisa que foi quasi um sorriso. Passa... e fica uma expressão que é mais de preocupação que de tristeza. Ergue um pouco a cabeça, que descaira, e diz:

–O mundo é dirigido por forças especiais– muito especiais mesmo – de que o fascismo é apenas uma manifestação particular. Entre o que se passa hoje na China e o que se passa hoje na Italia ha uma relação intima, que, no fundo, e nos elementos verdadeiramente dirigentes – não me refiro agora ao pobre Duce – é perfeitamente consciente. Peço a sua atenção para o que lhe estou dizendo, e a sua recordação, de aqui a dez anos, de que hoje lho disse... V. é novo; não poderá deixar de ser vivo nessa altura.

–Não percebo…

O anti-fascista abriu uma gaveta, tirou de lá uma pasta, e, de entre os papeis que nela estavam, escolheu um recorte de jornal. Logo á primeira vista nos pareceu que era um jornal português. A’ segunda vista vimos que efetivamente era. O recorte era de A Informação, jornal do sr. Homem Cristo Filho, da secção intitulada Ecos, e é, textualmente, assim:

O grande livro de Mussolini

A «Entente Internationale contre la 3.eme Internationale», prestimosa organização anti-bolchevista, expediu agora, do seu Secretariado Espanhol – Calle de Gaztambyde, 20, Madrid – a curiosissima nota de que damos em seguida uma tradução rigorosamente literal:

«Está despertando uma grande curiosidade, na intimidade dos circulos diplomaticos europeus o livro que, a par das suas memorias, se diz estar escrevendo o sr. Benito Mussolini, primeiro ministro da Italia, como uma nova especie de «Monita Secreta» para os sub-chefes do movimento fascista. Intitula-se esse livro, segundo as melhores informações, «O Futuro da Anarquia, e destina-se, ao que por elas consta, a provar que o Grande Ditador italiano não pretende, no fundo, senão criar uma sociedade nova em moldes que diferem dos sovieticos apenas em dois pontos: 1º, aquilo a que ele chama a «temporalidade do principio autoritario», que consiste em criar autoridade em qualquer coisa ficticia, para assim destacar a autoridade do organismo social; e 2º, o que ele designa «a dissociação do elemento coercitivo», isto é, a criação duma «força publica» distinta do exercito e da armada, de modo a estabelecer, segundo as palavras textuais, «uma dualidade na essencia coerciva do Estado». Estes espantosos e novissimos princípios, que, mesmo enunciados assim em resumo, mostram a altura e a originalidade do altissimo espirito do «Duce», são, ao que parece, os que têm norteado seguramente a notabilissima politica do maior chefe do nosso tempo. Pregunta-se apenas se não seria mais conveniente, e mais util para todos, que o sr.Mussolini, em vez de conservar quasi secretos estes principios, os publicasse francamente, abrindo assim uma nova era na politica europeia, já tão cansada de formulas e de falsas interpretações.»

Uma noticia que não foi desmentida...

–Mas, perguntámos nós, o que quere isto dizer? Esta noticia foi desmentida?

O anti-fascista encolheu os hombros

–Não foi, nem poderia ser, desmentida. E não foi desmentida precisamente porque o não poderia ser...

–Mas V. Ex.ᵃ diz que Mussolini

–Faça de conta que eu não disse nada... Ou, melhor, faça de conta que lhe disse apenas aquilo que lhe vou repetir: o mundo é dirigido por forças especiais, de que o fascismo é apenas uma manifestação particular.

–E a Italia?

–A Italia é eterna. E’ a mãe sublime das artes e a fecundadora das sciencias. O seu esforço arrancou a Europa da baixeza de si mesma e ungiu-se com o oleo sacro que dá o conhecimento da beleza e a luxuria da compreensão. A Italia está acima dos Cesares que saem das alfurjas, dos Gracos de pifaro e tambor... A Italia foi grande, e a Italia tornará a ser grande... Deixe acabar o intervalo...

Texto atribuído a Pessoa por José Barreto (Barreto, 2012, pp. 225-252), com base na lista de projetos BNP 189, que por sua vez é material preparatório da ʺTábua Bibliográficaʺ, publicada na revista Presença em Dezembro de 1928.
  • Names

    • Benito Mussolini
    • Caio Graco
    • Dante Alighieri
    • Edgio Maria Gray
    • Giovanni Battista Angioletti
    • Homem Cristo Filho
    • Júlio César

    Titles

    • «O Futuro da Anarquia

    Periodicals

    • Mercure de France
    • Sol: Bissemanário republicano